O decifrador de sóis

A Velha vivia sentada na luz da porta, à espera que o nada lhe trouxesse alguma coisa. Suas histórias eram mais antigas que o próprio tempo. Contava-as enquanto delicados fios de palha dançavam com seus cansados dedos, formando uma trança que nunca tinha fim.

Ao sujo e rachado batente, pousava um miúdo. Atento, ouvia tudo que a Velha contava. De tanto ouvir histórias, o menino tornou-se um sonhandante. Queria espalhar-se por tudo que há, em busca de tudo aquilo que espera ser por nós sonhado.

Certa feita, ouviu falar da boca da Velha que um velho feiticeiro havia de ter encontrado a morada do sol, o fim do mundo, onde tudo termina e o sol se resguarda para que a feminina luz do luar pouse com afabilidade por cima das gentes todas que aqui habitam.

Decidiu que precisava encontrar a morada do sol. Lá, ficaria tão próximo dele que conseguiria decifrá-lo. Partiu em sua mais arriscada sonhandança. No caminho, engarrafou mares, contabilizou eternidades, derramou-se em pequenos instantes. Nada encontrou. A velha havia mentido? O sol não tem casa, pensou consigo mesmo o já não mais miúdo homem, era apenas mais um besteirol daquela velha maluca!.

Sentado à berma de um rio, viu que este corria para a nascente, ignorando os mandos divinos. Sentiu que era tempo de não ser e achegou-se em tímida canoa, pôs-se à correr pelas águas. E no ir sem fim do rio, encontrou o feiticeiro, devoto do silêncio, aprendiz das coisas acabadas, olhando para lugar algum.

O já não homem, mas Velho, via agora uma imensidão de pequenas vaga-luzes, pairando por sobre um lugar sem noite nem dia, esperando o tempo onde a silenciosa fabricação dos afetos, os faça sóis. Era o nascer da terra.

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