É Gordofobia Sim!

Jessamyn Stanley, 27 anos, instrutora de Yoga da Carolina do Norte

Eu nasci gordo, fui uma criança gorda, mas diferente de outras crianças que convivi que ficaram magras ao crescer, eu continuei gordo depois de adulto. Sou gordo até hoje, mesmo tendo perdido alguns quilos nos últimos anos, eu continuo gordo inclusive em termos médico. Meu índice de massa corporal é acima do “normal” para minha altura e sim, eu sofro gordofobia.

Assim como qualquer outro preconceito a provocações nem sempre são explicitas ou intencionais, porém muitas vezes são. Pode vir até mesmo das pessoas que mais se importam contigo, achando que estão lhe fazendo o bem. Não é justo culpa-las, a todo momento isso é posto, ser gordo é ser um outro indesejado, doente e desregrado.

Me doi muito mais quando o preconceito é velado e acredito que o mesmo vale a todos que sofrem preconceito. Imagine alguém que lhe é um amigo, alguém que se confia e respeita, nunca lhe dirigiu nenhum tipo de afronta ou descriminação, mas que em um momento aleatório deixa escapar um comentário: “realmente de comida você entende”(sinta-se a vontade para substituir essa frase por qualquer outro comentário preconceituoso ou discriminatório). Essas palavras cortam a alma como papel, ardendo como não devia. O fato de ser alguém próximo não torna essas palavras uma brincadeira, de fato, só as tornam mais afiadas. Um corte que vem acompanhado de uma farpa profunda, será que essa pessoa realmente a vê como um igual, como alguém digno de respeito? Não desliza quem não anda na borda e eu quero meu ser respeitado por ser uma individuo como qualquer outro, não um respeito pró-forma.

E quando o preconceito vem de alguém que tem mais “poder” que você, que “sabe” mais que você? Eu fui numa médica recentemente fazer checkup geral, a primeira coisa que ela me pergunta é se eu sentia alguma coisa, respondi com sinceridade: não, nada de dores, nada de falta de ar, nada de cansaço. Depois de voltar a pergunta e receber a mesma resposta ela segue para perguntar gerais sobre minha vida. Até perguntar se eu fazia exercício, que respondi dizendo que morava na Roçinha e que fazia todo meu deslocamento diário a pé, que é verdade e está longe de ser uma rotina sedentária. Não contente com a minha resposta pergunta sobre academia, “exercício mesmo”, que não faço, admito. Seguiu então aos exames clínicos, que se resumiram apenas a medição da pressão arterial, acompanhado da pergunta sobre o histórico de hiper-tensão na família. Meu pai é hiper-tenso, mas minha pressão é e sempre foi impressionantemente normal, nem um pouco alta ou um pouco baixa, bem normal. Obvio que ela averiguou isso após a medição, averiguou também que meu Indice de massa corporal é alto para minha altura, mas essa conclusão ela chega sem sequer se aproximar de uma balança, apenas olhando pra mim.

A gota d`agua pra mim foram os exames de sangue que me pediu. Além da rotina, eles incluíam um exame de diabetes. Uma doença extremamente preocupante, sei disso, minha vó sofre desse mal, mas é única da família e a medica não sabia disso. Como eu uma previsão que devia se realizar, eu deveria ter ao menos um dos items obrigatórios do “kit gordo”: pressão alta(que não tenho), colesterol alto(que também não tenho), cansaço crônico(não preciso nem dizer), falta de ar e/ou diabetes. Os resultados ainda não chegaram, mas garanto a todos que as chances de eu ter câncer são maiores que eu ter diabetes se observarmos a minha arvore genealógica.

Lembro inclusive uma episódio da minha adolescência, dois na verdade. O primeiro se deve ao fato de eu soar demais, ainda é um problema que rendeu até mesmo brigas com uma ex-colega de quarto. Fui a um médico que me recomendou aceitar o fato pois se tratava de uma questão hormonal, que a única forma seria uma cirurgia na pituitária que estava totalmente fora de questão. Em outra oportunidade fiz uma bateria de exames que acusaram uma saúde normal. O comentário do médico foi: “Parece tudo certo, nada fora do padrão. Só precisa mesmo emagrecer.” Me receitou uma dieta que de nada foi problema, mas também efeito algum trouxe. O que quero dizer é: um problema que realmente me incomoda, que me impede de tocar a minha vida normalmente é algo que devo lidar, mas o fato de ser gordo, mesmo sem prejuízo algum a minha saúde, deve ser tratado sem sequer consulta da minha opnião. Ainda sofro de sudorese execiva e ainda busco alguma forma de controla-la.

Muito provavelmente me vai ser receitada uma dieta balanceada, que tenho quando não sou obrigado a cozinhar, e fazer exercícios, que já faço diariamente. Agora, se academia entrar em questão, não relutarei em me opor. A academia é de fato um dos ambientes mais opressores contra a pessoa gorda, imagine um lugar onde você é a imagem demonizada por todos. Onde o seu corpo é o fantasma de todos que ali frequentam, ninguém quer ser como você, você é o ultimo elemento da cadeia que vai do “corpo perfeito” ao medo de todos. O que deveria ser uma experiência de saúde, se torna uma tortura psicológica que só fomenta a repulsa ao próprio corpo.

Ana Furtado, André Marques e Jô Soares em 2011.

Digo ainda mais, alguns de nascemos para ser gordos. E mesmo magros continuamos gordos, carregando o peso de viver em um corpo que não é seu. Trago um exemplo, que se lembra da atuação de André Marques no Video Show? Sua desenvoltura era ótima, até 2013 o gordinho mostrou um trabalho assombroso de segurança diante as câmeras. Obevio que não estou falando de atuação, ele era um apresentador e a única coisa que podemos avaliar é a sua segurança em estar ali. O Andrezinho que hoje substitui Ana Maria Braga nas manhãs não só perdeu um bom peso mas toda aquela segurança. Agora com os braços sempre juntos ao corpo e sempre que possível encostado em algum balcão ou mesa. O carisma também parece ter secado junto com a barriga, cadê o garoto que levava sozinho o programa da tarde e dava aquele ânimo depois do almoço?

Cissa Guimarães e André Marques em 2015 no Programa “Mais Você”

Algo muito comum entre os gordos que não se oprimem é fazer piada sobre a sua condição, numa forma de afastar a piada fazendo ele mesmo a piada. Isso era uma característica do André antigo e continua com no Andrézinho magro. Mostra que realmente não se trata ali de um estar bem com o próprio corpo, mas um medo constante do “fantasma” do André gordo. Pense ainda que este rapaz apresenta agora um programa culinário! Toda guloseima é apresentada junto a comentário de que “preciso me controlar”, como se o fantasma pairasse sobre ele, insitando a todo momento ao comer.

Meu corpo não é uma aberração ou monstro, ele é quem eu sou. Devemos sim ter uma alimentação saudável, nos exercitar regularmente, evitar gorduras, açúcar e sal, mas não para buscar um corpo X, mas pela nossa saúde física e emocional. Quanto mais um gordo emagrece, mais triste ele fica, pois maior se torna o medo de voltar a ser gordo, de voltar a ser o alvo de comentários, de voltar a ser motivo de risadas, de voltar a se sentir mal com o que come. Mas o fato é que não importa o peso, ser gordo é ser descriminado no mundo de hoje. Não importa a quantidade de pessoas que morrer todos os anos ao experimentar formas milagrosas de emagrecer. Não importa quanta gente debilita sua saúde com treinos, técnicas e substâncias desumanas nas academias. Não importa o quantas pessoas se torturam psicologicamente por não terem o corpo perfeito. Ainda continuamos repetindo o quão perigoso e feio é ser gordo. Não se fala de ser saudável, de ser balanciado, de ter bons hábitos, se fala de emagrecer! Como se uma coisa fosse sinônimo da outra!

“Grande” Tim Maia

Gord@s do mundo! Sejamos saudáveis, sem deixar de ser gord@s!