Beldades também soltam pum

Quando criança, eu imaginava que mulheres não fizessem cocô. Até que um dia presenciei uma deficiente mental defecando na rua. Chocado, descobri que as mulheres também podiam arrotar, defecar e soltar pum. Desconfiado, eu olhava para minha mãe e irmãs, tentando imaginá-las fazendo cocô. E sentia remorsos por estar pecando ao imaginar tão indignas cenas. Crianças!

Tendo compreendido que as mulheres são passíveis de necessidades tão impuras, continuei a imaginar que jamais seriam capazes de soltar gases em público. Certo dia eu vi numa revista, uma foto da Gisele Bündchen, justificando um arroto flagrado num restaurante em Nova York: “Nós modelos também somos humanas. Nós comemos, bebemos, soltamos pum e arrotos como qualquer mortal”, proferiu sem remorsos a famosa top model. Assim como estas beldades semideusas, a rainha da Inglaterra com seu sangue azul, também solta pum, embora seja um peido aristocrático, uma bufa real.

O que me leva a falar de assunto tão gasoso, foi uma situação real vivida numa loja de perfumes, quando fui comprar um presente num dos shoppings da cidade. Imagine a cena: a loja repleta de gente e uma confusão geral com três filas, uma para fazer o pedido, outra para fazer o pagamento e uma terceira para pegar a mercadoria. No meio daquela balbúrdia toda, consegui finalmente ser atendido e entrei na fila do caixa.

Após vários minutos de espera nas duas primeiras filas, me dirigi ao balcão de entrega. O ar condicionado não dava conta e o calor fazia com que a irritação geral se ampliasse. Todo mundo nervoso e irritado, todos apressados. Enquanto a moça dos pacotes tentava atender a todos com sorrisos, umas cinco ou seis jovens adolescentes se aproximaram do balcão das entregas após pagarem suas compras.

Naquele exato momento, senti um vapor quente subir do chão até minhas narinas, um vapor azedo e fétido de gás metano podre que me nocauteou o olfato. Olhei ao redor e só vi mulheres próximas a mim. Os outros dois homens presentes no recinto se encontravam muito distantes daquele balcão.

Tendo a certeza de que não era eu o autor de tão fétido gás, olhei para o rosto de cada uma daquelas mulheres, tentando descobrir de qual delas viera aquele petardo gasoso. Olhei no rosto de cada uma daquelas belas e formosas garotas, olhei também para a balconista do outro lado do balcão, igualmente jovem e bela. Todas elas com ar blasé, como nada de anormal houvesse acontecido. Incomodado com aquele azedume nauseante, retirei-me do local. Erro fatal.

Ao me afastar do recinto, induzi a todas aquelas mulheres que sentiram o mesmo cheiro putrefato da silenciosa bufa, pensassem ser seu o autor daquele gás, pois mais ninguém se retirou do local. Sendo eu o único exemplar masculino naquele recinto, logo, numa conclusão cartesiana, todas as mulheres presentes deduziram ser eu o mal-educado. Menos uma. A autora do peido atômico, claro. Teria sido a mulher gorda, irritada por ter perdido o comprovante de pagamento? Teria sido a balconista, estressada com tanta gente apressada? Ou seria uma daquelas beldades adolescentes que, certas de que a culpa recairia numa mulher gorda ou num marmanjo coroa, sentiu-se livre e segura para soltar tão venenoso gás?

O fato é que por mais velho que eu me torne, ainda tenho dificuldades de enxergar certos defeitos nas mulheres. Mulher que fala palavrões, que cospe no chão, que solta pum em público, que manda alguém tomar no fiofó, que furta …

Resta por fim um cúmulo de ironia. Aquela bufa venenosa aconteceu numa loja de perfumaria.

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