Milho


Eu gosto.

De enfiar a mão num monte de milho.

Na vendinha de seu Aubécio tinha que era cheio.

Lentilha, feijão, arroz, amendoim, feijão — agora daquele mais claro.

Os sacões de palha seca, vindo de longe do lombo do burrico.

Coloridos, riquezas, grãos do arco-íris.

Mamãe pro balcão, cachaça pro pai, o resto descrito no papel pardo, café, toucinho, papel de bunda.

Eu perdido, o mercadão labirinto, caminhando pelas torres de lata, as bolachas glacê, os shampoos trancados de cadeado na vidreira.

O chão corrido de madeira murcha, frestinhas pro submundo escuro, o calção da porta apagado de tanto pisão.

E enfiava a mão no milho, dourado, milhões.

As duas, mergulhadas — era água de poço de tanto milho, no ar, as mãos casadas irmãs como dois passarinhos.

Tinha energia aquele milho, do chão e da terra, do super herói voador, mexer era passe de mágica.

Grão duro, amarelo vivo, natural, o pontinho branco que nem unha, essa me olhando agora.

Era daquilo, do milho, do tato, disso aí que diz do sensorial.

Gostei de muita coisa depois. Na vida hoje são mais poucas.

Até morrer vai ser menos, menos.