não conto


Em um pequeno apartamento quarto e sala vive Zeca. O espaço é apertado. Cama de solteiro, sofá, televisão, mesa, uma estante com livros, geladeira, fogão, pia e balcão. Bem no centro da peça única sobre dois cavaletes jaz um grande aquário, com diversos tipos de peixes e corais, tudo muito animado e colorido. Zeca vive com sua gata, Tina, um telescópio velho, e um mapa das constelações colado na parede. Certa noite Zeca chega da rua carregado de compras; entra e deixa tudo sobre a mesa. Tina repousa confortavelmente no sofá, ignorando a presença do dono. Ele a observa de longe, caminha em sua direção, e senta ao seu lado.

― Oi Tininha, como passou o dia minha princesa? Não matou outro pardal neh? Comprei fígado pra você… Hoje vai ser uma puta noite, não falei que ela vinha? Passei no mercadinho, comprei tudo… Vinho, bolinhos, cogumelos, salmão…

Levanta e caminha até a cozinha; começa guardar as compras.

―… Olha Tina, que salmão lindo, aqui ó; alcaparra, aspargos… acredita que eu nunca tinha comprado aspargos na vida, não sabia nem o que era; olha a cor disso, me lembra comida de cavalo, será que o gosto é bom? Eu sei que você não gosta dela Tina, mas preciso que você me ajude, não vai foder tudo justo hoje… Eu sei… Ela anda muito ocupada ultimamente… Mas quando ela promete vir, ela vem…

Abre o balcão e tira os utensílios de cozinha: panela, frigideira, travessa, pratos e talheres; deixa tudo sobre a pia. Escolhe uma panela, enche de água, acomoda sobre o fogão, procura a caixa de fósforos, abre, tira o palito, preparar, apontar, fogo…

― Sabe Tina, hoje joguei na loteria. Sonhei com os números; um sonho maluco… Se eu ganhar, vou montar outro aquário, maior que esse; igual o que eu fiz na casa do Juca, uma parede inteira; alias; eles vão me pagar no fim do mês, acho que vai da pra comprar aquele lance que te falei, e quem sabe aqueles planos que a gente combinou, lembra?

Pega um prato e deixa sobre a mesa; abre a geladeira e apanha uma cebola, descasca e se põe a picar.

― Vou te confessar que não foi bem assim que planejei minha vida, sabe Tina. A coisa foi acontecendo… Eu me divirto com os aquários… sempre fui fascinado pela vida marinha; crustáceos e coisa e tal, desde que roubei aquele livro da biblioteca; aquele que ainda ta por ai. Acho que em outra vida eu fui peixe, talvez baleia, que é mamífero também… mas sei que vivi na água…

Larga da cebola, abre o balcão e pega um objeto que parece um coador. Caminha até o aquário e o enfia na água, não demora muito emerge o objeto, com uma pequena gota prateada se debatendo. Caminha até Tina, que permanece imóvel. Estica o coador, sem muitos movimentos ela abocanha o peixinho e manda goela-abaixo.

― Ela não da valor pra o que eu faço Tina… Nunca deu… Pensa que é brincadeira; não acredita mesmo em mim… sem ambição… que mané sem ambição porra nenhuma… É arte… A mais pura arte… Ou até mais que arte. Ela fica boba com aquelas pinturas, não sabe nada, o que eu faço é muito mais foda… Tem movimento… Tem vida… É a arte imediata em pleno imediatismo, como fritar essa cebola.

Pega a frigideira e põe sobre o fogão. Acende, joga o óleo, aguarda uns poucos segundos e em um movimento apoteótico despeja a cebola no azeite. Aos poucos o aroma começa se dissipar pelo ar…

― Eu gosto muito dela Tina, não vejo outro caminho se não... Não vejo outra opção… Ela não me da opção… Hoje é o dia em que tudo se resolve. Por isso preciso de você, preciso que você fique do meu lado, que me entenda, e não me culpe, só preciso que você fique gelo, tudo vai dar certo, como eu te falei, tudo vai dar certo…

Enquanto a cebola frita e espalha o odor adocicado pelo ar, Zeca vai até a geladeira e pega uma garrafa de vinho, abre e serve uma generosa taça.

―Sabe Tina, amar é mesmo uma coisa muito louca. Vejo na tevê esses documentários… que todos os machos do reino animal são fissurados pelo que eles chamam de… como que é… aquele hormônio… aminoácido… que excita o macaco… Glutamato… Glatumato… Glaucomattoso… Glamurnãoseioque… sei la… uma coisa assim… Mas é isso… É coisa natural… Coisa da natureza… Não tenho domínio sobre ela… Vai alem da minha vontade… Como dizem, é totalmente único, seja lá o que isso quer dizer…

Enfia a colher na panela e mistura a cebola que continua frigindo. Bebe contemplativamente a taça de vinho.

― Essa coisa de destino é balela. Puro papo furado. A gente nasce fadado. A amar aquela pessoa. A ser melhor nisso ou naquilo. Mas é obrigado a assumir outros personagens. Tem que ganhar dinheiro, ter carro, pagar imposto, colar selo, enviar e-mail; essa coisa de viver, sabe como é Tina… Ela falou que chega perto das nove e quinze. Tenho que saber que horas são…

Caminha rapidamente em direção ao quarto, aparentando certo nervosismo; Abre e fecha gavetas a procura de algo.

― O tempo Tina. É tudo culpa do tempo. Ela também gostava muito de mim, tenho certeza disso; mas o tempo é uma raposa; você pisca os olhos e é jogado para os créditos finais… passou tudo… passou amor… passou carinho… passou tudo, é assim mesmo, culpa do tempo.

Finalmente encontra o que procura. Retira da gaveta uma pequena caixa decorada; abre e saca de dentro um relógio de pendulo, daqueles de bolso. Fica balançando em frente aos olhos, em movimentos hipnóticos.

―Não é sempre que o cara encontra a mulher da sua vida. Sei como é isso… Antes dela eu procurei muito, experimentei de todas as cores, sabores e perfumes, fiz tudo como meu pai ensinou; se bem que, ele não é o melhor exemplo a seguir; mas fiz tudo. Até conhecer ela, assim, bem do jeitinho que ela é; relapsa; distante, e ao mesmo tempo presente; em mim, internalizada. Aqui. Respirando no meu peito, e isso dói, me sufoca, me angustia e me faz tomar certas decisões, que nem sempre é o que eu realmente gostaria de fazer, mas sei que é assim que tem que ser.

Caminha até o aquário no centro do quarto, se ajoelha e fixa o olhar nos peixes que nadam agitados de um lado para o outro, em uma coreografia caótica tanto quanto fabulosa.

―Sabe aquela parábola dos peixinhos Tina?

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

― Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

― Água? Que diabo é isso?