Croniquetas da Copa — II
10.
Mata-mata, amigo.
Acabou o amor.
Esse México com esse goleiro maldito, com cara de manicure, e da torcida que calou o Castelão. Esses holandeses que já nos tomaram a Copa da África e agora querem levar Ipanema. Os chilenos que quebraram o Maracanã, mas se renderam ao Garrincha na terra deles. Essa Colômbia, coitada, que quando perde mata um jogador e, quando ganha, matam uns aos outros. A Grécia que só ganhou uma Euro e que os locutores não agüentam mais os seus nomes. Esses uruguaios que já nos ganharam aqui e agora vão mostrando que isso que chamam de raça é desequilíbrio. Essa Costa Rica que já deu sorte e ganhou o que tinha que ganhar. Os suíços com esse ferrolhozinho que só serve para trancar os cofres do Maluf. A França que já nos tirou de 3 Copas. Esses argentinos com seus assaltos, suas musiquinhas, seus motor-homes e esse Messi que tira o sono das nossas crianças. A Nigéria, que não fez nada de errado, mas alguém tem que pagar pelos 3 milhões de Gana entrando no país sem nada de receita federal. Os alemães que já andaram de barco, curtiram a Bahia e vestiram a camisa do Flamengo, ou seja, vieram fazer turismo. Esses americanos que precisam enfiar o míssil nuclear no rabo porque no campo de futebol, amigo, eles não ganham. Essa Bélgica que é menos sensação do que vento na batina de freira velha. Esses argelinos que pariram o Zidane.
Domingo eu quero o Brasil no Maracanã para acabar com a festa.
E expulsar todo mundo de casa usando a taça como vassoura.
26/06/2014
11.
Amanhã, torça.
Torça como torce por uma boa notícia.
Como torce para fazer sol no fim de semana. Para que consiga alugar o apartamento, que não queime o feijão, que o banheiro esteja livre e limpo. Para que ninguém repare que a meia calça está desfiando ou que o desodorante venceu. Torça como torce quando quer muito um emprego ou fechar o negócio que muda a vida. Para entrar na faculdade, que venha todo mundo para a festa, para que tenha onda e não tenha trânsito. Para que ele te peça em casamento, para que ela diga sim. Para que seus filhos sejam felizes e tenham saúde, para que seus pais estejam sempre com você.
Copa do Mundo não é futebol. Quando o juiz apita o fim do jogo e seu time venceu, o que você ouve são as palavras que torce para ouvir a cada momento: “viu como ficou tudo bem?”
Por isso, amanhã, torça. Vai ficar tudo bem.
27/06/2014
12.
A seleção não é como um bife no restaurante. Não dá pra devolver pro garçom e pedir pra passar um pouco mais ou pouco menos. O Fred que temos é esse aí, o Fernandinho que temos é esse aí. É a hora certa, o lugar certo e os homens errados. A oportunidade milenar de uma Copa no Brasil calhou numa seca de craques. Hoje, o time é Neymar e Jesus Cristo. Hoje, a perebice bateu no ventilador. A torcida tentou, é verdade. Mas se a gente fala “eu acredito” em oitavas de final contra o Chile, contra França ou Alemanha vamos fazer o que? Rezar? Com um papa argentino?
A seleção está terminal. Desenganada pela tática equivocada do jáganhou do Parreira e do Felipão. O coração ainda bate. Hoje, principalmente, no peito do Júlio Cesar. Mas sexta, contra a sensacional Colômbia, vou deixar um desfibrilador ao lado da cerveja e dos amendoins.
28/06/2014
13.
Piadinha infame. O cabra está no boteco, reclamando da mulher. Que ela não se cuida, tem buço, tem bafo, tem cheiros. Não cozinha, não lava, não presta pra nada. Até que chega um moleque gritando. “Seu coiso! Tua mulher tá na cama com o Amadeu!” O cabra então se vira pra garrafa e confessa baixinho: “Meu Deus, que vergonha do Amadeu…”
Pois ótimo. As oitavas começaram comendo soltas. Colômbia botou Uruguai pra bailar e vem bailando com seu craque camisa 10. Costa Rica e Grécia fizeram um duelo homérico, que raça desses gregos em levar o jogo pra prorrogação. Holanda, mais uma vez, assustadora. No sol do nordeste, ficou procurando sombra por 80 minutos e em 10 liquidou os mexicanos.
E o Brasil foi aquilo. Sem jogadores, sem jogadas, sem treinamento, sem fundamentos, sem centro avante, sem saída de bola, sem trocas de passe, sem alternativas e absolutamente sem meio campo. Em 58, Nelson Rodrigues mobilizou a nação por um escrete de craques desacreditados. Em 2014, essa enxurrada de jingles nos força a acreditar num time sem brilho.
Não sou doido. Não rasgo dinheiro, não taco pedra em avião nem torço contra a seleção. Quero muito que nosso futebol apareça, que o time acorde e encaixe e que domingo a gente levante a taça no Maraca.
Ainda assim, vendo o futebol, a torcida e a vontade das outras seleções, penso igual ao cabra corno: que vergonha do Amadeu.
30/06/2014
14.
Eu acredito que nunca vou comer um bolinho de bacalhau como os que minha avó fazia. Acredito que o salário vai salvar meu próximo mês. Acredito que o sinal verde é para seguir e o vermelho para parar. Acredito que a minha certidão de casamento foi o melhor contrato que assinei e irei assinar. Acredito no sol de Ipanema. Acredito que, se não beber um pouquinho de água junto com a cerveja, terei problemas no dia seguinte. Acredito em literatura. Acredito nos dinossauros. Acredito na gravidade. Acredito no poder de uma guitarra. Acredito que o Super-Homem chegará a tempo de salvar a Lois Lane. Acredito em quem não quer papo segunda-feira de manhã. Acredito em futebol e na Copa do Mundo. Acredito que de 4 em 4 anos o mundo entra em sintonia como em nenhum outro momento, que pessoas nascidas em diferentes circunstâncias do planeta se tornam irmãs mesmo em torcidas opostas. Acredito que hoje Copacabana é o lugar para se estar. Acredito que a bola é soberana e até o domingo no Maraca ainda fará muito gato e sapato de todos nós.
Mas, desculpe, não acredito nessa seleção.
Para a nossa seleção, eu torço. Bato na mesa, soco a cadeira, grito da janela, rezo pela defesa, imploro pelo ataque, comemoro o gol como o entalado roxo cospe fora o pedaço de carne — mas torço.
30/06/2014
15.
Ode aos caídos
Canta, ó Chile. Time atacado dos baixos bravos, povo com vinho nas veias. Triunfaram contra a Espanha, antiga mãe campeã, mas não resistiram a trave da cruz anfitriã.
Acalma, ó Uruguai. Seleção da raça celeste, despachou elegância inglesa e italiana para se perder nos dentes quentes do seu herói dos pampas.
Retorna, ó Nigéria. Guerreiros campeões africanos, empatando com os persas, triunfando contra os bósnios, cansando os hermanos, tombaram fortes ante os francos.
Continua, ó Argélia. Time do calor desértico, sua vitória ante a Coréia será cantada pelas dunas e oásis, sua queda ante aos germanos cobrará juros aos favoritos.
Festeja, ó México. Equipe de pimenta nos pés, torcida de tequila na voz, tão perto esteve do arremate, mas seu goleiro milagroso caiu no chute mecânico laranja.
Filosofa, ó Grécia. Sua derrota jamais é tragédia. Seus soldados espartanos sempre lutando ao minuto último, a injustiça dos pênaltis não é digna do Olimpo.
Contabiliza, ó Suiça. Terra dos alpes e neutralidade, bandeira da cruz amiga vermelha, pendura merecida o teu ferrolho pois por quase muito pouco não deu chocolate aos argentinos.
Levanta, ó Estados Unidos. O futebol invade sua terra de futebol americano, as salas praças e bares agora conhecem como a bola rola melhor nos pés do que em tacos ou cestas.
Hail, hail.
Hoje seu suor mistura aos brindes das canecas vitoriosas.
Vocês que lutaram a boa luta, vocês heróis no Valhalla das Copas.
01/07/2014
16.
Curioso pensar como esses mesmos países que hoje se bicam com chuteiras há um século se matavam com gás mostarda. 2014 contam cem aninhos do início da Primeira Guerra Mundial. O curioso continua quando, depois do assassinato do rapaz Ferdinando lá, pouquíssimos jornais deram destaque ao fato e mais raríssimos ainda foram os que tiveram nariz para perceber o cataclisma da encrenca que viria. Falamos de guerra, falamos de história, falamos de futebol. Outra bola que corre solta na Copa é a de cristal. Nossa ansiedade de torcedor dá emprego a muita gente sem tino e sem assunto. Falamos, é claro, dos nervos da seleção. Nelson Piquet tinha uma crítica maravilhosa ao Galvão Bueno, dizendo que o papudo não tinha nada que ficar adivinhando o que os pilotos estavam tramando. Na falta de certezas e de mais unha para roer, agora todo mundo é especialista em psicologia. Se a reação espontânea da seleção foi para o triunfo ou para a ruína, somente a bola, essa sim a dona absoluta, vai dizer. Como na história com agá maiúsculo, a história de uma Copa só é completa quando terminou. E fim de papo e de papudos.
02/07/2014
17.
Se zaga não ganha jogo, grandes merdas o Brasil ter a melhor zaga da Copa.
O mesmo que dizer que temos a maior democracia do mundo mas o campeão de votos é o Tiririca. Que batemos recorde de safras de soja mas temos umas estradas buraco puro e caminhões tropeiros pra escoar esse troço. Que exportamos novelas de sucesso mas o grande astro é o Toni Ramos. Que nossa música embala o mundo mas na dancinha do Michel Teló. Que São Paulo é um pólo gastronômico mas uma fatia de bolo tem preço insustentável. Que nossa beleza tipo exportação é a Gisele Bündchen, colona européia do dedinho ao cabelão. Que nossa literatura é world best-seller mas o autor é Paulo Coelho e seus romances cafonas de auto-ajuda. Que a Amazônia é o maior patrimônio do planeta mas o único jeito que encontramos de explorá-la é pondo as árvores abaixo. Que o termo “brazilian” é famosíssimo lá fora, mas como depilação da bacurinha. Que temos futebol nas veias mas a torcida nos estádios é muito melhor em fazer selfie do que incentivar o time pra valer. Que somos o país do futuro dum futuro que nunca chega.
Tá certo, tudo isso é verdade. Só retiro a parte da zaga. Thiago Silva e David Luiz são bons de roer, a melhor zaga do mundo.
02/07/2014
18.
Hoje é dia de véspera. Este mal sem jeito que aflige desde que fizeram de amanhã uma data importante. Não tem minuto que ande, não tem relógio que passe. Não tem vento que venha dar um movimento.
Hoje é dia de véspera. Que nem o menino antes do Natal, vislumbrando os presentes no espaço vazio da árvore, muitos brinquedos nada de meia ou pijama. Que nem a noiva insone na noite derradeira, encantada com o vestido branco e vazio, esperando preencher aquilo com a vida feliz.
Dia de véspera. Amanhã começa a viagem que se planejou por meses. As malas ainda abertas na sala, cartões dinheiro e passaporte separados, marcou o táxi?, qual livro vai levar?, uma tacinha de vinho para saborear o sono que não vem de jeito nenhum.
Generais antigos consultavam seus oráculos e entranhas no dia anterior a batalha, os soldados bebiam e festejavam como imortais. Pescadores perguntam a lua onde os cardumes estarão amanhã, vestibulando preparam as colas miudinhas para esconder na cueca.
Dia de véspera, dia maldito sem ultra-som para revelar se o bebê virá menino ou menina. Brasil vai ganhar? Brasil vai perder? Um jornalista diz que não, um parente diz que vai. As buzinas apontam pro bem, os cansados com a bagunça apontam pro mau, as estatísticas ficam pé no meio do muro. E o dia vai esticando lento feito bem-me-quer numa flor sem fim.
Dia de véspera. Ansiedade que não passa se você se distrai lendo, muito menos escrevendo.
03/07/2014