Corpóreo.

Peony Yip

Eu já sabia que ela sabia que eu sabia da sua existência. Tempos atrás tinha visto uma foto dela num bar, com um amigo meu. Para mim eles nem se conheciam. Fizeram ensino fundamental juntos, descobri meio a uma conversa de intervalo. Ok. Tudo bem. Naquela época não fazia a menor diferença. Tanto é que nem me lembrava que nós já tínhamos estudado juntos. Tanto é que nem me lembrava que tínhamos feito crisma juntos. Cresceu, né? ─ Quem será que comentou?

Pesquisei-a no instagram e fui dar uma olhada, como qualquer pessoa normal faz. O cotidiano eclodia, a arte extravasava e o sorriso ─ ah, o sorriso ─ quase anunciava sua alma. O que me despertou atenção foi uma fotografia dela, com um velho professor de história, Jorge. A admiração era evidente. Compreendi fácil, também já tinha sido aluno dele. Era fim de “terceirões” e a curiosidade por qual curso ela queria bateu. Ora ora, mas quem diria? Um ótimo curso optado, influenciada de uma maneira saudável pelo pai, acho. Ela assina uma coluna? ─ Perguntei para as paredes. É sobre moda. ─ Elas me responderam. Bom, não me interessa muito. Deixa eu acrescentar uma característica: provocadora, segundo as amigas.

Desencanei de pensar na moça. Mantinha-se distante a nossa relação, eu como Niterói e ela Cidade Maravilhosa. A enorme Baía de Guanabara nos separava e o pior, a ponte não tinha sido construída. Só que um fenômeno começou a acontecer, amigos com quem eu promovia rolês a mencionavam a todo tempo, e eu só escutava. Tive a sensação que, hora ou outra seríamos apresentados. Sentir que algum dia vai conhecer tal pessoa, que num futuro próximo você pode ter algum tipo de relação, seja ela qual for, com um indivíduo que te atrai pela personalidade, parece furada? E se eu criei expectativas demais e ela for uma chata de galocha?

Eu já sabia que ela sabia que eu sabia da sua existência. Notava-se pela expressão meio envergonhada, me olhava meio de lado e ria enquanto cochichava alguma coisa com a amiga. Na frente, eu e Pedro decidíamos qual a melhor mesa. Me puxou num canto e disse fica tranquilo, ela não morde. ─ Dando leves tapinhas no meu rosto. Engraçadinho.

─ Deixa eu apresentar vocês. Esse é o Gustavo de quem eu disse.

Ótimo, ele comentou sobre mim. Quantas barbáries a criatura pode ter contado apavorando a garota? Não tenho a menor chance. Que tipo de palerma que ela pensa que sou? Já posso pedir a conta? O casal Judas nos olhava rindo com maldade e lerdeza, certamente nos zoando por sermos tão envergonhados.

─ Vocês vão se dar bem, soube que compartilham dos mesmos gostos. Literatura, arte, samba… ─ Disseram enquanto se afastavam rumo ao bar.

Bem, só era eu e ela, sozinhos. Perguntei pro garçom se a mesa da calçada estava livre. Sentamos em posições opostas, frente a frente (Durou pouco). No começo achei que seria estranho, mas mal sabia eu que aquela seria a posição perfeita pros assuntos que teríamos. Aliás, dali era fácil contemplar seus olhos castanhos. Duas cervejas, por favor. Meus goles tinham uma intenção diferente naquele dia, fazendo com que eu bebesse rápido. Ela ria e tranquilamente, sem pressa, ia enchendo nossa mesa de garrafas vazias de Original. A noite esfriava e os papos esquentavam. Eventualmente nos aproximávamos, arrastando as cadeiras até ficarmos um do lado do outro. Depois da última batata levada a boca, batendo o queixo sugeriu:

─ Quer sair daqui? Tô tremendo. ─ Me deu as mãos provando-as gélidas.

─ Claro. ─ E eu ia dizer não?

Após da conta paga, uma ida ao banheiro me fez a esperar lá fora, em cima do meio fio, olhando seriamente para frente. Quase bobo.

─ Realmente, o horizonte é muito interessante.Murmurou me caçoando.

─ Então a moça sabe ser sarcástica? ─ retruquei. (Risos)

─ Quer ir embora comigo?

─ Quero.


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