Menina na tempestade


Gabriel Beautrace, o naturalista, deixou sua cabine e a enxurrada lhe cuspiu a cara.

O aguaceiro escorria sem misericórdia, Deus perdeu o coração, o tanto que jorrava, a água que mandava, descia das calhas do galeão como corredeira.

Foram os espécimes, seus potes de insetos, caíram pelo balanço labirintite, volta aqui, rola prali, criançada na gangorra do tombadilho.

Beautrace partiu atrás, sal no peito, frio na vista, enfrentou lufada e escorregão, catando suas descobertas feito uma tia desesperada.


Céu escuro, troço violento, trovões sem saber de onde, os raios sem saber o próximo, estalo!, explosão!, valei-nos que Deus acordou furioso.

A tripulação espalhada na correria, recolham as velas descabeladas, amarrem firme estes barris, Nossa Senhora, tranquem logo os víveres na gaiola.

O Capitão um capeta delirante, ordenou ser amarrado, chumbado, preso ao timão pela corda serpente.

Gorgolejou com os pulmões, gargalhou como uma viúva louca, ‘molhe mais, vente mais, minha menina o Senhor não naufraga!.

Seus marujos visíveis nos relâmpagos estroboscópicos, agora esticam uma corda, agora estirados no convés, agora rezam à garrafa de rum.

O navio carregado pela avalanche do oceano, que chance terão suas almas?, pra que destino lhes suga o redemoinho?.


Beautrace um suplício em direção à cabine, agachado, bambeado, um braço empilhando três jarros de borboletas, o outro se apoiando nos mastros e canhões.

O barco subia, o barco descia, a porta a uma ironia do seu alcance.

O naturalista olhou e se apavorou, um jarro de besouros passou entre seus pés, girando sem freio pro mar.

Agarrado às madeiras velhas, o moleque Mirandinha também viu, se recuperar estes bichos, certeza!, Beautrace o adotará como aprendiz.


O vidro cai na água, o menino se livra das cordas e salta o herói alado, o mergulho sob uma pratada de orquestra.

Nada no estômago das ondas, chega até o jarro e agarra-se ao medalhão salva-vidas.

Os besourinhos sobreviventes e amontoados, as patinhas vagarosas pelo ar, as pernas do menino gastando a bravura.

Ele grita para o vulto do barco, a água rouca encharcando a voz adolescente.

O Capitão voltaria com sua menina, nem homem, nem besouro, se esquece para trás.

Seu fôlego falhando e o navio se distanciando, a esperança tola ninguém ouviu.

‘Meu Capitão, doutor Beautrace!, já iam lhe jogar a bóia, ‘aqui!, claro que iam, ‘aqui!, já iam já.