Mesa para dois.

As vezes eu tenho a impressão de que as pessoas não entendem bem o relacionamento eu e Sara. Alguns amigos vem comentar de como somos um casal perfeito e que nada dá errado. Bem, coisas dão errado, sempre dão, mas o fato de estarmos juntos não tem nada a ver com isso, tem a ver mais com o prazer de estarmos perto um do outro. O prazer de dividir algo.

Veja, uma vez a Sara precisava fazer um trabalho precisava fazer um trabalho sobre alguma coisa relacionada a tartarugas. Para ser sincero não criei curiosidade de saber. A questão é que ela quis fazer o trabalho na minha casa, trouxe metade da biblioteca da faculdade para isso. Eu questionei ela:

– Sara, porque diabos não faz esse trabalho na sala estudos da biblioteca?

– Semana passada a bibliotecária descobriu que era café que eu levava na minha garrafinha e me deu uma suspensão de um mês.

– ham? Não faz sentido isso!

– Também acho, mas são as regras da biblioteca.

– E você também não podia ficar esse tempo sem beber café?!

– Não — Ela fez uma cara de deboche para me mostrar que eu não ia convencê-la a mudar de ideia.

Minha sorte é que aquele dia eu tinha café na dispensa, então eu não precisaria comprar mais para agradar a minha convidada, e aquele dia eu iria revelar meus filmes. Sempre fui condescendente e sempre atendo quando me pedem ajuda, vide que deixei ela estudar aqui em casa, mas também tinha minhas regras e sou bastante rígido quanto a elas. Quando eu entro no laboratório, nada me tira de lá. Não adiantava ligar ou gritar, não ia sair. Sara tinha noção dessa regra.

Depois de trazer mais de 30 livros do elevador para a minha sala, me despedi e entrei no laboratório, onde comecei a revelar. Revelar filme é um processo bem simples e terapêutico. Para qualquer um que seja metódico é um ótimo exercício. Cada um vai criar a sua sequencia de passos, um gosto de começar lavando o tanque de revelação, por puro TOC, não faz diferença alguma do processo. Apago a luz, saco o filme e começo a enrola-lo no suporte, ou grelha como gosto de chamar. Ponho a grelha dentro do tanque, tampo e já posso acender a luz. Agora é a hora dos químicos, que eu deixo guardados em garrafas chiques de cerveja, recomendo a todos que façam o mesmo, essas garrafas protegem os químicos da luz. Primeiro jogamos o relevador e ficamos chacoalhando pelo tempo que a embalagem +10%, para dar um efeito vintage, sem esquecer de trocar de mão e bater com o tanque na pia a cada 10 segundos. Depois dessa punheta, é hora de lavar, jogamos o revelador ralo abaixo, enchemos o tanque de agua da torneira, chacoalhamos mais um pouco, tiramos a agua e vamos para o fixador, que é a mesma coisa do revelador. Depois disso já podemos abrir o tanque, tirar o filme e deixá-lo pra secar.

Depois de 30 rolos de filme e de descobrir que dezenas de votos que eu esperava estavam queimadas, eu finalmente saí do meu santuário e fui ver a quantas andava o trabalho da Sara, além é claro de ver que horas eram. Eram 22h, passei 4 horas no laboratório, entre revelar e olhar filmes. Sara, nesse momento, estava dormindo toda encolhida no sofá. No computador ela tinha parado no meio da palavra “tartarugggggggggggggggggg….”, ao lado dele a garrafa térmica vazia, que não conseguiu segurar a barra. Ela devia ter acabado de cair no sono, ainda estava muito fofinha e não estava esparramada pelo sofá. Peguei um cobertor no quarto e a cobri. Tirei os livros do sofá, coloquei-os em cima da mesa e apaguei a luz:

— Boa noite Sara. — Me despedi e fui dormir também.

No outro dia de manhã, uma sexta-feira, eu pretendia passar o dia em casa, talvez escrever alguma coisa ou recordar os negativos. Mas o que era para ser um dia de sossego já começou agitado, Sara me acordou pulando na cama e gritando.

— Preciso que me leve pro Fundão de carro.

— Calma, nem acordei ainda.

— Acorda! Eu tenho de entregar o trabalho, a aula começa em meia hora.

— Meia hora?! Nunca vamos chegar no Fundão em meia hora.

— Vamos sim, vem. — Ela nem me deu tempo de me vestir, me arrastou pela casa.

— Deixa eu pelo menos comer alguma coisa?

— Eu levo o pão e você come no carro.

E lá fomos nós. Eu, ainda dormindo; Sara, que parecia ter adoçado o café com cocaína de tão agitada; Plínio, o meu carro, para quem não conhece; e meio saco de pão de forma. Ir de Botafogo até o Fundão de manhã em plena sexta-feira era uma questão e tanto, mas encaramos. O trânsito estava até bem leve, mesmo assim perdemos bastante tempo até o centro. Saindo do elevado e entrando na Linha Vermelha, o trânsito estava magicamente livre, como se o universo conspirasse em prol de Sara, pena que Plínio não.

— Não tem como andar mais rápido?

— Sara, você lembra que o fusca só tem 4 marchas?

— Corta esse pessoal!

— Pra que? Eu não vou conseguir ultrapassar eles!

— Eu vou me atrasar!

— Desculpa se não temos um Porsche a disposição!!

Enfim, conseguimos chegar no Fundão, obviamente levamos bem mais que meia hora, mas acho que a Sara sequer percebeu. Depois de eu me perder na cidade universitária ela decidiu ir correndo até o prédio dela e entregar o trabalho. Devo destacar que essa é uma grande proeza pra ela, já que as pernas curtas não ajudam. No fim consegui achar o prédio, mas nem deu tempo de estacionar, eu cheguei no prédio e ela saiu pela porta da frente. Ela entrou no carro e eu perguntei:

— Conseguiu entregar o trabalho?

— Consegui — E apagou durante a viagem inteira de volta.

Chegando em casa ela ainda estava sonolenta, tirei os sapatos dela e a deixei dormindo na minha cama enquanto resolvia as minhas questões. Dentre essas questões, meus negativos, tinha de recorta-los e guardá-los. Tinham várias fotos do Mar, do Jardim Botânico e da Sara. Sabe, vendo essas fotos eu fiquei pensando nela. Afinal, porque estamos juntos? Óbvio que eu gosto muito dela e ela gosta muito de mim, mas também existem momentos em que eu quero que ela saia de perto de mim, acredito que ela também tenha momentos assim. Por mais complicações que ela possa me trazer, eu gosto de tê-la por perto. Talvez seja essa imprevisibilidade dela, numa foto ela está sorrindo cheirando uma flor, na outra está sensualizando com a flor.Eu sinto que é como se ela fosse o motor da minha vida e eu seja da dela. Ela cria complicações pra minha vida e faz com que ela não seja monótona. Eu ajudo ela a fazer suas coisas e ela consegue por pra frente o que quer.

Eu decidi dar uma pausa no trabalho com os negativos e comecei a ler no sofá. Goethe, romantismo alemão, uma boa leitura para quem tem tempo de ver os pormenores com toda a atenção, e vou dizer que li um bom pedaço do Werther. Só parei que senti um pé gelado chutando o meu:

— Dá licença aí, deixa eu sentar. — Me mexi um pouco e Sara se sentou aninhada em mim — O que está lendo?

— Goethe.

— Parece chato, quer fazer alguma coisa mais legal?

— Tipo o que?

— Assistir a estreia do novo filme do Goddard?

— Quem dera tivesse sido convidado.

— Bem, não me subestime. — Ela abanava na minha frente um par de convites para a estreia. Eu falei com todo mundo mas não consegui os convites, não faço idéia onde ela conseguiu.

— Onde conseguiu?

— Tenho meus contatos. Mas com uma condição! Foi muito difícil conseguir esses convites.

— Condição? Depois de hoje?

— Sim!

— O que então?

— Hoje vamos jantar no Amarelinho.

— E isso é condição? Isso é obrigação! Ir no Odeon e não comer no Amarelinho é praticamente um pecado.

E fomos nós dois assistir o filme, foi uma ótima noite. O bar ficou cheio depois do filme e a Sara começou a desenhar no papel que cobria a mesa:

— O que tá desenhando?

— Você — ela deu uma risadinha em seguida.

— Por que ta fazendo a minha barba toda desgrenhada?

— Sua barba é desgrenhada. — Antes de eu responder ela completou. — Eu gosto da sua barba desgrenhada.

— Eu também gosto do fato de você ser baixinha.

— Eu gosto de ser baixinha. Pode desenhar a vontade.

— Vamos na feira da Praça XV amanhã?

— Claro.

Talvez eu deva incluir que aquela lógica, eu também invento coisas mirabolantes e Sara fica do meu lado, eu sei que ela vai estar. Essa mistura de previsibilidade e imprevisibilidade, acho que é isso me faz querer ficar do lado dela e vice-versa. Me sinto bem, me sinto confortável dentro de um relacionamento como esse. Sinto que está tudo bagunçado e seu lugar.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.