Malevich: O Suprematismo e o Comunismo

Falar sobre a arte de Malevich e do próprio suprematismo de forma geral, eu acredito ser uma tarefa bastante desafiadora. Pela sua própria natureza transgressora e e seu projeto de mundo, porém me parece essencial valorar esses artistas pela sua importância na construção do nosso mundo. E mais importante, perceber seus objetivos e progressos na reflexão sobre um novo mundo dentro dos valores socialistas.

O primeiro passo dessa analise deve ser, acredito eu, o primeiro contato com a sua obra mais icônico:

Quadrangulo Preto(1915)

Qual é a primeira coisa que aparece em sua mente ao ver esse quadro? Não é necessário pensar mais de alguns milissegundos para ter essa resposta. É um quadrado preto sobre um fundo branco. Qualquer um, de qualquer lugar do mundo, de qualquer idade, ideologia ou capacidade visual é capaz de identificar esse quadro. A forma é regular, distintamente localizada no espaço, claramente um quadrado. E as cores são completamente contrastantes, claramente opostas e perceptíveis por qualquer olho que ainda seja capaz de enxergar. Não só é a composição perfeita de elementos gráficos, mas também a transmissão perfeita de um conceito puramente abstrato que é o quadrado, raramente se vê quadrados formados naturalmente. Esse quadrado e esse efeito é o exemplo máximo dos objetivos do suprematismo.

Obviamente alguns pontos tem de ser levantados para refletir mais afundo essa arte. O primeiro ponto a ser percebido é que este é um trabalho experimental, não se tinha o objetivo de manter naquele estilo ou proposta, mas explorar a partir disso. Assim como toda a arte Russa nesse momento logo após a revolução socialista tinha uma carácter experimental. Veja então tais obras não como uma máquina em funcionamento, mas como rascunhos de um parafuso, dentro de um projeto de planejamento dessa máquina.

Essa máquina que se pretendia ser o “produto final” da revolução de 1917. Tais artistas estavam investidos de um mesmo ímpeto que os Sovietes de construir uma nova sociedade sobre novas bases, no processo que Trotsky vai chamar de revolução permanente. Não se tratava de fazer uma arte moderna, mas de construir uma nova Arte, para um novo Mundo, com um novo Sistema. Muitos influenciados também pelo futurismo nesse ponto. E na visão de Malevich, pensar uma nova arte dizia não apenas a redescobrir temas e usos para a arte, mas refazê-la do zero sobre novas bases que não as geradas pelo velho mundo e apropriadas pelo capitalismo.

O novo mundo socialista não seria apenas vermelho, mas com valores novos de organização social: democrático, igualitário, racional, internacional e transumano. Sendo assim, essa nova arte, suprema, suprematista, deveria:

1Ser capaz de ser apropriada, utilizada e absorvida por qualquer pessoa. Permitindo-a se inserir dentro da sociedade pelo simples contato com tal obra de arte.

2 Ao mesmo tempo que múltipla e adaptável, ela é igualitária no momento em que qualquer um, independente de origem, capital ou cultura é capaz de apreender e criar esse tipo de arte.

3 Mesmo que subjetiva e aberta a interpretações, essa arte é extremamente precisa na construção de sentidos. Talvez não os pareça de início, porém essa ideia de precisão são diz respeito a precisão de um texto, mas uma precisão sensível. Assim como você seria capaz de identificar um rosto triste, não importa a nacionalidade ou cultura daquele rosto, assim o suprematismo pensava transmitir ideias abstratas através de composições que vão além das barreiras linguísticas.

4 O socialismo nunca se pensou nacionalista, sempre internacionalista. Era de suma importância pensar não em uma nação socialista, mas um mundo socialista, sem classes e sem desigualdades. Uma arte para esse mundo precisava ir além das barreiras nacionais e ser capaz de transmitir sentido a qualquer pessoa, independente da sua origem ou cultura. A língua se limitava nesses aspectos e mesmo a tradução não era capaz de resolver de todo o problema dessa internacionalidade. Era preciso construir uma arte sobre signos e “palavras” inteligíveis por qualquer pessoa.

5 Era preciso uma arte transumana, que rompesse a comunicação dentro dos grupos exclusivos de falantes de uma língua e se comunicar de forma universal. Não sobre uma língua tipa como hegemônica, ou a criação de uma língua convencionada ao uso comum, mas a partir das habilidades propriamente humanas de construção de sentido. O preto, branco e vermelho eram as principais cores desse movimento, pois eram as cores mais reconhecíveis por qualquer pessoa e que mais facilmente se contrastam frente a outras cores.

Os estudos Suprematistas, e toda a arte soviética por assim dizer, foram interrompidos for força do Stalin. Artistas exilados, mortos e perseguidos, obras proibidas e censuradas. Tais ideias acabaram perdendo sei viés revolucionário e sendo apropriadas pelos estudos sobre design e publicidade, que de certa forma sintetizam os trabalhos suprematistas, mas dando outros usos para eles. Podemos perceber claramente como que esses estudos sobre a forma e a comunicação universal influenciaram esses campos no momento em que lembramos que McDonalds e seus arcos são reconhecidos em qualquer lugar do mundo, por qualquer pessoa, igualmente ao quadrangulo preto. Claro que após essa apropriação muito mais foi se incorporando nesses estudos, como disse o suprematismo era uma grande experimentação, muito mais se descobriu sobre design e publicidade a partir das suas reflexões.

Acho que hoje não nos vale mais olhar Malevich e sua arte como um mero suvenir da revolução Russa, mas como algo muito maior, um real processo revolucionário. Hoje temos estudos profundos a respeito da forma e da construção de imaginário que apenas se experimentava naquele momento. O que nos falta hoje é quebrar as barreiras criadas em torno desses conhecimentos e pô-los a serviço daquilo que foram pensados de inicio: a Revolução. O movimento socialista em geral parece muito carente de reflexão sobre sua própria construção histórica, o que parece contraditório. Se nós buscamos um mundo de iguais, como podemos nos ver como diferentes daqueles anteriores, posteriores ou contemporâneos a nós? O diálogo é essencial no mundo socialista e não pode ser ignorado ou dado como algo resolvido. Precisamos nos reapropria dessas reflexões e experiências dos socialistas anteriores a nós, em especial daqueles que tiveram sucesso. Não podemos olhar o mundo novo a partir das barreiras do mundo capitalista, precisamos utilizar de outras formas e construções capazes de agir por fora dessas lógicas e acredito eu o Suprematismo ser uma grande fonte de inspiração nessa reconstrução. O design, a comunicação e a publicidade já nós são como dadas hoje da forma que são, mas se formos capazes de desconstruí-las com os mesmo objetivos que os suprematistas, seremos capazes de fato de construir uma visão do nosso real mundo socialista.

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