Cremilda Margarida


- Perdão? Perdão? Abre esta porta, mulher, que eu mostro o teu perdão!

Jamais que perdoo esta cascavel. Pode chover anjo do céu, pode me puxar pro buraco o capeta. Perdão é coisa que não encontro por ela, Cremilda, minha margarida. Acredita, amigo, que era com essa qualidade de carinho que eu a cuidava? Todo mês tinha um regalo, comprei pulseira a prestação, restaurante do cardápio caro. Olha, vou lhe contar com o sentimento: essa mulher foi tudo pra mim. E agora taí, trancada, lacrimosa. Cremilda faz o que fez, melou, esbaldou e não tem coragem de vir me encarar o rosto.

- Tá ouvindo, vagabunda? Cara pra gozar com o safado nunca te faltou!

Romualdo? Romualdo fugiu, companheiro, vai longe já. Cabra assim só é macho no colo de esposa casada. Deixou tudo aí: calça, paletó, chave da casa. Pergunta se acertou a conta? Imagine… E olhe o que tem de cerveja vazia, olhe ali, vá lá ver, a banheira cheinha, cheinha. Peguei no flagra, há!, cortei a safadeza, que doa bastante este saco inchado. E pensar que abri o lar pra Romualdo. Lembra dele? Apareceu na festinha de Danilinho, não sei de onde veio, deve ter sido Fulé que trouxe. Mas é sempre assim, não é o que diz? Pra cão faminto não se abre a cozinha.

— Abre esta porta, Cremilda! Não vou me arredar daqui. Mais hora, menos dia, cê vai ter que vir pra fora!

Bem que Luís Renato avisou. Que eu ia fazer, que ia eu acreditar? Cremilda nunca que deu pinta. Se eu chegava, ela estava, se eu saía, aguardava. O problema, eu sei, eu sei, essa história de viajar acabou deixando a cerca frouxa. Quando enterraram Dona Eurásia, logo vi: ia ter que mandar costurar camisa em outro lugar. Não, não. Tecido chega pra mim no caminhão. O negócio foi que, sem a velha, só encontrei cozedeira distante. E todo início de semana lá ia eu que nem mula buscar a mercadoria.

- Cala a boca, meretrícia! Se a culpa não foi tua, foi de quem? Para de falar, diacho, guarda a voz pra Nossa Senhora.

Escreveram ofensa pra mim no muro de casa, acredita? Como é que o jornal chama? Pichação? Não, vou repetir o nome aqui não. Gente mais sem o que fazer, fofocando da vida dos outros. A loja não esvaziou, mas quem aguenta? Padre Miguel veio ter comigo, mas aquele é outro. Vem falar em perdoar sem nunca ter conhecido mulher, veja que graça. Não é ele que tem a marca branca da aliança. Ah não, e ontem perdi a cabeça, explodi com gosto. Quebrei tudo, filha da puta, as pratas, as louças, os vidrinhos de colônia, o guarda-roupa inteirinho.

- Tá ouvindo, escutando bem? Rasguei!, queimei! Tudo do teu virou foi pó!

Mas ó: Luiz Renato, coitado, não tem culpa de nada. Que polícia nenhum vá bater na sala dele. Luiz Renato é amigo, no sangue, desses que só chega um por encarnação. Ele não sabia que fui lá atrás da arma, me ouça, rapaz, porque essa parte é a da verdade. Eu que lhe dei o soco, eu que corri com o revólver no cinto. Perdão?, perdão eu peço é o dele. Dele e de Danilinho, pobrezinho, espero que um dia desculpe a mãe e entenda o pai, não consigo, é vergonha demais pra carregar. E agora chegou, é levantar e resolver. Minha honra só lava de escovão.

- Cremilda!, preste atenção, tenho a arma aqui na mão. Vou jogar praí pela janelinha e tu escolhe: ou sai daí e me mata ou te mata aí dentro mesmo. Compreendeu, minha margarida? Um de nós deve se enterrar.