Uma historia clichê, mas que também aconteceu comigo.
Acordei de susto. Que dor de cabeça. Esta escuro aqui, mas pela luz que vaza da cortina consigo ver o lugar. É um quarto grande; não o reconheço, nunca estive aqui, como vim parar aqui?. Estou deitado num sofá, as cortinas são aveludadas e escuras, tudo parece muito luxuoso e caro. Nunca tinha estado num lugar assim antes. Me coloco sentado. Em minha cabeça tudo gira, sinto medo de levantar, não pelo meu estado físico, mas porque não sei se estou sozinho aqui. Crio coragem e caminho até a janela, em pé vejo que o lugar é ainda maior do que eu havia percebido, as vezes nossa percepção nos engana, vemos as coisas de forma distorcida, não assimilamos a confusão das imagens que se formam em nossa cabeça; me sinto assim agora. Pela janela percebo que estou em um andar muito alto, vejo os telhados que circulam a paisagem e sinto uma vertigem; ainda com a janela fechada êxito em um passo para trás, volto e abro a janela para que entre um pouco de ar; o cheiro é horrível; nem um barulho se ouve; o silencio é assustador, e meus pés descalços tocando o frio do mármore me causa uma sensação absurdamente aterrorizante. Caminho em direção a primeira cortina, o quarto é todo divido por elas, são cortinas de seda transparente, mas não o suficiente para ver do outro lado. Um labirinto de cortinas que cruzo pelos espaços vazios. Algumas imagens começam a tomar forma em minha cabeça, cenas de como vim parar aqui; mas elas não dizem nada, são apenas lembranças dispersa. Pelo gosto horrível que sinto na boca eu bebi demais, isso sempre acontece comigo, é como se limpará o chão com a minha língua. Depois de percorrer uns dez passos, vejo uma cama. Paro de súbito. Sinto um frio que desce da nuca, cruza meu pescoço, pulmões, estomago, passa pelo saco e para em meus joelhos. Tremo. Ainda não sei porque, mas tenho uma sensação ruim, não é como das outras vezes, que acordava ao lado de uma gorda e não me importava, me enfiava dentro das roupas e ia embora cantando. Não sei o que aconteceu ontem, nem como eu vim parar aqui; mas alguma coisa me diz que não é bom pressagio. Quero saber quem esta na cama, mas fico imóvel, tentando controlar a respiração para não fazer muito barulho, penso por um segundo, e não acho outra solução se não continuar, abrir a cortina e ver se tem alguém ali; acordar essa pessoa e dizer que tenho que ir embora. Mais um passo, me aproximo da cortina, consigo ver alguém; uma mulher deitada; esta olhando para o vazio, chego bem perto da cortina e fixo os olhos na mulher, não a reconheço; ela permanece imóvel, e eu ali com a cara grudada na cortina — bom dia, tudo bem?, olha, não sei como cheguei aqui mas tenho ir embora, me desculpa por ontem, não estou conseguindo lembrar de muita coisa, o que a gente bebeu heim? (silêncio) — Oi? —(silêncio) Afasto a cortina e percebo que ela esta pálida e sem reação, sinto frio, sinto calor, sinto frio, sinto calor, meus deus, não sinto meus pés, sinto frio, sinto calor, sinto frio, sinto calor, não sinto minha cabeça, esta tudo escuro, preto, preto, preto, deus, deus, deus… A garota esta morta. Caralho, que merda, o que aconteceu? no criado mudo ao lado da cama tem um telefone. Será que estamos em um hotel? Parece um hotel mas é muito estranho e luxuoso para ser um hotel. Como vim parar em um quarto com uma garota morta, será que ela esta mesmo morta? Será que fui eu que a matei? Porque acontece isso comigo? Preciso parar de sair para beber sozinho nesse bar vagabundo, e também parar com as drogas, elas que me fazem perder a memória. Tateio os bolsos procurando qualquer pista que me ajude a revelar onde estou. Uma carteira de identidade. Mas não a minha. Quem é esse cara? quem diabos é esse tal de Vicente. Não conheço essa pessoa. Será que estão armando pra mim? É pegadinha, cadê a câmera?, pode aparecer. Pensando freneticamente dei a volta no quarto e acabei sentado na poltrona na qual havia acordado; pensa cara; você tem que manter a calma; porra, é só um sonho, isso não esta acontecendo, tiro o isqueiro do bolso e acendo. Coloco meu braço na chama e sinto o calor do fogo na minha pele, não estou dormindo, estou acordado; tudo bem; pense; o que você vai fazer? primeiro calce os sapatos que estão do lado do sofá; agora caminhe até a porta e veja se a chave esta no cilindro; nada de chave; essas cortinas, porque tanta cortina aqui? eu estava com uma sensação ruim, mas… ok…, caminhe até a cama e confira se a garota esta mesmo morta; o que aconteceu com ela, eu preciso saber, vou ter problemas com a policia. Nem pensar; de novo não; vou fugir para o Paraguay. Saio daqui, passo em casa, pego minhas coisas e me sumo, não quero ir pra cadeia. Mas espera ai, eu não fiz nada, não fui eu que matei essa mulher, eu nem a conheço, como eu vim parar aqui? isso só pode ser uma piada, não é verdade… Fixo os olhos na mulher e me vem uma lembrança, ela sorrindo e dançando sobre mim, nessa mesma cama; não consigo lembrar dos detalhes e isso me agonia a ponto de vomitar. É uma tragédia. Não; é uma comedia. Não; é uma tragédia. Não; é uma comedia… que se foda o que é. Sei que eu estou fodido. Mas força. lembre-se… Caminho de um lado para outro entre as cortinas, como uma alma penada no purgatório. Um corpo sobre a cama. Ela não era gorda como as outras, na verdade é linda, e só agora me dei conta disso. O que chama atenção é seu nariz, muito branco. Outra lembrança, ela estava com a chave do quarto, brincando comigo. Lembro que não conseguia parar em pé. Mas queria ir embora; não lembro de nada de antes, mas lembro que queria ir embora; não queria ficar aqui; estão vendo; não foi culpa minha; eu não queria estar aqui, alguém me trouxe, alguém esta querendo me sacanear. A chave, ela estava com a chave; reviro o quarto atrás da chave, cobertas, travesseiros, moveis, tudo, tudo, tudo, e nada da maldita chave. Essas malditas cortinas. Porque tanta cortina, deus, porque tanta cortina, porque eu, porque eu aqui, burro, idiota, idiota do caralho, filho da puta, você tem que se foder mesmo. Não espera, sou eu, sou eu, eu tenho que sair daqui, a chave, a maldita chave. Mais uma lembrança. A chave. Ela engoliu a chave, disse que eu não iria embora e engoliu a chave, eu lembrei, acho que foi por isso que ela morreu, ela engoliu a chave, a filha da puta mandou a chave goela abaixo. Uma chave, vê se tem cabimento. Como vou pegar essa chave? corre até o banheiro, procura uma maquina de barbear, procura uma lamina, uma faca, você vai tirar essa chave e vai sair daqui e não vai se foder. Você não pode se foder. Ninguém vai saber que foi você. Você não fez nada. E o paraguay não é tão ruim assim, você não vai ter problemas pra se adaptar. Nada de lamina. Nada de barbeador. Nada de faca. Nada. Como vou tirar essa chave, eu tenho que sair daqui, tenho que ir embora, olhe nas decorações, encontre alguma coisa de vidro e quebre, isso, aquilo ali serve, vamos, jogue no chão; não idiota; e o barulho?, alguém vai ouvir, faça como nos filmes, enrole em uma toalha e pise; isso; essa toalha, pise, agora abra, vamos, esse pedaço esta ótimo, caminhe até a garota, nossa como ela era bonita, acho que nunca peguei uma mulher tão bonita, mas eu não sei se peguei ela, eu não lembro de nada; não sei o que estou fazendo aqui; e tem uma chave no estomago da garota. Será que tem mesmo uma chave no estomago dela? Caralho, que merda, quem engole uma chave?, eu lembro vagamente dela engolindo essa porra de chave, é isso, esta no estomago, você vai ter que abrir, leva-a para banheira, pra que na banheira? Quando entrarem aqui você vai estar no Paraguay. Tira a roupa dela, bem ali, na parte do estomago, isso, coragem, vai ser como cortar um porco, eu sei que nunca cortei um porco, não um vivo, mas vai ser igual, calma, assim, ok, vamos lá. A porta. A porta. Tem alguém na porta. Não abra a porta. A porta. Tem alguém na porta. Merda. Eu já devia estar no Paraguay.