Quem tem medo da solidão?

Estive passeando por algumas leituras no último mês. Revisitei Macondo, do Gabo, e a solidão característica da estirpe dos Buendía me atingiu em cheio. É preciso certa maturidade para fazer “um trato honrado com a solidão” sem entrar em desespero.

A primeira definição que apareceu quando joguei a palavra solidão no Google, foi: “estado de quem se sente desacompanhado ou só”. Fiquei triste e um pouco aliviada. Esse tipo de solidão é tão característico, vem da nossa necessidade de um outro que nos rodeie, ouça, esteja presente, que ocupe o espaço e que não nos deixe sozinhos com a nossa própria companhia.

Esse outro não precisa ser alguém de corpo físico, pode ser a garrafa de vinho que me acompanha enquanto escrevo esse texto, ou a música que está tocando nos fones, ambos me impedem de ficar sozinha comigo mesma, impedem um encontro como aquele que Clarice — a Lispector, teve em Um sopro de vida.

Ocupamos o tempo, ouvimos música, conversamos com o som do carro, mandamos mensagens despretensiosas para os amigos, maratonamos séries por horas seguidas, inventamos programas de última hora, fugimos.

Somos educados para silenciar o que está dentro no anseio de ouvir e ter tudo que está fora. A solidão assusta?

Quem tem medo da solidão? Quem tem medo desse silêncio que fica quando todos se calam? Quem tem medo desse encontro com o que está dentro? Eu tive, e ainda tenho, porque a solidão permite esse encontro de “eus”, esse profundo reconhecimento do que nos assombra, do que nos fortalece, de quem somos, das nossas angustias. É nesse silêncio do vazio que o eu emerge para se reconhecer na falta.

Tudo bem não estar acompanhado o tempo inteiro. Tudo bem se permitir silenciar o mundo por um breve instante mergulhado em si mesmo. Tudo bem se reconhecer enquanto companhia e deixar o espaço vazio no peito vibrar com a potência do que vem de dentro. Tudo bem!

Os Buendía compreenderam as solidões em sete gerações, Clarice naquele domingo mergulhada em si. A solidão não é um estorvo. Saber estar só é um privilégio. A solidão é um luxo.