Ninguém sabe, ninguém viu.

estória do rincão do leão baio.


Mais um dia amanhece tapado de neblina na fazenda Cascavel. Lugar lindo, no rincão do leão baio, ao pé da serra geral. Na pequena casinha atrás do estábulo, dormem dois homens. Venâncio, um caboclo fechado; de pouquíssimas palavras, só abre a boca quando é chamado, mas observa tudo com um olhar eterno. O outro é Tenório. Piá novo, mais conhecido como pentiado , alcunha que ganhou por seus feitos na lida de campo. Todos lembram com clamor aquela vez que ele tirou o bezerro do alagado usando só um pedacinho de soga do boçal, nu em pelo, as cinco da manhã; num frio de trinca telha. Ou talvez pelo corridão que ele deu nos picumã que tentaram roubar o cavalo do seu Darci no dia do rodeio. Dizem que ele só é macho assim, quando o Venâncio ta por perto, não sei se isso é só papo, mas era o falatório na bodega do Chico Graxa; o caso é que os dois são ótimos peões, de muita confiança do seu Antenor. Só que pião é pião. Passa mais tempo na invernada do que em casa. Por isso eles moram atrás do estábulo, adiante da casa grande, já no começo da primeira coxilha. Toda manhã é sagrado, seu Venâncio acorda, acende a vela que fica na cozinha, e se ajoelha diante da imagem de nossa senhora aparecida. O vento que entra pelas frestas normalmente apaga a vela antes que ele termine a oração, mas ele nunca reacende a vela, apenas termina, se levanta, acorda Tenório, e se dirige para o tanque, onde lava o rosto e penteia os poucos mas longos cabelos brancos que tem; apresenta uma calvície acentuada no topo da cabeça, decorrente dos mais de quarenta anos usando o abalarga. Tão logo os cabelos estão arrumados, ele coloca o chapéu na cabeça e começa acender o fogo. Então aparece Tenório, sempre com a cara de trago da noite passada, mas de bom humor. Pela diferença de idade que existe entre os dois, eles se dão muito bem. Não são parentes; nem se conheciam até Tenório aparecer aqui, com aquela malinha verde, onde dentro não tinha uma peça de roupa; carregava consigo somente os troféus de tiro de laço que vinha ganhando desde seus dezoito anos, seu maior orgulho, seu tesouro pessoal; uma mala velha cheia de troféus e medalhas. É obvio que Venâncio não gostou dele de cara, pensou consigo: mas que sujeito mais exibido, ganhar medalha é fácil, quero vê derruba boi no dente. Só que na hora ele precisava de alguém, e o guri embora meio exibido seria de grande ajuda. Com o tempo ele foi vendo que o moço era gente de bem, só tinha se perdido no mundo muito cedo, e toda aquela valentia era da cara pra fora; na verdade ele escondia um coração sozinho e angustiado. Depois do café pronto e tomado, Tenório pega os animais de trabalho e amarra no canto da casinha pra colocar os apetrechos de montaria. Primeiro sempre encilha sua égua, uma baia gateada de nome Cleopatra, e depois o cavalo do Venâncio, um colorado pinhão, bem maior e mais forte que Cleopatra. Quando o sol vai nascendo, os dois já estão prontos para sair à invernada soltar o gado para pastar. Foi quando Venâncio lembrou que seu Antenor mandou o manco avisar que hoje era pra preparar o Porcelana, que ele ia ser exposto numa feira. Venâncio falou pro Tenório ir até a fazenda e começar a arrumar o Porcelana; o garanhão reprodutor, um cavalo que vale mais que qualquer carro importado da cidade. Ninguém coloca a mão nesse animal, a não ser seu Antenor e o Venâncio; de pronto Tenório estranhou, mas percebeu que aquilo era um gesto de confiança da parte de Venâncio, e resolveu não questionar. Montou na Cleopatra e seguiu até a fazenda, onde encontrou todos saindo para cidade. Encontrou seu Antenor carregando uns galões na camionete; ofereceu ajuda e terminou o serviço com o patrão, quando seu Antenor perguntou de Venâncio, respondeu que tinha subido a invernada pra ver de uma vaca que tava prenha e não aparecia a dois dias, foi ver se o potrinho tinha nascido em algum lugar pra perto da campina. Seu Antenor não fez mais muitas perguntas, entregou a chave da baia do Porcelana, e disse que voltava perto do meio dia para carregar o animal. Tenório seguiu até a baia, colocou a chave no cadeado e logo que entrou se aproximou do bicho, colou a boca na sua orelha, sussurrou baixinho, faz tempo que você me chama pra uma montaria não é? contou sobre os sonhos de telo como companheiro de laço, se alguém tivesse ouvido aquilo acharia a cena sensual. Depois de afagar o pelo e as crinas do Porcelana, voltou para o pátio e certificou de o patrão havia saído. Andou até o paiol e pegou a cela mais bonita que estava sobre a treliça de madeira. Voltou para a baia e colocou sobre porcelana. Naquele momento ele sentiu medo de Venâncio chegar e encontrá-lo encilhando o animal, no entanto ele não pensou duas vezes, apertou bem o baixeiro, colocou a rédea, e saiu cavalgando bem pela frente da casa. Desceu pela estrada que leva a cancha de laço, e circulou-a pela lateral até chegar na porteira. — Foi quando deu meia volta e o cutucou na espora para o outro lado. Seguiu até a pontezinha… Um susto. Ninguém sabe. Ninguém viu: Não obedecendo mais os comandos de Tenório, o cavalo começa girar, como se tivesse visto o diabo na frente. Quando ele percebe, esta se aproximando da cabeceira da ponte. Com todas suas forças e toda sua astucia ele tenta dominar o animal trazendo-o para longe barranco, foi quando porcelana empinou, e jogou Tenório para longe. Com o impacto ficou desnorteado, e quando recobra os sentidos, não vê mais porcelana. Levanta-se e corre para a ponte, quando olha para baixo, porcelana esta deitado entra as pedras, imóvel. Corre pela encosta do rio e desce por entre galhos e espinhos até o cavalo agonizando, se ajoelha na água gelada, e olha no fundo dos olhos do animal, que parece pedir ao mesmo tempo ajuda e desculpas pelo ocorrido, em um misto de dó, ódio e desespero, ele começa tatear a guaiaca, até que encontra o que procura. Tira uma arma, e fica olhando fixamente para ela. Ninguém sabe, ninguém viu. Isso não aconteceu.