Umbigo linguiça esverdeado
Abre os olhos, menino, nasceu Luiziano.
Vence a placenta, gosmenta, larga o conforto pro frio, meu filho.
Mamãe tá aqui, pra cima, sua sina, sou eu com você até morrer.
Brotou a criança, limpou a parteira, a terra inteira, Luiziano, o Senhor que fez.
O clarim e a cabrita, grita tudo, anuncia!, vem ver e traz o padre, aleluia.
Deu certo, José!, acabou, chegou, é como chuva de jasmim, garoto, o pai sentiu quando te viu.
Foi a avó, Osvaldina, venha com cuidado, Biazinha, tão pequeno o seu irmão.
Velho Pires, o avô, seu doutor, deixe examinar, tem força o guri?, ah, nisso puxou de mim.
Tambor na montanha, pé no chão de grama, tem carneiro no espeto, sirva a pança, é por conta da criança!
Era Pires, leãozinho, príncipe herdeiro, lorde que morde, no céu e na sombra, pra sempre um Pires.
Olha a pica, corta o umbigo, ai se fosse comigo, dê pra mulher abraçar:
- Meu Deus, como é lindo, muito grata, coração, dez dedos na mão.
Brisa na cortina, lá fora do casarão, na fazenda do pato, do pinto, do ganso.
Na mangueira, gigante do tronco assombrado, cem anos de fruta lambuzada.
Pedr’Enrique trepado na galhada, orelha arregalada, vendo tudo do nascimento.
A dona abertona na cama, força, coragem, vejo a cabecinha!, urrando feito porca gorda, sai, sai d’uma vez!, a mãe franze a cara que tem, ouve o choro e descanso.
Pedr’Enrique sem ar pra pensar, foi ele uma coisa como aquele, bebêzinho roxo e melado, umbigo lingüiça esverdeado.
E na tardinha de sol na varanda, broa e refresco de laranja, chega Pedro correndo, cabeça e perna de vento, e revela pra tia e família:
- Eu sabia! Do nenê eu dizia! Cresce na barriga, sai pela ximbica!