Água da moringa


Pedro Junqueiro viu e o homem já tava na terra.

Olhou pra onde apontava o cabo da enxada, céu azul sem chuva, a passarada pro sul, dando o pé da miséria.

O homem com a cara no chão, sem movimento, sem sinal, chegou a escavar um redondo onde caiu.

A poeira levantou feito foguetório de São João, o homem parado, Pedro Junqueiro parado, cachorro latindo, a cabrita cagando.

Pedro acendeu a guimbazinha da orelha e cusparou, a fumaça do cigarro, o homem e sua névoa de pó.

Dia inteiro com a nuca no sol, dívida no cangote, criança pra engordar, danação, despenca o homem justo nas mudas do feijão.

Examinou o cabra de perto: bunda nua de fora, carcaça forte, malhado de barro e suor, cabelo grande de mulherzinha.

Amigo? Meu senhor? Seu doutor excelência?

Mortinho, mortinho o danado, só a cabeleira mexendo com o vento, a cara comendo terra, o pinto fodendo a plantação.

Rosamaria chamou o pai pela janela, vem ver, que fazer, o garotinho queima de quente, não acorda mais, respira, se sonha não parece.

Dá água, menina, mistura de farinha, faz compressa na testinha, deu leite a cabra hoje?, pai tá na roça, virje, tem como cuidar da casa não.

Água, por bondade, quero água — Jesus!, o homem falou, estremeceu, entornou a cabeça de lado, ressuscitou.

Menina, corre que é milagre, corre e traz a moringa limpa, não esquece, nada da água pra escorrer bosta.

Rosamaria chegou que nem avião, pai, quem é?, que significa?, pai, um instante, esse homem eu reconheço…

Pedro Junqueiro catou a moringa com socorro, virou o homem, viu que tinha barba, melecado e remelado, os olhos dormentes brilhando como fogo.

Obrigado, meu filho, Deus te abençoe, Deus te proteja.

Pedro Junqueiro com ele no braços, agachado pra dar de beber, tratando seu corpo como santo, parou e não deu.

Espie se não é um furo em sua mão, é prego, martelada?, no peito do pé tem também, no coração, na oração.

Rosamaria se ajoelha e reza, do céu transparente estoura uma trovoada, Pedro olha pro rosto debilitado do Senhor Jesus e chora.

Cadê a chuva do povo e dos bichos, qualquer pingado, qualquer molhado, por que não foi bom o Senhor, pra dar de sobreviver?

Sua Agostina, Pedro Junqueiro e o amor tão inteiro, que Ele carregou e lhe deixou à solidão do mundo agreste?

Nem fale dos filhos que foi enterrando, mais um pequeno que periga não assistir o nascente, sua Rosamaria, tão cascuda, tão sem chance.

Perdão, meu Deus. — Pedro Junqueiro se ergueu, pegou a menina pela mão e foi lutar só pelo bebê — Mas de minha água o Senhor não bebe não.