DESIGN E INDUSTRIA: A HISTÓRIA DO FUTURO

Autor: Joel Mendonça

(joel.msoares@hotmail.com)

Professor: Prof. Dr. Rodrigo N. Boufleur

(rboufleur@gmail.com)

O processo de produção vinda da atividade artesanal dependia de trabalhadores qualificados que utilizavam ferramentas simples, porém flexíveis para produzir o que o consumidor necessitava. O resultado da produção era um reflexo do processo produtivo do artesão bem como o conhecimento do usuário (WIKSTRÖM, 1996). É um modo de produção que perdura até hoje em alguns meios de produção executiva.

Dos processos tecnológicos que vieram sofrendo mudanças desde a Primeira Revolução Industrial inclui-se o uso de materiais como carvão, eletricidade, ferro e as máquinas que potencializavam a produção em série com o menor uso da força humana além de permitir a padronização do processamento da matéria prima, produção de novos produtos, aumento da escala de produção, fatores que tornavam todo o processo mais competitivo pelo baixo custo e a alta qualidade (CARDOSO, 2008).

Com a segunda revolução industrial veio o desenvolvimento de meios de transporte, comunicação e a produção em massa com grandes máquinas voltadas para o mercado de produtos padronizados em grandes volumes e entender a forma como o consumidor reagia e pensava tornou-se o elemento de foco do mercado, cada vez mais competitivo industrialmente. Kotler (1994) aponta como principais características do consumidor na época os fatores sociais, culturais e psicológicos, como suas crenças, atitudes e posição social e a partir de tais fatores o consumidor processava informações e decisões acerta de seu interesse no mercado.

“(…) a mercadoria é, na expressão dos economistas ingleses, ‘uma coisa qualquer, necessária, útil ou agradável para a vida’, objeto de necessidades humanas, meio de vida no sentido mais amplo da palavra. Esse modo de ser da mercadoria como valor de uso coincide com sua existência natural palpável. (MARX, 1982, p. 31)

Wokmack, Jones e Ross (2007) apontam que o consumidor tem a redução de preço, mas à custa da diversidade dos produtos e meios de trabalhos vistos pelos funcionários como desanimador. Com o aumento da divisão do trabalho, até mesmo entre a execução e o processo, foi limitado o entendimento de toda a atividade nas fábricas, tornando o trabalhador um técnico especialista que executava atividades restritas em seu meio de processo produtivo. Só à partir das décadas de 80 e 90 que nota-se uma redução no interesse de produção manual pois os empregos nas indústrias estavam cada vez mais perigosos e as oficinas passaram a perder o interesse das pessoas. Substituindo esse meio surgem os computadores, tornando-se as ferramentas indispensáveis nos bons empregos (ANDERSON, 2012).

Durante a revolução industrial, a base principal de poder das corporações de controle de capital humano foi o esforço para produzir bens físicos e com a redução do custo inicial em investimentos de capital necessários para que fossem inseridos no mercado a produção independente ocorreu uma descentralização dos valores. Carson (2010) afirma que o poder das hierarquias corporativas e o aumento do valor do capital humano foram tornando-se menos relevantes e assim, possível aos trabalhadores de se tornarem também empreendedores, começando com novas empresas sob seu próprio controle. Carson (2010) ainda fala que a diferença entre o que pode ser realizado em ambiente de trabalho e em casa tem diminuído nos últimos quinze anos.

Com a reformulação das indústrias, veio-se eliminando parcialmente as linhas de montagem, cadeias produtivas e até mesmo as ferramentas, tornando possível o desenvolvimento e fabricação de produtos através do aperfeiçoamento das redes de comunicação. A transformação gradativa das tecnologias de fabricação não só está abrangendo novas e variadas áreas como também está criando inovações diversas com a mudança dos materiais utilizados e com o aumento da complexidade dos objetos produzidos.

A próxima revolução vem do meio digital. É o que acontece quando o modelo inovador da internet encontra com a grande indústria pois o mundo não muda devido as tecnologias e sim pelas pessoas que as utilizam. E quando novos processos se espalham, elas se democratizam até chegar às mãos das pessoas comuns, surgindo de trabalhos simples “ao qual qualquer indivíduo médio pode ser adestrado, e que deve executar de uma ou de outra forma” (MARX, 1982, p. 33). Quando se democratiza algo grande como a manufatura abre-se uma gama maior de criatividade, novas companhias, produtos e uma inovação mais rápida. Foi o mesmo que ocorreu 40 anos atrás com o computador e há 20 anos com a internet. E agora a nova revolução industrial está vindo de algo maior que a própria web.

As inovações tecnológicas cada vez mais disponíveis possibilitam reconfigurar o modelo produtivo industrial e propicia uma nova forma de se pensar: o “Faça-Você-Mesmo”. (Em inglês Do It Yourself, ou DIY). A facilidade de comunicação e o acesso a informações pela internet ajudam a configurar chamado Movimento Maker.

A associação entre tecnologia 3D e DIY transformam indivíduos, pequenas empresas e departamentos corporativos em “fazedores”. Para Anderson (2012) os Makers são o diferencial, já que além de projetarem em seus computadores e produzirem em máquinas de fabricação próprias, eles compartilham de suas criações on-line agregando esforços para construir coisas em escala cada vez maior que as pensadas em DIY até então. As novas condições tecnológicas, além de incitar debate no campo das ciências sociais, propiciam o domínio desde a criação até a execução final de tal forma que o DIY se torna relevante também no meio econômico de pequena escala. Koff e Gustafson (2012) afirmam que as pessoas hoje em dia têm oportunidade — mesmo em pequena escala e como um hobby — para produzir coisas por si só e bem.

Esta Terceira Revolução Industrial, além do avanço quanto ao uso de novos materiais e equipamentos, ela influencia diretamente na atividade exercida durante o processo de desenvolvimento de projetos.

A prototipagem rápida é um conjunto de técnicas para a fabricação de partes ou modelos de objetos de maneira ágil para que sejam obtidas peças ou conjuntos em quantidades. Lemos (2013) completa que esta prototipagem rápida é usada na construção de modelos de estudo, análise e simulações para testar peças e montagens, antes de colocá-las na linha de produção ou para refinar um novo produto, perceber e corrigir falhas de forma mais barata e eficaz.

Cada vez mais os Makers produzem serviços e produtos fazendo uso de meios digitais produzindo em oficinas caseiras visando atender, principalmente, nichos específicos que não são vistos pela indústria de massa. Invés de voltar a época em que o recurso de manufatura pessoal eram as máquinas de costura em ateliês locais com equipamentos expulsos de grandes fábricas de mais de 100 anos atrás, o Movimento Maker volta-se para a fabricação digital de alta tecnologia possibilitando que pessoas comuns possam explorar com liberdade a capacidade das grandes fábricas de fazerem o que quiserem. É a melhor combinação entre criar em âmbito local e produzir com amplitude global, atendendo a mercados de nichos definidos pelo gosto e não pela localidade. Uma característica forte desses novos produtores é de não produzir os mesmos produtos de forma padronizada como era na época das produções em massa, pelo contrário, surgem como produtos personalizados e à partir de então são descobertos outros consumidores que compartilham seus interesses e necessidades particulares.

“Enquanto o trabalho que põe valor de troca é um trabalho abstratamente geral e igual, o trabalho que põe valor de uso é trabalho concreto e particular” (MARX, 1982, p. 37)

O ponto-chave desta revolução é visto através da chegada das impressoras 3D, com preços mais acessíveis à população. Para os que seguem o DIY o caminho da criação e liberdade inicia-se por essas máquinas, que nos últimos anos no mercado americano estão custando por volta de mil dólares.

Essa nova visão dos serviços visa não só o consumidor como também a criação de novos empreendedores e para que isso ocorra são necessárias quatro ferramentas: O escaneador 3D, a máquina de controle numérico computadorizado (CNC), a cortadora à lazer e a própria impressora 3D, esta última ainda com poucos tipos de material (como plástico ou metal) porém sua tendência é de expandir sua variedade em um médio prazo.

O que preocupa de fato com estes avanços tecnológicos muito rápidos é a capacidade de absorção ou de realocação da mão de obra, bem como as empresas que deixarão de produzir os produtos que terão a forma de produção substituída. Um intervalo de tempo muito curto que poderia ser um caos. As novas tecnologias serão apresentadas com tempo ideal.

Para Carl Bass (2014) as grandes mudanças que derivam do mercado de alta tecnologia — como a robótica avançada como destaque — melhorarão o mundo atual e o design inteligente estará no auge desta tecnologia. Neste contexto a participação do designer é vital para a elaboração de produtos bem-sucedidos já que o grande acesso à fabricação pelo público institui a preocupação projetual em conceber produtos funcionais e agradáveis ao designer.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDERSON, Cris. Makers: A nova revolução industrial. Tradução: Crown Business. 1.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. Título original: Makers, the new industrial revolution.

BASS, Carl. Schedule SXSW. [2014]. Disponível em <http://schedule.sxsw.com/2014/events/event_InickAP25552>. Acesso em: 19 jun 2017.

CARDOSO, Rafael. Uma Introdução à Historia do Design. 3.ed. São Paulo: Blucher, 2008.

CARSON, Kevin. Homebrew Industrial Revolution. The Small Workshop, Desktop

KOFF, William; GUSTAFSON, Paul. 3D Printing and the future of manufacturing. CSC slick Leading Edge recuero. Forum, USA, out. 2012.

KOTLER, Philip. Administração de marketing — análise, planejamento, implementação e controle. 4 ed. São Paulo: Atlas, 1994.

LEMOS, Manoel. Blog Fazedores. [2013; 2014]. Disponível em <http://blog.fazedores.com/> Acesso em: 19 jun 2017.

Manufacturing and Household Production. [2010]. Disponível em: <https://blog.p2pfoundation.net/homebrew-industrial-revolution-chapter-five-the-small-workshop-desktop-manufacturing-and-household-production-first-excerpt/2010/12/28>. Acesso em: 19 jun 2017.

MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1982

WIKSTRÖM, Solveig. Value Creation by Company-Consumer Interaction. Journal of Marketing Management. Stockholm, v.12. 359- p.1996

WOKMACK, James. P.; JONES, Daniel. T.; ROSS, Daniel. A máquina que mudou o mundo. Tradução: Ivo Korytowaki. 10 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

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