duas semanas

sem abrir um livro e ler pelo menos três vezes a mesma página
sem conseguir tirar as roupas de cima da cama
sem conseguir dormir com os olhos fechados
sem ouvir uma música inteira
sem regar minhas plantas crescendo meu novo eu
sem jogar a âncora no pé da escada e cavar um buraco

sabendo

que minha âncora é um peso externo, desprovido de mim
que minha ansiedade talvez seja sim coisa séria
que meu desejo inconsciente é de sobrevivência
que quando eu fecho os olhos só vejo um horizonte
que não tenho paz nem com quem eu deveria
que estou piorando incondicionalmente minha memória

mesmo assim

eu fujo da ideia de terapia
eu fujo da ideia de mim
eu me vejo translúcido como uma surra
eu caio no mato como uma onça
eu vivo com as pupilas dilatadas
eu observo tudo de fora para dentro

enquanto

minha cabeça vive todos os segundos mil vezes
minhas vivências se misturam com as ideias possíveis
minhas semanas se misturam do começo ao fim
minhas resistências emocionais desabam sem tristeza
minha vida se torna minha maior bagunça
minha insensatez evolui para total ausência de sentimento

ecoando

total ausência
total ausência
total ausência
total ausência
total ausência
total ausência

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