Sobre a morte na piscina

Sinto o sol aquecer cada centímetro do meu corpo, e agradeço ao universo por finalmente estar melhorando da gripe forte que me deixou de cama por uma semana. Viro de barriga para cima para conseguir encarar essa bola de fogo que acaricia gentilmente o meu ser em meio ao inverno.
Ajeito o biquíni molhado, fecho os olhos e abro um sorriso sincero por simplesmente poder estar ali, sem fazer nada. Minutos antes eu terminava de escutar uma meditação guiada sobre gratidão. E uma das frases que mais me marcaram foram as que se referiam à felicidade por se ter a oportunidade de estar vivo, respirando.
O celular vibra no chão de madeira, e ecoa por toda a extensão da minha cadeira de plástico. Decido por meio segundo se pego o aparelho ou não. Está tão bom aqui… Hesito, mas acabo enfim por checar a tela. A mensagem de uma amiga se destaca em meio ao restante dos lembretes:
“Você viu a notícia da morte do Chester?”
Fico um tempo que pareceu uma eternidade tentando processar a informação. Que Chester? Do Linkin Park? O meu Chester? Não, esse, obviamente, não pode ser.
Mas era.
Fui para casa checar a informação, com um pingo de esperança de que fosse uma teoria da conspiração mal feita. Mas todos os meios de comunicação oficiais noticiaram o acontecimento como fato consumado. E nas manchetes o que eu mais temia: suspeita de morte por suicídio.
Suas letras pareciam um pedido de socorro. Seus gritos, cheios de raiva e sentimento, suplicavam por redenção. Todos os fãs da minha geração se identificaram com a banda que era capaz de expressar o que não conseguíamos por intermédio de palavras. Os berros do Chester traduziam as angústias entaladas na minha garganta, davam nome e sobrenome a toda revolta e insatisfação que se acumulavam em mim. Os momentos em que eu podia me trancar no meu quarto, ou ouvir seus CDs no diskman sozinha enquanto caminhava na rua, eram plenos, completos, e cheios de significado e contato comigo mesma. Era catártico. Eu deixava um peso para trás, ficando tranquila em seguida.
Ah, Chester, lembro perfeitamente da sensação que sua voz me causava, que conseguia ser doce e indignada ao mesmo tempo, repleta de dor e esperança.
Obrigada por ter me ajudado a ser forte e me dado conforto nos momentos em que eu só queria deixar de existir. Obrigada por ser uma lembrança boa e eterna de uma fase crucial da minha vida, em que eu estava construindo a minha identidade e relação com o mundo. Obrigada por todo o seu comprometimento com a música, que se modificou ao longo dos anos, mas sempre tinha algo de ti, que era inegável. Você e o Linkin Park fazem parte de quem eu sou hoje e farão até o fim dos meus dias.
No dia seguinte, volto ao lugar em que estava quando li aquela mensagem no celular. Em roupas de banho, entrego meu corpo ao sol, para que me preencha com sua luz e me dê algum entendimento. Meu rosto agora inchando pelo choro do dia anterior e também desta manhã (por ter acordado e descoberto que não era sonho), se contorce um pouco pela intensidade dos raios. Hoje está mais quente que ontem.
Por dentro, ainda tento entender os motivos por eu estar tão abalada. Foi um símbolo da minha força que se vai, eu penso. Foi tudo o que ele representou.
Meus olhos sensíveis ardem quando tento abri-los. Vou para a sombra. A piscina tão cristalina, o céu tão azul, o dia tão lindo. E eu me sentindo tão pequena e incapaz. Coloco o álbum Meteora para tocar. Cacete. Que. Dor.
Começo a chorar, e aos poucos me sinto preenchida com a força que eu sentia quando ouvia suas músicas na pré-adolescência. Como uma epifania, me veio a compreensão de que Chester não nos deixou. Ele está aqui, e tem um pedacinho de sua intensidade em cada um que ele tocou. E não foram poucos. São milhares de indivíduos que tiveram a chance de crescer escutando Linkin Park. Ele cumpriu sua missão dando algum alívio às almas desconsoladas. E encerrou sua jornada entre nós. Acabando com toda dor que carregava consigo (erase all the pain till it’s gone).
Vou para o sol de novo. Sento no mármore quente e sinto uma dor agradável, que me lembra que sou de verdade, que estou aqui, e que sou muito sortuda por respirar.
Às vezes fico meio babaca com a magia que envolve o fenômeno de se estar vivo. Confesso que me aterroriza também a facilidade com que podemos deixar este plano espiritual. É claro que quando questões grandes assim surgem, pipocam dentro de mim os mais diversos porquês. E, vez ou outra, vem à superfície a necessidade de se ter um propósito, uma motivação intensa para querer permanecer na terra. É ela, inclusive, que aparece quando a tristeza me aflige.
Chester provou que não somos insignificantes, que podemos afetar uma quantidade inimaginável de seres humanos através do que fazemos. Mudar outras vidas por meio da nossa é um grande propósito. Pode ser em grande escala — como ele fez enquanto vivo em suas canções, e quando nos deixou, ao retomar um assunto importantíssimo que é a necessidade de se enxergar a depressão como doença — ou pequena, como dizer um simples “você é incrível” para alguém que você se importa, ou até sorrir para uma pessoa na rua que pareça estar passando por um dia difícil. Uma atitude assim possui consequências extraordinárias, tanto para o outro, quanto para nós mesmos.
O sol se esconde entre os prédios e a piscina agora tem pequenas ondas ocasionadas pelo meus pés que se mexem na beirada, e que, em movimento, levam meu olhar emocionado a enxergar para além daquele instante. Vejo o passado, onde as letras do Linkin Park faziam sentido, e volto para o presente, no qual sinto-me repleta de gratidão por perceber que aquelas canções não condizem mais com a minha realidade. Diferente do Chester, encontrei “somewhere I belong” neste plano espiritual, inspirando e espirando, um dia após o outro, agradecendo aos outros por existirem.
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