Nos remos da galé
Velho:
Nunca dormi com um negro. Um africano, o colar de dentes de leão, o cheiro preto, o corpo troncudo. Sim, o negro é o que me falta. Só mais ele, mais ninguém, o negro oleoso para me foder e libertar.
Coro:
Tudo a galé me deu. Tudo a galé me dá.
Velho:
Sou o capitão da galé, sou seu escravo mais desgraçado. Ai do dia que embarquei, tantos anos, a pele nova e esticada, ainda me ardiam os olhos com o sol. O Rei me mandou à galé para pilhar e conquistar, fazer sua guerra, silenciar os inimigos para o fundo do mar.
Coro:
Avante galé de sangue. Avante galé de fogo.
Velho:
Saqueamos os portos, bebemos seu vinho, fodemos suas filhas. A vela temida no horizonte, nossas barrigas estufadas de pão e azeite. Não havia adversário, de carne, osso ou ferro. Nas vitórias cristalinas, nos clarões da batalha, renunciei à honra, traí meu Rei. Queria o ouro do porão só para mim.
Coro:
A galé viaja sozinha. A galé viaja sem fim.
Velho:
A tempestade escureceu o mar como chumbo, punição dos deuses, as ondas, o vento, a morte no relâmpago. A vela arrebentou e voou, a esperança perdeu-se à deriva. Só a galé ouviria minha prece, rezei por uma nova vela e ela apareceu por mágica no porão. A tripulação a amarrou, o barco ganhou rumo e bateu a tormenta. Nas águas seguras, pedi aguardente para celebrar. As garrafas surgiram no mesmo porão, bebi, bebi e ensopei a alma.
Coro:
O desejo da galé é meu. O desejo da galé é dela.
Velho:
A galé tornou-se uma arca. Quando quis a ninfeta mais bela, ganhei-a com os peitos crescidos, a boceta verde e doce. Quis banquetes e apareceram peixes e música, frutas e dançarinas. Fodi mulheres das raças do mundo, seus cabelos como arco-íris no meu punho. Deuses!, como fui rei na galé, o mar profundo a minha terra, o barco a galope na espuma, até o vazio me tocar com o sol e seu vermelho poente. Que era um rei sem o amor da rainha?
Coro:
Fuja da galé. Venha para a galé.
Velho:
Desejei uma esposa e recebi Núbia. Seus braços escorridos, seios de leite e mel, ancas para me dar um filho. O menino nasceu forte, cresceu no vai e vem do tombadilho. Bolos, vestidos e brincadeiras, a galé provia pai, mãe e filho com o porão infinito. Núbia se cansou da loucura abundante, a fartura irreal não era ambiente para a criança. Escaparam em uma madrugada de lua opaca. Para que buscá-los na terra firme? A galé me daria uma nova família.
Coro:
Na galé a perdição. Na galé a solidão.
Velho:
Nas tantas esposas que tive, nos filhos que ganhei, a galé sorriu sua maldição, prazer sem felicidade, alegria sem amizade. Minhas famílias fugiam como a brisa, iam morar pela costa com o amor que me negavam. Para o inferno com todos! Eu podia ter um harém, uma adega, me fartar de vinho e suor, perseguir o mar e sua liberdade. Sozinho em meu leito, a verdade vinha conversar, o medo de abandonar a galé e sua fonte, de ir atrás do sonho completo, a mesa com a família feliz.
Coro:
Galé que os anos passam. Galé que os anos descem.
Velho:
O prazer!, me soltei ao prazer e suas correntes. As mãos me puxando para cama, as bocas me engolindo para o quente, as mulheres pelo chão se debatendo como peixes. Minha mente virou corpo, os membros para trepar, fantasias cuspidas do porão. Contei os anos fodendo, socando para dentro a dor de não ter ninguém. A pele, os cabelos caíram junto com meu pau, um rabo murcho e sem vontade. A galé me deu os garotos de solução, sua juventude a me foder e me gozar.
Coro:
Livre da galé. Livre da galé.
Velho:
Quantas vezes reconheci um filho no cais de um porto? Quantas vezes vi uma esposa me chamando de um penhasco? Eu de pé no balanço, braço apoiado no mastro, as costas cansadas pedindo um lar e sua paz. Por que não vou agora? Mergulho até a praia, aos braços de Núbia e de meu filho, ou naufrago tentando. É o negro. O negro e meu tormento, o negro, seu pau e minha fraqueza, o negro que me lembra que a vida é feita de carne. Ouçam, ouçam, os dentes do colar já chocalham no porão.