Memórias da final da Libertadores 2005


Em 2005, eu escrevi o texto abaixo, sobre minha experiência para assistir à final da Libertadores 2005 — e comemorá-la também. Cuidado: o “causo” é longo.


Texto e fotos: ALEXANDRE GIESBRECHT | Twitter
Foto de abertura: DANIEL INDECH/Wikipédia


Tudo começou duas semanas antes, quando o São Paulo derrotou o River Plate em plena Buenos Aires e garantiu sua vaga nas finais, contra o Atlético Paranaense. Surgiu a possibilidade de o Popô e eu irmos assistir à finalíssima nas tribunas do Morumbi. Não era nada certo, mas poderia rolar. Com o ingresso mais barato das arquibancadas raro e a cinquenta reais, era uma opção bastante atraente. Só que, depois de tudo dado como certo, ficamos sabendo na última hora que não iria rolar.

Tudo bem: assistiríamos à partida em algum bar na Vila Madalena. O escolhido foi o Posto 6, que usa a parede de uma loja vizinha como “telão”. Chegamos lá depois de passarmos por um bar novo na esquina da Fidalga com a Inácio Pereira da Rocha, lotado. O “telão” estava lá, passando comerciais do bar e alguns vídeos produzidos sabe-se lá por quem.

O estranho era que, pelo radinho do Popô e pelas minúsculas TVs colocadas dentro do bar, o São Paulo já estava entrando em campo, mas nada de o “telão” mudar para o jogo. “Não vai passar o jogo aí?”, perguntamos para um segurança. O “não” como resposta foi um verdadeiro balde de água fria. Tínhamos pouco mais de cinco minutos para achar outro lugar.

Àquela altura, tudo quanto era bar que tinha algum tipo de telão ou TV um pouco maior estava com gente saindo pelo ladrão. Um, na Fradique Coutinho, tinha lugar, mas cobrava absurdos vinte reais de entrada. Outro, na Mourato Coelho, até fechou a porta para ninguém mais poder entrar. A solução foi assistir ao jogo em casa, mesmo. Fomos para a minha, a mais próxima.



Com tudo isso, perdemos os primeiros dez minutos. Nenhum problema: o São Paulo só abriria o placar aos dezessete, com uma cabeçada oportunista de Amoroso. Comemoração aos berros, tanto no meu quarto quanto no quintal, com o pessoal que estava no cafofo do meu irmão, levando a minha tia a sair do quarto dela e perguntar à minha avó se estava tudo bem.

Na metade do primeiro tempo, baixei de vez o volume da TV e deixei a magia da narração de José Silvério tomar conta do recinto, ainda que com alguma estática. Curiosamente, o rádio estava cerca de um segundo adiantado em relação às imagens da TV, o que era um alívio nos ataques do Atlético, mas bastante irritante quando era o São Paulo que partia para a frente. Mesmo assim, prefiro o Silvério ao ufanismo barato do Galvão Bueno.

Aos 45 do primeiro tempo, o juiz achou um pênalti para o Atlético. Se — veja bem: se — foi mesmo falta, deveria ter sido fora da área, mas o juiz interpretou de outra forma. Tempo para a lembrança do Popô: segundo ele, a Mãe Dinah dissera que o São Paulo seria campeão se o juiz não o prejudicasse. A previsão dela começou a ir para o espaço logo depois, quando Fabrício carimbou a trave.

Mas eu não vi. Graças à narração ligeiramente adiantada do Silvério, quando ouvi o “correu, bateu… na trave!”, já saí comemorando, mesmo com o chute ainda sendo desferido na tela da TV.

Fim de primeiro tempo, sorte sorrindo a nosso favor. O nervosismo pré-jogo começava a dar lugar a uma confiança crescente no time. A camiseta pé-quente comprada em 1993, logo depois que a Tam passou a patrocinar o time, parecia estar cumprindo a sua função. O jejum de amendoins do Popô também estava contribuindo. Não sou supersticioso, mas não convém em uma situação dessas brincar com o desconhecido.

Resultado das nossas “precauções” ou não, o São Paulo fez 2 a 0 logo aos sete do segundo tempo, com uma cabeçada indefensável de Fabão no ângulo esquerdo do goleiro Diego. E eu não vi a bola entrando. Quando na TV o Fabão estava subindo para cabecear, no rádio o Silvério já soltava seu característico “É gol!”.

O nível de confiança subiu ainda mais. O título já era quase nosso. E tornou-se efetivamente nosso aos 25, quando Amoroso cruzou com perfeição nos pés de Luizão, que chegou um pouco à frente da zaga e só empurrou a bola para dentro. Como no tento anterior, não vi o momento de a bola entrar, porque o Silvério já cantava o gol quando Amoroso preparava o cruzamento.

A situação repetir-se-ia novamente aos 44, no quarto gol. O Tardelli não tinha nem dado o corte no zagueiro, e eu já estava pulando, pois o rádio tinha “me contado” o que aconteceria. Desta vez, o goleiro Diego, talvez já de saco cheio, nem se preocupou em ir na bola.

Título conquistado, taça levantada, chuva de papéis, volta olímpica, tudo a que o São Paulo tinha direito… Era a vez de a torcida — ou seja, nós — comemorar.

A comemoração inicial foi no quintal, mesmo, com o Popô, que assistira ao jogo comigo, o meu irmão e outros três amigos, que assistiram ao jogo com ele. Todos são-paulinos, obviamente. A gritaria ultrapassou um pouco os limites de decibéis de uma meia-noite de véspera de dia útil, mas era uma ocasião especial: não é todo dia que se conquista uma Libertadores — os corintianos que o digam.



A ideia de ir à Paulista surgiu naturalmente. A princípio, apenas o Thiaguinho e eu estávamos dispostos, mas, quando os outros dois que sobraram perceberam que estávamos falando sério, concordaram em nos acompanhar. Fôssemos apenas o Thiaguinho e eu, a distância até a Paulista seria coberta a pé, em cerca de vinte minutos. Como os outros dois também iriam, meu irmão insistiu para irmos de carro.

O trajeto foi mais tranquilo do que esperávamos. Não houve congestionamento, ao menos no caminho que fizemos, pela Oscar Freire. Paramos o carro na Campinas, dois quarteirões abaixo da Paulista. Subimos pela mesma rua, mas a Polícia Militar impedia que os torcedores entrassem na avenida. Demos meia-volta, na esperança de achar outra rua desbloqueada.

Àquela altura, ainda não sabíamos dos atos de vandalismo que tinham ocorrido — quer dizer, que estavam ocorrendo. Por isso, foi uma surpresa o fechamento do até então tradicional local de comemorações paulistano. Justo na hora em que estávamos descendo a Campinas, buscando ganhar a Alameda Santos, estourou alguma confusão entre os PMs que guardavam o bloqueio e alguns “torcedores” que tentavam invadir a qualquer custo.

Corremos um pouco e dobramos a esquina, o suficiente para garantir nossa segurança. O Thiaguinho tinha ficado para trás e quase tomou umas belas borrachadas, mas conseguiu se desviar e correu de volta para o carro. Nós só o achamos pelo celular, e ele juntou-se a nós na jornada rumo à Joaquim Eugênio de Lima, que também estava fechada. Resolvemos dar uma última cartada, a Brigadeiro: uma avenida tão importante de ligação com o Centro não poderia estar fechada.

E não estava. Conseguimos, finalmente, alcançar a Paulista. Mas, definitivamente, não era o que estávamos esperando. Quase um cenário de guerra. No lado direito de quem chegava pela Brigadeiro, algumas caçambas daquelas de plástico estavam em chamas. No outro, via-se uma barreira de policiais lançando bombas de gás lacrimogêneo.

Enquanto isso, o Robertinho estava desesperado para ir ao banheiro, cada vez mais apertado desde que estávamos no meio do caminho rumo à Paulista. Ele resolveu aliviar-se no canteiro em frente ao Edifício Nações Unidas, do outro lado da avenida, sem nos avisar. Quando o achei, vi várias moedas de um centavo espalhadas pelo chão. Como eu as coleciono, comecei a catá-las.

Era uma cena até surreal: o Robertinho “tirando água do joelho” no canteiro, eu poucos metros atrás catando moedas de um centavo e uma bomba de gás lacrimogêneo soltando fumaça a menos de cinquenta metros de onde estávamos. Não chegamos a ficar nem cinco minutos na Paulista e voltamos, pelo mesmo caminho de ida, para o carro.

Na Alameda Santos é que ocorreram as únicas cenas de depredação que presenciamos. Na frente de um prédio em construção, alguns vândalos derrubavam parte do muro de madeira da frente da obra. Pouco mais adiante, um Golf vinho estava com todos os seus vidros quebrados, e outros vândalos estavam tirando o que conseguiam de dentro. Quase ao lado, uma daquelas árvores que foram plantadas ainda como mudas, mas que já estão grandinhas, estava jogada no meio da rua.

Um fato não esclarecido foi o vaso que caiu quase na cabeça do meu irmão, perto da esquina com a Joaquim Eugênio de Lima. Parece que caiu (sem interferência humana) de uma casa ao lado, mas, naquele clima de tensão, não se podia ter certeza de nada. Pegamos o carro e fomos embora, ainda sem sabermos para onde.



Não muitas sugestões pipocaram para substituir a Paulista como nosso local de comemorações. Vila Olímpia, muito longe, acabou descartada de cara, e voltar para casa nem chegou a ser cogitado. Decidimos pela Vila Madalena, que eu já sabia que estava lotada de são-paulinos, devido à experiência pré-jogo. Não precisamos rodar muito para decidirmos pelo bar Quitandinha. E que escolha ótima! As mesas estavam completamente tomadas, apenas por são-paulinos, que festejavam com muito chope. De início, apenas pegamos chopes no balcão e ficamos em pé até vagar uma mesa, o que, felizmente, não demorou muito.

Era emocionante ouvir (e cantar junto) o coro do bar inteiro cantando o hino do São Paulo e outras canções de estádio. E a comemoração não poderia, claro, ficar restrita a uma mesa de bar. Pulamos, desabafamos e gritamos na calçada, até o bar encerrar o atendimento no balcão, depois das três da manhã.

Isso decretou mais uma mudança de local de comemoração. Agora a coisa era mais light, lógico. O cansaço começava a bater. Como as horas de sono não seriam muitas para nenhum de nós, resolvemos tomar um café da manhã adiantado na padaria Dona Deola de Higienópolis. Lá não poderia haver gritos, já que ela fica ao lado do Hospital Samaritano. Por isso, a comemoração foi silenciosa. A minha foi com um pão na chapa e um suco de laranja. Pagamos e decretamos o encerramento da noite.



Fui dormir por volta das 4h15. Pus o alarme para as 8h20, acordei, tomei um rápido banho e fui trabalhar. Com a camisa do São Paulo, é lógico. E não sem antes parar na banca para comprar os jornais do dia. De cara, o Estadão, o Diário de S. Paulo, a Folha e o Agora, além do JT, que não precisei comprar porque o assinava — a banca ainda não tinha recebido o Lance!.

Chegando à Paulista, ainda sem ter noção da destruição causada pelos vândalos (“a corintianização de parte da torcida são-paulina”, ironizaria depois um amigo palmeirense), eu estava com pressa para poder comprar o Lance! e nem prestei atenção no posto de gasolina da esquina com a Pamplona, onde hoje fica a drogaria Onofre, que estava semidestruído. A única coisa que notei — e nem havia como não notar — foi que a saída que eu costumava usar do metrô Trianon-Masp estava fechada.

Ainda com a adrenalina da alegria, não foi tão difícil trabalhar depois de apenas quatro horas de sono. E foi só assim que se encerrou a minha epopeia da final da Libertadores. Muito mais emocionante que as de 1992 e 1993, por sinal.


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