Ovareio


Hoje fará um sol de festa.

Noite se faz fraca, madrugada se torna morna.

Estrela solta poeira, grilo canta violino, coruja gorjeia no escuro.

Espie, espie se o vento não brisa adormecido.

Farfalha o matagal que nem cafuné.

Nisso o sol dá pinta de nascer.

O astro entrão pega mão na charrete e varre tudo quanto é estrelinha.

Expulsa a lua feito marido que chega de bêbado.

Enxágua o preto com que o brilho traz alegria.

E ela ali bem a Villa.

Villa de Santo Antão do Rio Luz.

Nosso antigo arraial deita na noite cristalina e arruma cama no sertão.

As minas, casinhas e pontezinhas, igreja em construção.

Quando o sol, espia se não é o sol.

Colore o Pico do Barão e entrega o verde da mata.

Desenha rosa o contorno da serra.

Acorda e veja e viva.

Hoje o sol será de festa.


Orfanato no Meio do Mato.

Casarão coberto de silêncio, portas, janelas e pálpebras fechadas.

Logo breve o galo cantará.

Internato inteiro dorminhoco, a criançada recolhida de pijama.

Nos corredores anda o descanso, nas paredes o frio cochila.

Mas ouve agora, nheco nhaco, se não é passo no assoalho?

Nheco nhaco, será quem levantou para uma mijadinha?

Engano, nada de não.

Foi ela Deodora, Deodora primeira a acordar.

Elas as outras todas, amigas e unidas no dormitório das mocinhas.

Deodora da soneca sapeca, já dormiu de olho desperto.

Espreguiça, levanta, confere a alvorada em brasa.

Caminha com pata de ganso e não pia um pio.

Chama Flora Régia e Leandrina.

O dia boceja e se anima, a noite entende e se esconde.

Deodora sussurra para as duas.

“vamo, vamo. hoje pegamo esse garoto.”


Leandrina, Flora Régia e Deodora.

Em cada cara a infância gostosa.

As três órfãs feito fantasmas, se alguém escutá-las o plano falha.

Saem do quarto sem pisar peso.

Abrem a porta lenta e cautelosa, ô garota sem barulho!, descem a escadaria preparando diabruras.

Escapam pelo grande salão.

Mobílias quietas que nem estátuas, cortinas longas e relaxadas.

Lá fora dão com o amanhecer.

Na sombra silhueta, o solar casarão diz vão, garotas, esta é era de aprontar.

Elas ganham o quintal e sua corrida livre.

Sabiá bem-te-vi curió, a passarada fofoca danada.

O sol vem crescendo o brilho.

Curioso a tanto assobio.


“Ai que tô com frio”, diz Flora Régia.

“Ai comigo é fome”, diz Leandrina.

Das três, Deodora força decisão.

“Agüenta que já esquenta. Mais um pouco te alimenta.

Querem ou não dar a forra de volta?”

As duas entreolham e concordam.

Flora Régia das sardinhas celestes, Leandrina da barriga gordinha. Deodora e seu nariz não abaixa por nada.

Entram pelo pomar, rápido quase lá!, vão entre roças e currais.

Depois do chiqueiro atingem o destino.

Entram no galinheiro, aí sim se fala.

O galo canta e o sol levanta.


CUCURUCUCUUUU!!!


Nico Menino acorda num coice.

Garnizé esgoelado, grito rouco para lá de chato.

Toda vez lhe tirava do sono com susto.

Nico coça remela, meio nesse mundo ainda no outro.

Vislumbra seu dormitório o dos moços.

Os colegas os garotos, eles juntos somando todos.

Dormindo de boca babada que nem nenê na fralda.

“Bando safado! Desperta que o dia já raia!”

Menino sai com a peste, socando colchão e puxando coberta.

A meninada pula de pé ou senta na cama.

Quem acorda de pinto duro leva travesseirada na fuça.

Um azougue uma barulheira, em cada rosto a meninice travessa.

Justo contrário das mocinhas sorrateiras.


Para fora, garotada!

Dia desses não permite preguiça.

Num instante de espirro, as crianças se espalham feito borboleta atrás de cor.

O casarão de sonolento muda o pé para correria.

Uns vão à cozinha tirar dentada de pão no forno.

Outros trepam em árvore e lambuzam da fruta.

Tem quem vai na vaca e bebe leite, tem quem vai no rio e toma banho. Cagão se apressa e passa manhã na casinha.

É bonito, mundo bom de estar vivo.

Orfãzada cheia de vida botando vida na Villa.


Nico Menino faz que sempre e vai no galinheiro catar ovo.

Ovo cru e ovo fresco é corta fome do garoto.

Com ele Henricão e Manolim.

No caminho, pé no chão e terra molhada.

Vão bolando plano novo para como perturbar as meninas.

“Posso botar sapo na fronha.”

“Pó de mico pra coçar a ximbinha.”

“Jogo bosta do telhado.”

“Taco fogo no vestido novo.”

“Espalhar que elas amigam com o tinhoso.”

“Fecha boca, seus dois fanhos!

Terreiro hoje está estranho.”


Nico Menino, Henricão e Manolim no bico do galinheiro.

A cerca de palha trançada, casinha de madeira torta, viveiro cheio de poleiro.

Era para ter os pintos ciscando soltos, cacarejo das franguinhas, galo macho o rei do alto.

Mas acontece um vazio, não se vê nada de bicho.

Menino e os amigos adentram desconfiados.

Movendo o mesmo pescoço galináceo.

Manolim mais pequetito, Henricão já cresce um bezerro.

Nico Menino não é alto nem corpudo, ou tampinha nem magro.

É sim guri que nasceu atentado.


Se quer saber que se dane.

Nico dá mais crédito à fome que ao receio e entra firme pela portinhola da casinha.

Vai logo metendo mão nas galinhas chocas.

Tateia os ninhos de feno, vasculha em uma, procura em todas.

Nada, nada de ovo.

Agora sim franze os olhos e cerra a testa.

O sol nascido vai subindo.

Estão aprontando com o Menino.


“Valha-me nosso Santo! Corre corre que é ataque!”

Manolim grita de repente e Nico encaixa a cara fora da casinha.

Leva em cheio um ovo na cabeça.

A casca espatifa, gema escorre que nem gosma.

O garoto não assimila de onde surge a surpresa.

Voa ovo em Henricão, voa ovo em Manolim.

Nico tenta fugir e tropeça na pressa.

Fica no chão um alvo marca tão fácil.


Avante, meninas, a hora é sua.

Deodora, Flora Régia e Leandrina erguem do esconderijo.

Tem com elas um cesto de ovo munição.

Vão jogando, vão acertando, vão alvejando.

Gargalhando e se matando com sabor da vingança doce.

Os garotos desistem, ajoelham, pedem rendição.

Enquanto tem ovo elas vão atirando.

Clara no olho, gema no peito, casca no cabelo.

Eles vão tomando, se melecando, aceitando hoje o triunfo é delas.

Vida de criança é uma aventura por instante.

E o jogo da vez chama guerra de ovo.


BELELÉÉÉMMM!!! BELELÉÉÉMMM!!!


Até que o sino toca.

Toca fora do momento de tocar.

A bagunça no galinheiro congela no ar.

Os seis se viram atentos para a banda da igreja.

Será por que o sino agora?

Deodora um último ovo na mão.

Nico Menino emporcalhado do recheio.


A resposta chega que nem vento.

A gritaria avoluma de boca em boca pela Villa.

Notícia repetida igual corrente se dando mão.

Quando encontra os órfãos no galinheiro, a nova é tão clara quanto o sol.

“Vó Naíde sarou! Benção do Santo!

Santo Antão milagrou, vem ver que Vó Naíde sarou e acordou!”

A boca dos meninos se espanta.

Depois sorri acima de tudo.

Deodora e Nico Menino, Henricão Flora Régia, Leandrina e Manolim.

Esquecem a chacota do jeito que foi.

E somem dali os órfãos netos num rabo de poeira feliz.