Pitombeira e o pederasta ou Fogo no puteiro


Pitombeira terminou o serviço e veio pra fora pra aguardar. A noite fria, fria. A bota na estradinha do mato, o rosto escuro debaixo do chapelão. Julgou a distância segura e se virou. Seu poncho preto girou feito baiana, a baiana da meia noite.

O quintal da casa amontoado de condução. Caminhonete da grande, caranguinha enferrujada, charrete de tábua bamba, umas montarias pangarés. As lâmpadas armadas numa fiação que nem varal de roupa, seguras por bambu. Dentro da casa o forró alegre e abafado, aqui o vento no relento.

Um fusquinha deu a partida, motor chaleira traineira. Fez manobra no gramado, veio se balançando nos buracos, os faróis olho de gato, olho de cobra. Pitombeira se meteu pelas sombras. A ordem foi para ser visto na hora certa, nem antes nem depois.

O carro foi-se embora e Pitombeira voltou à vigia. A silhueta do capanga no lusco fusco da casa, cabra paciente e eficiente, entre os pés o galão desvaziado, um lampião apagado. Catou a guimbinha do bolso da orelha e acendeu. Deu uma cusparada de chafariz, limpou a boca e a bigodeira. Névoa ardida e cheiro de queimado, da fumaça do fumo, da fumaça iniciando na casa.


Taninha era boa no negócio, ô se não era. Tava com o caboclo ali enlaçada e já tinha mais 3 na fila do corredor. A cama pulava feito bezerro, Taninha surrando o umbigo no homem e ele vermelho que nem pica pau. Ele gozou e ela gritou — Marilda mandava fingir pra dar mais gosto ao convidado. Fodaida quente, valeu tostão por tostão. Chegou a subir vapor da careca suada do caboclo. Ele tentou lhe roubar um beijo, a quenguinha não deixou — na boca não faz parte do combinado. Foi lavar o equipamento na bacia e no pano molhado. Dobrou a perna se esfregando e deu um pulo melada como tava. Da frestinha da porta subia fumaça também.


Eita!, que hoje o salão tá danado. Homem do gordo, homem do magro, os mais novinhos cheirando as frangas, Véi Batista mascando a dentadura. A sanfona tocando o fole no puteiro, ê sanfoneiro, vamo que o xote tá gostoso. Tem menina dançando, menina trepando lá em cima, menina de desfile de colo em colo, tome tapa na bunda gostosa. Tá cheio, bem lotado, mas sempre cabe espaço pra quem chegar. E olhe que a noite acalorada foi semana passada, muita pena pra quem perdeu. Despedida de solteiro de Neto, vixe, Marilda mandou trazer garota de tudo quanto foi cor. Peito grande desse tamanho, par de coxa grossa, raspada, lisinha e sovaquenta. Era só pedir que a madame tinha guardada. Tudo do melhor pra esse gente de fora — menino, do luxo o casamento foi completo. A animação de hoje é como sobra de feira, mas pergunta se o pessoal tá achando feio? A xerecada que Marilda arrebanhou vai render negócio pra mais de quinzena. A fama da casa vai se espalhando que nem enchente pelo vale. Eu sei, eu sei, o acontecido com Neto também tá correndo a roça. Foi verdade?, mentira inventada? Só quem consegue afirmar é Neto e a menina que subiu come ele. E Marilda, o mundo concorda, de burra não come capim. Deu logo um xarope de sumiço na garota. Já pensou, camarada, arrumar quizumba com o Almirante? Não, não, tá amarrado. Melhor deixar o festejo rolar. Senta aí, puxa uma cerveja, arruma uma morena pra apertar. Só tenha em mente: nada de falar do Neto ou da garota, boca de siri trancada e lacrada. Espia só como Marilda evita direitinho esses cabras e sua conversa desapropriada.


- Pois eu digo com toda a gramática, de frente pra trás, pra quem me emprestar a orelha: aquele casamento foi uma farsa, embuste num balde. Este rapazinho Neto aí é moça. Só o pai que não enxerga. Conheço Neto desde pequeno e desde pequeno já bate asa de borboleta.

- Rapaz, fale baixo, fale baixo. Se cai no atenção do Almirante, ele te prega num caixote e te some que nem encomenda. Que que você quer? Fazer confusão? Neto é mais bicha que lagartixa. Todo mundo sabe, qual novidade que tem? Você taí de pulmão inflado, mas lá no casamento bem que encheu a pança de bebida.

- Que nome tinha a noiva?, me escapuliu.

- Maria Isabel, menina de Torreão.

- Pobre da moça. Com uma festa daquela dinheirama, o certo era ela voar feito um balão branco. Não, não, cumpadre, tem bolota nesse angu. Noiva sem sorriso, de olhar pra baixo, jogou o buquê com o pulso mole. Ninguém me tira das ideias que foi armado. Vai por mim, se perigar tem acordo assinado no tabelião.

- Do casamento já conheço, eu fui, também vi. Quero saber da véspera, da putaria, do lambuzado. Cadê Dona Marilda? Vamos ver o que ela conta.

- Eu ouvi que enfiaram o moleque no quarto com a garota.

- Foi Taninha?

- Não, outra, uma nova. Parece que não deu cinco minutos e a menina saiu de lá gargalhando que nem pomba-gira, segurando a barriga pra não se mijar.

- Tá vendo? Por isso que preciso de Marilda. A história pra mim foi diferente. A garota saiu sim, mas chorando que nem carpideira. Sei lá o que Neto fez com ela, bateu, falou maldade, vai saber.

- Isso que dá forçar xoxota em goela de viado. E digo mais: se eu fosse Marilda, baixava o circo por uns tempos. Você já teve com o Almirante? Ele não pode com o nome dela nem pintado. Só vi ele fulo assim quando…

- Guarde aí. Cheiro de queimado, hm, hm. Tá sentindo?

- Também… Olha ali, rapaz, corre!. Fogo!, fogo!


O sanfoneiro pára, o zabumbeiro engasga, o povo do salão se vira inteiro e o triângulo bate um tlim. Sabe ali da entrada do corredor que sobe?, a portinha com a cortina de balangandãs? Pois de lá corre Deputado Durval, gordo gordo, pelado pelado, apavorado que nem rainha louca e balançando a pica pequena, sem cabelo. As duas que subiram com ele — rapaz, o gordo é guloso — descem logo depois, tudo sem roupa também, chacoalhando e soltando pena. A fumaça espalha, o fogo dá sua explosão e começa a gritaria. Anda!, rápido!, cada alma pra sua saída. O incêndio estala no segundo andar, a madeira do assoalho e do mobiliário engordam a fome das chamas. O povo vai escapando como consegue. Estoura o vidro das janelas, sujeito com paletó na mão, bebum catando moeda esquecida, um corre-corre sem ordem ou direção. Já lá fora as garotas se encontram e se juntam, choram umas descabeçadas. Véi Batista, ô velho teimoso, joga cerveja numa cadeira queimada — pra quê?, eu te pergunto. O incêndio lambe pelo teto e as telhas vão despencando igual dente de quem levou soco. Come o palco, o balcão do bar, as mesinhas de lata chegam a envergar com a fervura. Pega fogo nos quartos, no fofo dos colchões — eita ferro: não é que suor de safadeza queima mais que gasolina? Tadinha de Marilda, tinha acabado de comprar roupa de cama, lençol, fronha, até toalha pro quarto com o chuveiro. Tudo, tudo pra churrasqueira. Mas ó: de onde vejo, ninguém se feriu sério não. Véi Batista também já tá no quintal, ô burrinho difícil, tossindo com a cara preta e molhada, o sanfoneiro dando abano. Ih, rapaz!, será que ele conseguiu salvar o instrumento? Espero que sim, muito linda a música do acordeão.


Taninha tava mal, não vou te enganar. Chegou desmaiada junto ao pessoal do quintal, embalada numa coberta. O caboclo careca veio carregando ela nos braços, tristeza, uma imagem de igreja — no socorro a puta virou santa. Depositou a pobrezinha na relva e no sereno, juntou logo a roda preocupada. Taninha com o rosto apagado, bem pretinho de remela e fuligem. Alguém aí é doutor?, que que faz?, onde aperta pra ela ficar boa?. Já sei!, estufou o caboclo heroíno. Botou as duas mãos no peito de Taninha e foi forçando, empurrando o coração, acorda garota!, na tevê isso dá certo. Ele apertou seu nariz, grudou o bocão na boca dela e soprou. E fez mais força no peito, e baforou mais ar na boca garota. Taninha acordou engasgada com uma tossarada, arregalou-se, tremeu braço tremeu perna. O pessoal velando em volta bateu palma e gritou graças. O caboclo ajoelhado prosa que nem bombeiro. Levou um sopapo fechado de Taninha, caiu pra trás com a mão no sangue do narigão. Homenzinho mais saliente — ela não falou que na boca não tinha combinado?


De sua casa, sua casinha, só sobrou um xale. Marilda abraçou-se a ele como a uma cruz. Longe do fogaréu, a noite fria, fria. Um ou outro até tentou um combate — preciso de mais balde, mangueira desgraçada que não chega. Pra nada. A casa agora ardia alto feito um farol, tão quente que ninguém aguentava ficar de perto.

Chegou o momento de Pitombeira. Ele acendeu o lampião. Marilda percebeu a presença na nuca e andou para o patife. O cabelo cinza desgrenhado, o coque desfeito em fiapos, toda maltrapilha a cafetina dos contos de fadas. Atrás dela o telhado desabou. Ouviu o lamento dos sobreviventes, as faíscas voaram uma multidão de vaga-lumes.

Pitombeira trouxe o lampião pra cara. Marilda viu as chamas pulando nos olhos do puto. Perto de sua sombra, a madame era um graveto. Ele enfiou a mão por dentro do poncho e pescou um papelzinho. Desdobrou com as mãos de monstro gigante, aproximou da luz e da vista e leu. A voz do fundo da gruta, seu beabá sem educação apanhando dos garranchos do Almirante em pessoa.

— I-iiisso, s-sua piiiiiiiiiranha, piranha,… é… paaara… apereender a nããão chi.. chi.. chiamaaaar o fiiiiiliiiooo dos outorosss de.. de.. pu.. pu..

Marilda tomou o bilhete de seu braço de tora, forçou os olhos na meia luz e completou sem paciência e cheia de fôlego.

- Pederasta, sua besta.