Croniquetas da Copa — I


1.

A Espanha começou a apanhar no Brasil na derrota para a seleção na final da Copa das Confederações. Enquanto nego engraxa a chuteira do Messi e tenta invadir o treino do Cristiano Ronaldo, a hostilidade caiu toda para a Espanha. Felipão acertou nesta tática. Diego Costa é vaiado, o hino deles é vaiado. Estão isolados no frio de Curitiba enquanto as outras seleções se entregam ao povo. Cassilas já vinhan errando desde a final da Champions, eles não estão bem. Não entra na cabeça de campeões tão asseados como um estádio pode lhes cuspir na cara.

O jogo do Chile também merece destaque. Hoje vimos pela primeria vez o poder das torcidas sulamericanas. O hino foi cantado a plenos gritos, exato como do Brasil, e quando a música cessou a torcida levou o hino no gogó também como os brasileiros — algo que achávamos que era privilégio nosso.

O próximo jogo do grupo é Espanha e Chile, justo no Maracanã onde começou a coça. Daí, digo duas coisas: a Espanha não levanta e esta Copa é dos Sudacas.

13/06/2014


2.

Disseram que não teria um tostão público nos estádios.

Disseram que o juiz da estreia do Brasil não era bom sinal.

Disseram que ia ter trem-bala e avanços na mobilidade urbana.

Disseram que os turistas encontrariam um ambiente tenso.

Disseram que a Espanha tava tinindo e a Holanda no bagaço.

Disseram que os árbitros da Fifa são impecáveis.

Disseram que o Uruguai ressuscitaria o fantasma do maracanazzo.

Disseram que os argentinos seriam hostilizados no Rio.

Disseram que não dava pra jogar futebol em Manaus.

Disseram que no Nordeste não chove e só faz sol.

Disseram que os aeroportos seriam todo reformados.

Disseram que a Copa era o que faltava pro país deslanchar.

Disseram até que não ia ter Copa.

Pois a Copa só tem 3 dias.

E é melhor ninguém dizer mais nada.

14/06/2014


3.

Não adianta o time mediano achar que vai ganhar porque a torcida se abraça e canta forte o hino. Porque a torcida é tão mediana quanto o time. Os chilenos cantaram seu time à capela, os franceses fizeram o mesmo na final de 98. Não é trademark nenhum. O mérito é incentivar e acreditar pra valer. Os mexicanos atracaram um cruzeiro para vir torcer. Os argentinos tomaram Copacabana, vieram de traillers, tentaram invandir o Maracanã e cantaram, cantaram do início ao fim.

Brasileiro senta pra ver a seleção e acha que está vendo um show de rock. Os caras fazem uma jogada, a torcida delira. Os caras erram, a torcida pega no pé. É obrigação deles nos entreter.

Tá errado.

Quanto mais a torcida acreditar, mais eles acreditam.

17/06/2014


4.

Essa é a Copa dos latinoamericanos. Diria dos Sudacas, mas aí não se incluiriam os mexicanos e os costarriquenhos.

Lula errou quando desenhou a Copa para os brasileiros. A Copa é para o continente. E eles estão vindo de carro, de ônibus, de trailler, de cruzeiro. E eles estão mostrando nas arquibancadas como se torce e mostrando em campo como se joga pela torcida. Chilenos e argentinos já tomaram o Maracanã, tanto que tentaram invadí-lo, no melhor ou pior espírito latino. Colombianos deram show e ontem os mexicanos calaram Fortaleza. Europeus são muito elegantes e polidos para jogar neste ambiente. Os estádios podem estar no padrão Fifa, mas o cheiro típico de mijo e de bagunça está na memória afetiva.

E o Brasil?

Nós não nos achamos latinos, não nos achamos primos ou hermanos de nada disso. Quando, no fundo, como diz a música ruim da Copa, somos sim um continente só. Enquanto a torcida não sair da tamanca do hino e dos gritos de vôlei e se entregar à paixão do futebol, enquanto a seleção não deixar de lado essa bobagem de superioridade e ferver mais o sangue e as chuteiras, não vamos chegar domingo ao Maracanã.

Nós somos excelentes de Copa. De jogar e torcer. Mas no país dos outros. Em casa, ainda estamos tateando.

E o segredo é se entregar, como ensinam nossos irmãos latinos.

18/06/2014


5.

Existe algo de muito histórico nessa Copa.

Os corretos dirão que é o clima quente e úmido, que reduz o rendimento das equipes europeias e justifica parte das surpresas.

Os mais românticos dirão que é a efervescência dos latinos.

Por séculos a Espanha maltratou metade do continente. Inglaterra se aproveitou com os tratados econômicos. Se você pensa que seria diferente se a Holanda nos tivesse colonizado, pergunte pra alguém do Suriname.

A sensação de que já nascemos explorados é algo que vive com os latinos — chilenos, colombianos, uruguaios e, principalmente, argentinos.

Esta grande lição de história de botequim serve para dizer que não, os europeus já tiraram tudo daqui, mas não vão tirar a taça.

Pergunte ao Uruguai ou à Costa Rica.

20/06/2014


6.

Que diabo tem neste país que faz a bola rolar com mais gosto?

Que deu nascimento ao melhor jogador do mundo, ao melhor time do mundo, aos melhores artilheiros do mundo, aos melhores dribladores do mundo, aos melhores zagueiros do mundo.

Que faz o mundo se ajoelhar num lance de gol, pular e pular com a bola na rede e ajoelhar novamente quando erguem a taça — e foram cinco delas.

Que diabo tem neste país que diz para os incontestáveis espanhóis “aqui não”.

Que os holandeses tão gente fina se jogam em Ipanema e brincam nos gramados.

Que os alemães tão cintura dura se entregam ao sol da Bahia e vão aprendendo que para vencer aqui tem que rebolar.

Que os ingleses inventores do esporte voltam para casa com lições para estudar.

Que afloram as zebras, que ridiculariza os especialistas, que deixa o mundo rouco de tanto gritar gol.

Que recebe os latinos de balizas abertas, aplaudindo os uruguaios, se encantando com a Costa Rica, fazendo coro com os mexicanos, colombianos e até os argentinos.

Antes da Copa, sabíamos que o Brasil é o país do futebol.

Agora, que o Brasil é o país do futebol para todos os países.

22/06/2014


7.

Gente, tá tudo comprado.

Compraram aquele gol magistral de cabeça do holandês, compraram as falhas do goleiro espanhol, o mesmo que levantou a última taça.

Compraram toda Costa Rica — o que deve ter sido caro, já que o país traz riqueza no nome — e também os outros trouxas do grupo da morte.

Compraram os argelinos e os coreanos, uns perebas históricos, pra fazerem um jogo de seis gols.

Compraram o goleiro milagroso do México para que empatassem com o Brasil e pegassem a Holanda nas oitavas.

Compraram o Paulinho pra jogar mal e o Fernandinho pra arrebentar.

Compraram os 4 gols do Neymar — e olha que isso foi complicado, porque teve que pagar pro Neymar, pro pai, pro Santos, pro Barcelona e ainda pro cara que apresentou o Neymar à bola.

Compraram o coreógrafo que ensinou a dancinha aos artilheiros colombianos.

Compraram o fisioterapeuta mágico do Luiz Soares.

Compraram pra tirar o Ribery da Copa e o time da França voar.

Compraram aquele gol do Messi aos 46 do segundo tempo.

Compraram a goleada da Alemanha, não gostaram e pediram pra trocar por um empate difícil com Gana.

Compraram o gol de barriga dos EUA e o gol ao último minuto de Portugal.

Quiéisso, minha gente.

Tá tudo comprado, na prateteleira, é só escolher.

Quer pagar quanto?

23/06/2014


8.

A Copa vai chegando na metade, esticando o tronco pra fase mata-mata e já vai deixando saudade.

Saudade da Corácia e sua camisa mais bonita, do jogo duro que fez com o Brasil, do seu atacante com gestos ultra-direita que entrou no jogo de Camarões e deu esperança que os croatas bateriam o México.

Saudade de Camarões e suas trapalhadas, da discussão sobre o bicho, do jogador doido que deixou o hotel para ir comer na lanchonete, da comissão técnica que atrasou o vôo porque esqueceu os documentos.

Saudade dos australianos gente fina que chegaram primeiro e fizeram excelentes jogos, principalmente contra a Holanda — se tivessem num grupo mais fácil, com certeza passariam.

Saudade de torcer contra a Espanha e ver aquele olhar cão perdido na cara do Cassillas.

Saudade da educação milenar dos torcedores japoneses que limparam os estádios melhor que milhares de Comlurbs.

Saudade do batuque exótico da torcida de Costa do Marfim e finalmente aprender como se chama quem nasce lá: marfinenses.

Saudade de mais uma tentativa da Inglaterra, e seus torcedores vestidos de cavaleiros neste calorão e do bom humor com que encaram os fracassos contínuos.

Saudade da Itália, da elegância do Pirlo, do beijo que o Balotelli deu na noiva e ficou devendo na Rainha, da seleção concentrada no Portobello e daquele jogo magistral com o Fluminense.

É; saudade.

Meio como aquela hora em que você olha pra festa e nota que não tem jeito: começou a esvaziar e uma hora ela vai acabar.

Tá tendo Copa sim.

Podia não ter fim.

24/06/2014


9.

É como olhar para o álbum completo e lembrar quando você o folheou pela primeira vez, imaginando o que viria para completar as páginas vazias.

Como dar um refil num copo de vodka com gelo e aproveitar um novo drinque misturado ao gelo do drinque antigo.

Como calçar um sapato novo pela terceira vez e ele já vai cedendo gostoso, ele e seu pé começando a se entender.

Passar uns dias numa cidade nova e perceber que não precisa mais do mapa, mas ainda tem muitas novidades para descobrir.

Como decorar espontaneamente o refrão de uma nova música, um prato novo no seu restaurante favorito, mergulhar na mesma praia mas com o mar diferente.

Agora estudo emocionado as 16 seleções dos 8 confrontos das oitavas e é nisso que penso.

Que ninguém passa duas vezes pelo mesmo rio e ainda tem muito rio para rolar.

Vem aí a segunda fase da nossa Copa.

26/06/2014