Composição


Um cidadão qualquer acorda, coloca sua boina e vai ao labor. Sentado e coordenando com as mãos o despejar de um suco de laranja ou seu equilíbrio em um ônibus, ele vê a cidade. O cidadão não observa elementos isolados ou constitui a sua própria retícula de opiniões sobre aqueles exercícios em concreto. Ele compreende a cidade, em seu todo.

No coração da metrópole, escala a construção e serve como mais um braço da construção civil. Suspenso em meio a vigas, seu coração palpita com o movimento entre cheios e vazios. “No entanto ela se move!”, pensa ao ver tanto concreto estático. Ele entende a cidade como uma sinfonia. Uma composição na qual sua beleza não será percebida sem a visão ampla e total da obra, estruturada a partir de elementos como ritmo, equilíbrio e unidade. Noções que têm sua origem na experiência e vivência dos tantos outros cidadões daquele espaço.

Tudo funciona numa relação passional. A mulher que sai do banco, o homem que arruma sua gravata e a jovem atrasada para o encontro. Executado no tempo que deveria ser, e sempre cedendo ou captando espaço, todos andam, dirigem e sonham. Por sonhar, habitam e ocupam. Suas vidas caracterizam o ambiente como uma eterna metamorfose e, só assim, fazem de tudo isso uma cidade.

O cidadão arruma seu chapéu sabendo que essa beleza, completa e infindável, é como a genialidade de Coltrane. Uma inteligência compositiva tão pura que não figura na capa da história mas emana nas referências de quem a compreende. Uma estética que é e se propaga pelo que sempre será. Uma compreensão tão complexa que só é possível na simplicidade de um olhar apurado.

O perfume de seus mistérios, gerados por burbúrios noturnos de jovens ou de casais proibidos, envolve o cidadão que admira cada imperfeição do concreto e os grunhidos de vidas insatisfeitas. Cada linha de luz, desenhada por uma farol em alta velocidade, realça suas curvas. A brisa noturna e as luzes dos apartamentos beijam a pele do homem. A cidade chama por um amante, por quem a compreenda.

Ele se posiciona acima do parapeito com o objetivo de alcançar toda a magnitude da sua visão e, com um passo em falso, seus pés deslizam pela murada. Seu terceiro suspiro se sustenta em falso sobre a estrutura. No segundo, está em queda livre e, no terceiro, já está estático como o concreto. Sua vida, entretanto, permancerá dinâmica e construtiva como a cidade, perdendo-se em alamedas na boca do povo.

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