De quando Ian Curtis conheceu o Chorão


É numa tarde ensolarada que esta história começa. No centro da cidade, surge, em meio a um trânsito caótico, uma figura tímida e pálida como um fantasma. Era Ian Curtis, o vocalista daquela bandinha que todo mundo tem a camisa e fala que é fã. O cara tava completamente suado, esbaforido. A pele branca já tomava um tom rosê. Acho que o Sol tava fazendo mal pra cuca dele. Ou sei lá, alguma tradição britânica de não olhar para os dois lados ao atravessar a rua. Só sei que, foi o cara pisar no asfalto, tomou um capote astronômico típico daquelas vídeo-cassetadas. No chão, ainda grogue, só reparou o que havia acontecido segundos depois: um homem muito rápido em seu skate não conseguiu desviar, atropelou Ian e gerou toda aquela situação desconfortável.
O skatista, de camisa larga e bermuda mais larga ainda, tenta se desculpar. Ofereceu seu braço e disse:
-Ô, irmão, foi mal. Tava muito rápido, e não te vi atravessar. Levanta aí.
-Valeu. Como é seu nome mesmo? — disse o rapaz, enquanto limpava a calça com leves tapas.
-Chorão. Dei o maior vacilo e preciso ficar mais atento. Tu precisa de mais alguma ajuda?
-Sou Ian.Tô meio perdido. Queria achar um desses cafés chiques com o pé direito duplo.
-Que porra de café o que. Aqui a especialidade é cerveja. Bora tomar uma que eu pago pra compensar esse rola aí.
Parece que cerveja de graça não é atrativo só pelos jovens universitários brasileiros. O britânico aceitou rapidinho e, pra abrir os trabalhos, até tirou um cigarro do bolso — o primeiro de muitos naquele dia.
Os dois tinham personalidades completamente distintas. Um era contido e até frio, enquanto o outro era o tipo de artista que brigava no aeroporto. E era mesmo.
Claro que algumas coisas os conectavam. A música por exemplo, era um dos assuntos que eles mais conversavam. Referências, arranjos, Charlie Brown Jr., Joy Division, os projetos de Iggy Pop e aquele álbum bizarro do Lou Reed faziam parte da pauta.
Chorão e Ian Curtis conversando. Que cena.
O santista lembrou de um show que aconteceria numa casa de show próxima. Resolveu convidar o outro.
-Vamo lá, pô. Os caras dessa band…
Tudo emudeceu. Uma escuridão tomava conta do ambiente. Era a playlist do meu celular que tinha terminado.
