Leite do peito


Toquei o café pela primeira vez. Colhemos a água nas calhas e fervemos em um capacete, o café forte e desagradável. Leite do peito devia ter este gosto, o sabor de estar vivo.

Bebemos eu, Yuri, os primos Tovarisch e outros dos rapazes. Yuri despejou um gole de vodka, nunca descobri como sua garrafinha não secava.

Yuri contou suas mentiras até a madrugada. Adorávamos ouvi-las, fingíamos acreditar para não estragar a diversão. Tivemos sorte e dormimos mais de quatro horas.

Acordamos com um projétil que destruiu o lado oeste da igreja. Hoje os alemães e seus tanques avançavam cedo.

O tenente nos convocou em meio aos estilhaços, o curativo de seu braço amputado aberto e sangrando. Fugimos da igreja e a torre desabou. Não lembro de ter visto um dos primos Tovarisch.

Chegamos à casamata do canil. O tenente deu a ordem, entramos e amarramos os explosivos aos animais.

A estratégia dos cães era um orgulho do exército, uma arma baseada no reflexo condicionado. Antes da guerra, eles foram treinados para encontrar comida debaixo de tanques velhos. Agora, com os tanques reais, bastava acrescentar granadas à sua corrida.

Soltamos os cães e eles cumpriram seu propósito, se explodindo e inutilizando muitos tanques. Um terror para o inimigo, animais ágeis e impossíveis de matar.

Os veículos eram muitos. Continuaram a avançar e não havia mais cães para impedi-los.

O tenente gritou para pegarmos os explosivos e nos atirar aos carros de combate, era nosso dever pará-los a qualquer custo.

Nenhum de nós se moveu. Ele sacou a pistola e atirou em um dos soldados, Piotr. A pátria não ia tolerar covardes.

Yuri foi o primeiro a obedecer. “À Mãe Rússia e todos os seus filhos da puta!” Virou sua garrafinha, agarrou-se a uma tira de explosivos e partiu. O primo Tovarisch, os outros rapazes, todos sumiram correndo para o campo aberto.

Não consegui sair do lugar. O tenente me apontou a arma com seu único braço. Meus camaradas se sacrificando e eu sem me mexer. Senhor, não me deixe morrer como um cão.

Um morteiro estourou no tenente e fui atirado para longe.

Acordei e já era noite, nenhum movimento de russos ou alemães. Da batalha, restou somente eu e a vergonha de ter decepcionado os meus colegas, uma ferida para a vida inteira.

Manquei pela desolação e descansei nos escombros da nossa igreja. Colhi a água na calha e fervi em um capacete, o café forte e desagradável.

Yuri apareceu coberto de fuligem. Puxou sua garrafinha e serviu da vodka que nunca acabava.

Toquei o café pela primeira vez e brindamos, eu e meu amigo.