Croniquetas da Copa — III
19.
Não entendo esse formigueiro de camisas amarelas. As tintas no rosto, as bandeiras na janela, o gorrinho estranho para retrovisores. O buzinaço, os fogos, o povo inteiro trabalhando agora mas não vendo a hora de ir embora. Não gosto dos 700 jornalistas — a meia dúzia de queridinhos e o bando resto de recalcados. Não ouço os comentaristas, os humoristas, os relativistas. Não me emociona esses milhões de torcedores e os bilhões de expectadores. Detesto os flashes ao vivo do Olodum, do Alzirão, da alegria nos telões da Fan Fest e os personagens fantasiados de verde e amarelo. Sabe aquela aldeiazinha no meio da Amazônia que acompanha os jogos numa televisão chuviscada de 1973? Não acho graça nenhuma.
Simples: a seleção é paixão minha e ninguém tem nada a ver com isso. São uns intrusos, uns penetras, uns indesejados. Ignorantes. Só eu sei o que a seleção significa, como comove e mexe com o coração. Os outros pensam que sabem. O jogapramim da Sadia tá tentando roubar esse sentimento, mas não vai conseguir. Porque quando o Júlio Cesar pegou o pênalti, fui eu quem falou pra ele pular ali. Quando o Neymar fez o gol, eu que mandei chutar. Quando o David Luiz fez o desarme, eu que avisei que o cara tava avançando. Quando a seleção passar hoje, vou deixar todo mundo fazer festa porque sou bonzinho. Mas que fique claro: o vencedor sou eu.
04/07/2014
20.
Isso aqui não é novela nem reunião de negócios. Não é bingo de quermesse nem reunião de pais e professores. Isso é Copa do Mundo no Brasil. No Mineirão, no Beira Rio, no Maracanã. E no Maracanã se manda tomar no cú.
Então vai tomar no cú você que adorou compartilhar que não ia ter Copa mas hoje está trocando mensagens com seus amigos perguntando em que muro pra mijar vocês vão se encontrar depois do jogo.
Vai tomar no cú você que não levou fé em nada de Copa do Mundo e agora fica coçando o rabo atrás de ingressos que alimentam a economia cambista ou atrás de ingressos de marcas, de patrocinadores, de pistolão, do primo do amigo do tio que te pariu.
Vai tomar no cú você que continua dizendo que a seleção não merece — quando a seleção ganhar, vai dizer o quê, irrodemadre, que não merece ganhar o septa? Tomar no cú você que torce contra mas já combinou seu churrasco na terça e, no mínimo, no sábado.
Vai tomar no cú você que encheu a bola da Colômbia insignificante, você que diz que a Espanha vendeu sua derrota.
Vai tomar no cú você que achou bonito a invasão da argentina, a gana dos uruguaios, a cantaria dos chilenos.
Os caras vieram aqui em casa e quebraram o Neymar, amigo.
Quebraram o Neymar.
Nossa alegria, nosso pré-sal, nosso PIB que não cresce.
Vai tomar no cú o mundo.
Vai tomar no cú quem toca buzina hoje mas não tem tá nem aí pro herói que vai passar a noite na maca.
04/07/2014
21.
Eu vi na borra do café dessa manhã de domingo. Nas nuvens, na formação dos pássaros em vôo, na galinha preta da macumba na esquina. Na gritaria dos bêbados de madrugada aqui na Vila Madalena e nas montanhas de sujeira na manhã seguinte. Li nas placas dos moto-homes argentinos, na pele de camarão tostado dos alemães, no laranja onipotente da torcida holandesa. Na tinta venenosa e desnorteada da imprensa, nas toneladas imbecis do facebook. Garrincha me falou num sonho, a estátua do Belinni ganhou vida, os hermanos trouxas reavivaram o nosso orgulho por Pelé. Está no Erre do Romário, dos Ronaldos, Rivaldo e, vá lá, Roberto Carlos. Vi na soma do número das figurinhas que acabei de abrir; deu treze e ave Zagallo. Está no bigode do Felipão e do Murtosa, na lingüinha aflitiva do Parreira. Nos desarmes do Oscar, na segurança do Luiz Gustavo, no retorno do futebol do Paulinho, no chororô do Júlio César e na direita resolvida com o Maicon. Verdade: no Fred não vi nada. Mas vi na monstruosidade do David Luiz, que defende e parte para o ataque, que inflama o time e o país, que faz milagres como o gol de falta e nos fazer acreditar. Vi na radiografia do Neymar. Na fratura que colou as vértebras duma nação. Vi isso tudo, mas vou dizer o que nunca vi. Nunca vi o Brasil tão sólido para levantar a taça. (Enquanto escrevo, para fechar o clima de oráculo, ouço os moleques jogando bola aqui na praça e um deles grita “Juu-liooo Céééésar”.) As semis dessa Copa sensacional são o mais elevado hall dos campeões. Somando os títulos de Agentinha, Alemanha e Holanda, dão os 5 que o Brasil já tem, e eles são os visitantes no nosso clube. Não falta mais nada: uma seleção que estava terminal tem caminho livríssimo para se tornar imortal.
06/07/2014
22.
Amigo alemão, se eu fosse você, teria medo de David Luiz. Teria medo por ele não ter medo de mostrar os cabelos e a força que tem. Teria medo da sua boca mastigando as palavras do hino nacional como quem engole cada coração desse país. Teria medo da sua bochecha inflando quando ele corre, e ele corre o tempo todo. Teria medo não das faltas que ele faz, mas das que cobra. Teria medo de um capitão nato — como todo grande líder, ele não cresce nas salas de portas fechadas, mas sim diante dos nossos olhos. Teria medo de como ele tá doido pra agarrar essa taça com os pés. Teria medo do que ele fez no último jogo. Repare na foto. Se eu fosse você, amigo alemão, teria medo. Mas não de como David Luiz foi grande de ter ido em pessoa consolar o tal do James, que muitos aclamavam como o maior da Copa e fez merecido o gol mais bonito do torneio. Não teria medo de como David Luiz convocou a torcida a bater palmas pro colombianinho. Eu teria medo, amigo alemão, de como ele trocou a camisa com o menino e a vestiu ao contrário. O nome James na frente, em branco em vermelho, estampado em seu peito. Como um pescador mostra o peixe, um caçador exibe a presa, o xerife apresenta o bandido. Emoldurado para as lentes do mundo. “Essezinho aí, que vocês encheram a bola, agora está empalhado na minha sala. De quem mais irão falar agora?” Eu teria medo, amigo alemão, muito medo. Há literatura em David Luiz.
06/07/2014
23.
Sejamos bonzinhos: a imprensa esportiva está um lixo. No Esporte Espetacular, fizeram a seguinte chamada: “Especialistas analisam a lesão de Neymar e explicam os riscos para o atleta”. Ora, nunca houve risco nenhum e desde o início todos sabiam disso. O tratamento é repouso e analgésico e pronto; em menos de 2 meses ele volta novinho em folha. Então por que esse tom alarmista? Por que a polêmica? Por que a necessidade de deixar sempre os cabelos em pé? Jornalismo mudou nas eras da internet. O público quer notícias novas no tempo de um refresh e simplesmente não tem tanta notícia assim. O jornalismo está tão preocupado em se adaptar ao futuro que seu conteúdo hoje também busca adivinhar o que vai acontecer. Vai ver é isso. Felipão foi categórico na polêmica sobre Oscar: pra comissão técnica, nunca houve dúvida em escalá-lo. Também foi altamente malaco quando chamou os jornalistas para um papo na alcova, formando 796 recalcados e meia dúzia de mal agradecidos. O destrambelho dos jogadores, a tal neymardependência. Tudo criado pela imprensa. Amigos jornalistas: procurem analisar os fatos acontecidos e deixem isso de criar expectativas para nós, publicitários levianos e escritores românticos. Principalmente numa Copa do Mundo e numa Copa como essa, com uma bola que rola soltinha soltinha, rindo de quem acha que a entende e sorrindo pra quem se larga ao seu encanto.
07/07/2014
24.
Não vai ter Copa. Não vai ter hexa. Não vai ter água. Não vai ter luz. Não vai ter legado. Não vai ter pré-sal. Não vai ter diferença o meu voto. Não chego em casa hoje. Não vai chegar o que comprei na internet. Não vai passar das quartas. Não vai ter ninguém pra atender. Não vai gelar a cerveja. Não vai dar a carne. Não vai ter torcida. Não vai ter no meu tamanho. Não vai chegar a resposta. Não vai dar tempo. Não vai ter final contra a Argentina. Não vai dar pra pagar. Não vai crescer o PIB. Não vão baixar os juros. Não vai ter justiça. Não vai dar praia. Não vai fazer sol. Ele não vai ligar. Ela não vai atender. Não vai pegar o pênalti. Não vai ter ingresso. Não vai dar pé. Não vai ter mesa no restaurante. Não tem jeito esse país. Não vou ter fim de semana. Não vai ter prazo. Não vai ter verba. Não vou pegar o trabalho. Não vai mudar o esquema tático. Não vou ter leitores. Não vou ter aumento. Não vai ter lugar pra sentar. Não tem saída. Não vai mudar nada. Não vai mudar nunca. Não dá pra jogar sem o Neymar.
Só por um dia, só amanhã, começando as 17h, ali naquele campinho em Minas, ali ali com aqueles malucos de camisa amarela, chega de não.
07/07/2014
25.
Temos que ganhar, claro que temos, dizia a nação. Da primeira vez perdemos, tal uma noiva roubada na noite de núpcias, então agora temos que ganhar, sim o temos. Mas algo desandou quando o juiz apitou e a bola rolou, o galo real da Copa cantou. Pois não temos Pelé e Garrincha, Bebeto Romário e Ronaldo, nossos craques formados na sala de parto? Não, amigos, dessa vez o time é feito de intercambistas, brasileiros formados em Coimbra, jogadores de futebol desconhecido em nossos estádios da esquina. Ah, mas temos a torcida, apaixonada organizada calejada, como não? Não, meus amigos, dessa vez as arquibancadas recebem um público de shopping center, não há foguetes nem bandeiras, somente auto-retratos e ingressos inflacionados, sequer os cantos nós cantamos. Ah, mas e a camisa, a amarelinha não ganha jogo? Desculpe, senhoras e senhores, na partida de hoje o adversário foi estrategista, um sabotador infiltrado para causar confusão: a camisa que vestirão é a do clube mais querido, tática clara para dividr a nação. Não é possível!, temos que ganhar!, temos Neymar! Tínhamos, meus queridos. A joelhada no craque foi um tapa em cada cara. E assim as camadas foram caindo como a roupa do imperador, tantas certezas ruindo como ruiu o pobre viaduto, nos deixando incrédulos nos levando à nudez. Sim, meus amigos, agora estamos nus. Nus como os índios, a parte mais primitiva do nosso povo, aquele que sempre soube ver nossa terra como realmente era. E nisso a obrigação de ganhar se desfez como ladainha de palanque. Nisso a Copa ficaou clara como o sol nascendo em Copacabana. Nós não temos que ganhar nada; quem foi que inventou isso?, quem é que está torcendo por nós? Nós queremos ganhar. A sutileza semântica que muda a História; agora sim, mais do que nunca, nós queremos. Eu quero, você quer, o escrete quer. Acabou a pressão, que se dane a obrigação. Só sobrou a vontade. E com a vontade cresce o tal do gigante.
08/07/2014
26.
Minha avó Lucy, minha única avó viva, estava no Maracanazo. Em 2002, vimos a Copa na saudosa casa de Teresópolis, logo Teresópolis. Na véspera das oitavas contra a Bélgica, fomos a uma pizzaria e eu perguntei: “Lulu, como foi perder pro Uruguai?” Ela disse que foi horrível, um silêncio oceânico. Falou de sua raiva particular contra o artilheiro uruguaio. Quando o jogo acabou, o maldito ainda se ajoelhou e arrancou tufos do gramado, espumando babando, a grama na boca entre os dentes: “Ganhamos aqui!”
Não tenho filhos, mais longe ainda de ter netos.
Até lá, eu penso como falar com eles sobre o dia de hoje.
08/07/2014
27.
Tá puto com a seleção? Tá triste com a derrota? Tá com vontade de arrancar os bigodes arrogantes do Felipão, essa peça viva de museu? Tá querendo enforcar em praça pública o Marin e toda a corja coronelista que afundou nosso futebol? Tá se sentindo um idiota por ter acreditado num time claramente sem talento e sem preparo? Tá com vergonha da aula de bola e honra que recebemos do alemães? Tá com raiva da milonguice autêntica dos hermanos? Tá doendo porque outra seleção visitante vai levantar a taça no nosso Maracanã? Tá ardendo porque não foi dessa vez e temos que esperar mais 4 anos? Tá sentindo a melancolia de fim de domingo porque a Copa só tem mais um fim de semana? Tá querendo matar o Fred? Tá com medo que agora o que sobra é falta d’água em São Paulo, PM facista e o circo corrupto das eleições? Tá de saquinho cheio e trocou sua foto do face de volta por algo que nada lembra o país ou a seleção? Tá cansado de chorar? Tá zoando quem chorou? Tá cansado de quem zoou quem chorou? Tá exausto de pensar que nesse país entra derrota e sai derrota e nada muda?
Então muda você, meu amigo. No copo ainda tem três dedinhos e o copo é a saideira. Muda você e torça no sábado. Não por eles. Não pelo terceiro lugar, coisa que nós, brasileiros, torcedores maduríssimos e maravilhosíssimos acostumados ao tudo ou ao nada, desprezamos tanto. Torça pela sua torcida. Torça por quem esteve do seu lado e dividiu com você as alegrias e surpresas dessa Copa eterna. Pode xingar o Felipão, claro, eu vou xingar também. Só não tira a bandeira da janela. Bota mais uma carne nesse fogo. E lembra da Copa na esquina da sua casa não como a que você perdeu, mas como a que você fez.
10/07/2014