Euclediana


Cebola? Coentro? Pimentão?

De repente o armário de temperos se tornou uma pirâmide de hieróglifos. Euclediana olhou para os vidros incapaz de tirar sabor dos ingredientes. A panela de pressão apitava feito um trem em sua direção, as labaredas do gás azul a enchiam de suores frios. Provou o caldo do assado e estava uma lavagem só. Perdeu o jeito a cozinheira.

- Euclediana, ande. Tenho fome.

A pança do esposo lhe clamava sem afeto. Ela já enganara Geraldo com um cesto de pão dormido, mas o porcalhão roncava por um pratão de colher. Euclediana, as mãos aflitas no avental, buscava uma rápida solução. Tudo branco. Esvoaçaram seus anos de fogão.

— Que acontece, Euclediana? Não se come mais nessa casa?

Aconteceu que a desastrada trocou tudo na panela. Sal por alho, bugalho por açúcar. Entregar às preces era o único concerto. Sem jeito, sem apelação, Euclediana despejou a gororoba no prato fundo, serviu o marido e retornou para o esconderijo da cozinha.

Geraldo chafurdou batucando o garfo na louça. Parava para um gole d´água, soltou um arroto azedo. Euclediana perguntou à pilha de louça onde tinha errado a mão. Carne passada? Ovo fedido? Seu tempero era tão talentoso. Como foi perder o jeito dessa maneira?

O marido terminou. Euclediana encolheu as orelhas aguardando a sentença. De uma maneira ou de outra, o gordalhão ia querer satisfação. Se não lhe agradasse a mesa de comida, a mulher não escapava da cama do amor. Daí o esforço tão dedicado às refeições, o segredo mágico das receitas. Gordura por gordura, mil vezes ela preferia os pratos sujos à pele do sebento.

- Aninha, meu amor. Acabe com a arrumação que logo lhe aguardo no quarto.

Tão prendada, tão sem sorte a mulher. Restou somente o jeito de aturar.