Maria Leporina


Maria Leporina, na torre da cozinha, picando e chorando a cebola.

Ouve a criançada gritando da rua, “desconjuro, Leporina, só o diabo que te beija.

A faca de Leporina maltrata os pedacinhos carnudos, o sangue da cebola escorre para a pia.

“Só o Cão que te quer, Leporina, as crianças pela janela, demônio que são elas.

A acidez espeta o olho, a lágrima pinga e ela lambe, a língua eqüina pelos dentes sem beiço.

Leporina, Leporina louca, quem tem coragem pra sua boca?


Maria Leporina, no quarto enclausurado, apertando e rezando o terço.

Minha Santa Mãe, mãe do Pai, mãe do Filho, protege eu no meu caminho.

Ela se ergue dos joelhos, afasta o véu do rosto e dá sua bitoca rachado na imagem bibelô.

A vela amolece a cera, a chama escura nas paredes, Leporina abre o guarda-roupa e se enxerga no espelho para se deitar.

Seu reflexo lhe sorri, “ai ai, boca de caveira, tá rindo de quê?.

Sopra a vela sem fazer bico, sua cama sozinha de tão fria, adormece e ronca, vibra o nariz feito corneta.

Seu sonho tem lábios, tem amor e calor de homem, passa batom, canta parabéns, que delícia, restinho de calda na boca inteira.

Leporina, Leporina danada, quanta cor tem a sua estrada.


Cido Beberrão, no umbral do casarão, cantando e chamando Leporina.

Faz o homem a serenata, bambo dum lado pro outro, “cadê Leporina, nossa musa desbocada?

Ela aparece no alto da janela, de véu e composta, “cala boca, cabra doido!, te taco um saco de bosta.

Leporina, Cido se rende com os braços pra cima, “ouça você, venho sem agressão, tenho pedido a fazer.

Destranca os cadeados de proteção, Leporina de trás da fresta da porta, sua voz de trás do véu, “ande, fale, tenho sono pra voltar.

Leporina, “me permita a intimidade, trago um desafio do birosca, cem vinténs, mil tostões, apostaram com Cido se ele retornar com seu véu na mão.

Olhe que audácia, espie a ousadia, o bêbado se achega e continua, “dona Leporina, tem negócio, jeito fácil, me passe agora o véu, eu mostro de troféu e divido contigo o montante.

Ela decide a resposta, na sua frente um homem de bandeja, ensopado de aguardente, mas ainda assim um macho de nascença.

Desamarra o véu das orelhas, a carranca dentuça, rosto ratazana, “toma esse pano, guarde seu montante, quero de troca é um beijo bem dado.

Cido Beberrão está distante, tanta cana na veia, tanta mais vai comprar com o dinheiro, traga o ar da noite escura e cola sua boca no crânio sorridente.

Maria Leporina, no portão enamorado, sugando e mastigando o bêbado.

Cido Beberrão tenta dar o romance por encerrado, Leporina o abraça feito vingadora e abre seu bocão deformado.

Beija, beija até não sobrar mais nada, seu beijo apocalipse engole tudo, some com ele no vazio entre a boca e o nariz.

Do Beberrão só resta o chapéu, seu bafo e lembrança levados junto com o vento.

Leporina, Leporina besta, tenho pena de quem te beija.