Contemporâneidade.
Vinte pontos rápidos e desconexos, como o feed do seu celular
I. A capacidade de olhar para um prego como um objeto superado econômicamente é a evidência de uma maiores subestimações sobre a tecnologia e seu potencial ferramental. Um dos primeiros produtos pelo qual a população inglesa observou a quedra vertiginosa de preços após a maquinização intensiva durante o século XIX, o cut nail se tornou uma propaganda da eficiência da revolução industrial. O êxtase público; o fetiche pelo produto e pela ferramenta não são só dois sinais da formação de um mercado consumidor mas também o contexto da criação do design.
II. Cadeiras, objetos ubíquos na contemporâneidade, raramente estavam presentes em meio a população geral antes da concepção da indústria. Sua presença redefine não apenas um novo nicho de mercado mas a possibilidade da existência de novos cotidianos. Da mesma forma como a inserção de ar condicionado permitiu a permacência humana em qualquer ambiente, criando um standard climático que é compartilhado mundialmente por trabalhadores de edifícios de escritório, a cadeira permite um novo standard de conforto mundial entre a anatomia humana e uma barra de concreto. Sua morfologia se altera de acordo com demandas culturais tão complexas e dinâmicas que cadeiras diferentes ocupam nossa geografia com densidades cada vez maiores.

III. Cadeiras e martelos, ou a democratização, respectivelmente, do conforto e da ferramenta são talvez as grandes linhas de produção que efetivamente mudaram a cultura humana e façam com que o branding de “clássico” ou “antigo” pareça tão conveniente para descrever a existência humana em uma concepção temporal tão segragada da nossa. Vemos a produção do passado como diferente baseado em conceitos fabris. Cidades-estado da atual Itália durante o século XV observaram semelhanças culturais entre sua realidade e produtos de sociedades que os precediam há mais de um milênio. Não existe um marco definitivo entre fim da Idade Média e o período conhecido como Renascimento Italiano mas uma das mudanças fundamentais é a fenomenologia de uma nova estética acompanhada pela explosão do consumo de produtos associados. A ornamentação excessiva e a circulação de um novo montante de capital baseado no financiamento da emergente classe artística irá criar o primeiro ponto que permitirá a reemergência da noção popular de obra-prima. O segundo será um eficiente sistema de ensino direto em atelier, com aprendizes rapidamente alcançando níveis de domínio compositivo mais elaborados que seu instrutores em espaços de tempo mais curtos. Realidade similar ao jazz institucionalizado do pós-guerra nos Estados Unidos.
IV. Apesar da sociedade pós-industrializada possuir tanto recursos como capacidade produtiva para mobilizar não só a produção estética mas sua democratização, a progressiva queda das noções de beleza e lazer foram suplamentadas pelo modelo protestante de trabalho em que a austeridade se torna um recurso visual essencial. A admissão de blocos de concreto descritos como sem vida ou de objetos absolutamente indiferentes à sensibilidade humana só será possível pela progressiva veneração do trabalho e pela demarcação da proemiência cultural do aprendizado e do labor sobre o lazer. O reconhecimento da importância da produção artística orientada à emergente classe média neerlandesa do século XVII só será reconhecida séculos depois como uma linha de discurso cultural essencial na compreensão de uma visão de mundo global e corporativista. A primeira propaganda pela noção de austeridade, trabalho e ordem cotidiana.

V. Tal abandono da relação direta com o lazer e a compartimentalização do tempo-livre em setores de mercado é a emergência do entretenimento.
VI. Apesar do indivíduo pós-industrial rejeitar em discurso o investimento direto em beleza, o consumo de estética vem ocupando cada vez mais o orçamento de uma classe mundial financeiramente estável. Baseada em uma nova concepção cultural que venera a estetização em si mesma com a disseminação global de plataformas como tumblr ou instagram, mercados de consumo se reestruturam para um novo marketing que visa o fim da estética austera. Apesar do consumidor rejeitar a identidade pública de consumista, grande parcelas de seu tempo livre, ditado de acordo com um sistema standard de calendários nacionais, podem alcançar a máxima honra de adquirir um bilhete aéreo de longa quilometragem para observar, por curto tempo, objetos e edifícios que coroaram períodos como o Renascimento Italiano. Tal ato é sustentado pela noção pública de relevância cultural e pelo status social adquirido pelo indivíduo ao se inserir no atual sistema artístico, que data menos de dois séculos, como um consumidor. O usuário suplanta a estetização de seu contexto pelo pragmatismo e se insere num sistema de deslocamentos geográficos com escalas sem precedentes na história humana. Fenômeno conhecido como turismo.


VII. A espinha dorsal do objeto industrial é sua efemeridade. Excessiva homogeneização da produção leva à criação de objetos cuja identidade é imaterial. Ao jogar uma escova de dente fora, tanto preocupações materiais quanto afetivas não existem. Na realidade é a negação da materialidade temporal e o simples reset da sua composição que permite uma convivência afetiva confortável. A escova se torna um hiper-objeto que transcende barreiras temporais e geográficas. Seu uso, forma e estrutura permanecem os mesmos em diferentes regiões do planeta enquanto o sistema global de produção industrial continuar ativo. Em contra-partida, a jaqueta de um familiar passada de geração em geração é considerada socialmente algo além de um objeto pelo seu alto grau de especificidade. Sua hiper-saturação significativa é adquirida por sua simples existência histórica e conexões com identidades que definem o usuário. É efetivamente a capacidade de objetos que permanecem de definir identidades que será explorada pelo campo conhecido como marketing e pela lógica consumista pós-guerra.
VIII. A hipertrofia do marketing no período pós guerra é um resultado da demanda corporativa pela criação de narrativas capazes de antigir o paradoxo de projetar um sentimento de identidade única para o maior contigente de consumidores possíveis. O resultado é a sociedade de espetáculo, onde um continuum onipresente de versões e interpretações alinhados com interesses do setor privado transnacional definem a posição do usuário na imagem de uma economia dinâmica e vibrante.
IX. A força do discurso estético-consumista construída durante as últimas décadas é responsável pela disfunção categórica de um set de commodities. Mercados, lojas de materiais de construção e marcas de roupa ocupam os mesmos blocos genéricos mas variam radicalmente em escala e posicionamento geográfico. Apesar de todos estarem inseridos no mesmo grid de especulação econômica unidos através de uma cadeia logística global e terem seus respectivos preços determinados por um sistema financeiro transnacional, sua apresentação em uma prateleira é radicalmente diferente. Enquanto mercados se diferem por demandas microclimáticas relacionadas à manutenção higiênica de insumos, materiais de construção e roupas diferem de acordo com a sofisticação da narrativa empregada em suas apresentações e pela densidade de diferenciação dos produtos. Uma loja de roupas se beneficia da homogeinização somente pela capacidade de oferecer o mesmo modelo em difentes dimensões a fim de antigir estatísticamente o maior mercado consumidor possível; a loja de materiais ou o mercado se valem da criação literal de muros semióticos pela semelhança visual dos produtos.

X. O foco do desejo do consumidor sobre o produto estético-consumista e a sofisticação do tratamento narrativo de objetos é evidente na surpresa do mercado em relação à emergência do setor de tecnologia da informação como, primariamente, a reinvenção da ferramenta. Martelos e pregos foram fundamentais durante todo o século XX pela expanção territorial em ambientes cada vez mais inóspitos e constituem tecnologias base para a execução e manutenção de territórios artificiais, assim como a eletricidade e cadeias de comunicação remota em massa permitem a conexão desses territórios e expansão das cadeias de produção. Apesar da importância infra-estrutural, são entendidos como objetos-garantidos por seu valor relativamente baixo em relação à produtos da linha narrativa estética que periódicamente alcaçam valores cada vez mais altos, como calçados. A reemergência de um novo conjunto de ferramentas disponíveis em um grid mundial e com acesso a partir de infra-estrutura leve, a internet, toma o mundo como surpresa pela reavaliação do potencial da ferramenta. Da mesma forma como a democratização de itens básicos geraram um fenômeno em massa no início do século XIX baseado na reimaginação do real e na construção do sonho coletivo da democratização do consumo, o novo discurso sobre os impactos dos experimentos conduzidos na San Francisco Bay Area encontram um sentido utópico em seus projetos comerciais.
XI. Como todo setor que gera uma ruptura radical na interação usuário-produto, o Vale do Silício instaura uma nova lógica de operação institucional. Da mesma forma como o governo americano se moldou em relação à estrutura de corporações como Standard Oil e General Motors, o modis operandi Google reforma a burocracia interna pública dentro de um framework nacional. A economia de dados não é mais uma definição de como o poder privado age mas como a sociedade liberal interage.
XII. A expansão do acesso à internet é sem precedentes. Nenhum outro produto na história da humanidade atinge a mesma disseminação na mesma escala, tanto geográfica quanto temporal. Entidades educacionais como o Massachussets Institute of Technology rapidamente assimilam o discurso de democratização à noção de replicação de informação e disseminação global de conhecimento. O instituto que havia sido financiado pelo complexo militar industrial norte-americano até meados dos anos 70 com o objetivo de aumentar os outputs do aluno médio em matemática e física observou o potencial de expandir seu projeto à nível global. Novas linhas de pesquisa se focaram na capacidade de países emergentes realizarem um leapfrog informacional, gerando um canyon entre gerações; uma dentro das concepções contemporâneas liberais econômicas e políticas e outra ainda imersa nas raízes culturais regionais. Paralelamente, o crescimentismo no período Greenspan permite a retomada de países emergentes em seus projetos radicais de modernização e infra-estruturalização, como o PAC no Brasil. A ruptura contextual não é só discursiva mas efetivamente física.

XIII. Os anos 90–2008 são caracterização pelo fortalecimento de contradições dentro de sistemas econômicos, políticos e culturais. O período pós-2008 é caracterizado pela evidente desilusão popular em relação à esses sistemas, a veneração de plataformas que se propõem a restabelecer as promessas do pós-guerra e a incapacidade de projetos progressistas de oferecer uma nova alternativa.
XIV. O resultante contexto de austeridade, instabilidade monetária e hostage economy com o aumento da dependência internacional no funcionamento do hibridismo econômico entre China e Estados Unidos é o novo standard orçamentário internacional. No cenário onde a produção física de objetos se encontra em conflito com os próprios limites do sistema de produção e com a capacidade de sustentação de biomas naturais, a virtualização e importância da lógica corporativista de TI se expande com nova força. Apesar da expansão da economia informal em diversas regiões do planeta ou de crises economico-ecológicas em escalas que são capazes de destruir unidades nacionais-territoriais, como os atuais fluxos emigratórios sírios, o acesso a serviços de dados permanece ubíquo. Entidades como as Nações Unidas apontam a importância do GPS em aparelhos mobile na orientação de refugiados até a fronteira com a União Européia.

XV. O contexto contemporâneo é a reemergência da discussão ferramental e um apelo ao discurso de design para a retomada de uma postura política especulativa observada em precedentes como William Morris.
XVI. Tal discussão não se baseia na concepção hegeliana de instauração de um plateau social utópico mas na reavalição do presente como a confluência de uma multitude de vetores de poder e os potenciais de modificação da realidade. A atribuição da responsabilidade ou da possibilidade de futuros alternativos à plataformas ensaiadas em ambientes puramente teóricos e sua aplicação empírica vem sendo tentada sem êxito desde a formação da sociedade moderna. Ao contrário, é a reavaliação das ferramentas que constitutem e modificam a realidade despida de qualquer concepção unitária e coesa de blocos políticos-econômicos que permitem ação direta na intersecção de diferentes conflitos. O século XXI demanda não só o fim das barreiras textuais que definiram instituições mas o estabelecimento da instituição público-privada-social. A ação não se encontra na potencialização de vetores especificos e na cogitação de aprimoração por conflito mas pela compreensão da singularidade como o ponto máximo de cooperação em uma sociedade.

XVII. Tal compreensão se beneficia da ubiquidade da economia de informação como ferramenta heterotópica que permite a análise da realidade e imediata intervenção por quaquer indivíduo. Um operador da bolsa de valores através da interpretação de indicadores processa movimentos de produção e especulação de acordo com uma lógica pré-estabelecida. A internet, da mesma forma, permite um acesso aberto à novos indicadores e a possibilidade de resposta direta em modelos variados de atuação econômica que respondem tanto à rentabilidade quanto ao estilo de vida desejado pelo analista. Tal atuação é caracterizada pela capacidade conectar dados e linhas fabris, oferecendo um produto cuja qualidade se assemelha à prateleira standard corporativista. A diferença reside na narrativa e obriga o setor transnacional a investir no aumento de complexidade fabril em seus produtos como motivador central de diferenciação.


XVIII. A saída do grid energético é um conceito subestimado. A distribuição massiva de painéis solares não iria ser somente um marco ecológico mas talvez a mudança mais radical observada em sistemas culturais humanos. Toda caixa genérica em contextos urbanos teve sua morfologia modificada superficialmente nos últimos 100 anos mas seu potencial programático evoluiu radicalmente graças à designação desses espaços à permanência de maquinário mais complexo; seja industrial ou doméstico. A implatanção de autonomia energética ao bloco genérico permitiria tanto o fim da necessidade de especificidade territorial, se posicionando independente de fronteiras legais, quanto sua radicalização programática. Edifícios e objetos autonômos que questionam a necessidade de um referencial geográfico.
XIX. O questionamento sobre a existência de uma inteligência artificial e a atual comercialização de suas versões com interface em aparelhos mobile são um marco na história da perceptibilidade humana. Da mesma forma como telescópio de Galileu deslocou o centro do universo para o núcleo do sol, a existência da possibilidade de uma inteligência não-humana em nossos bolsos associada à ansiedades crescentes sobre o aquecimento global são a pedra fundamental do fim do humanismo. Cada vez mais a existência e autonomia não só de consciências ou biomas mas de simples compostos químicos é mais evidente. A compreensão do fluxo de derivados do petróleo, por exemplo, é baseada numa cadeia tão complexa que é capaz de justificar uma ontologia própria. Tal proposição coloca em cheque os grandes questionamentos epistemológicos históricos e evidencia a existência de lógicas operativas fora do raciocínio humano.

XX. No bater de asas de uma borboleta, tudo isso pode mudar.
