A Cobra Fumante e a Moça Brilhosa

A única coisa que eles tinham em comum era a pinga.

Mas na peleja, com o suor gelando as costas e o sangue cegando os olhos, todo mundo que não tá tentando te matar é teu irmão. Por isso ele voltou. Por isso ele pagou.

Frederico tava quieto, chorando. Tinha saído da cabana antes dos alemão invadir, mas tava tudo escuro, então ele nem correu. Ele abraçava sua garruncha e mordia seus lábios, com raiva de nunca ter aprendido a rezar.

Ele ouvia os grito lá dentro, em alemão. Só o Vanderlei sabia falá alemão. Ele ficava gritando exudigun, o que era estranho — parecia nome de orixá. Quem sabia dessas macumba era o Silva, que também tava lá dentro. Vivo ou morto.

O peito do Frederico batia que parecia que ia explodí. Ele precisava respirá, mas não queria respirá muito rápido que fazia barulho. (Que barulho o quê, Frederico, com esses tiro todo respingando?) Ele tentou se acalmá. Tinha que fugir.

Os olho tava se acostumando com o escuro agora e tinha alguma coisa pegando fogo lá longe, que ajudava ele a enxergar. Só mato. Só essas porra dessas arvore espalhada que num dá nem pra se esconder.

Um grito veio de dentro da cabana e ele fecho os olhos de novo num susto. Era o Silva. Tinha alguém falando em italiano lá dentro agora. Só o Vanderlei falava italiano. (Será que eles vão me dedá, os fi di puta?)

(Deviam, porque eu sô um covarde!) Frederico se odiou por um minuto. Que que ele tava fazendo? Ia vazá? Pra onde? Ia morrer de qualquer jeito. Mas qualquer coisa era melhor que aqui. (É mesmo, seu cuzão?)

Ele aperto a cara toda. Num sabia o que fazer. Que que tava acontecendo na cabana? Será que ele podia olhar numa boa? Será que os alemão ia ver ele?

(Deus me ajuda!)

Limpando o suor, o sangue e o chôro com a manga lamacenta do uniforme, ele virou e muito devagar chegô perto da tábua solta. Ele olho pelo buraco de um tiro. Agora ele num tava respirando mesmo, explosão ou não. (Num sô besta.)

Lá dentro parecia que tava tudo balançano. As sombra tudo dançando porque a lamparina ia dum lado pro ôtro. Os menino tava jogado lá no chão, amarrado. Vanderlei tava queto, cos olho aberto, olhando dum lado pro otro, procurano alguma coisa. Silva tava de joelho, rezando baixinho alguma coisa na lingua dos preto.

Nenhum sinal dos alemão.

(Será que dá pra ajuda esses fi di égua?) Ele tento ver por outros buraco, mas parecia que num tinha mais ninguém na cabana. (Será?) Fechano os olhos e encostando a testa na parede, Frederico tentou pensar. O coração tava batendo nos ouvido, agora.

Quando abriu os olhos, deu de cara com a cobra fumando, bordada no braço do uniforme, um faixo de luz saindo da bala e brilhando bem na desgraçada. Ele mostrou os dentes. Podia ouvir a voz do Virgulino na sua orelha: “Cê bebeu pinga cos menino, Frederico. Que que cê tá fazeno, moleque?”

(Eu to fazeno feio. Mas eu num quero morrer! Que medo da porra!)

Mesmo enquanto pensava isso, puxou de leve a tabua solta. (Eita.) Bem devagarinho mexeu a bicha pra num fazer um pio. O Silva tava de olho fechado. O Vanderlei viu ele na hora, olhô pra porta e fez sim com a cabeça. Frederico entro, deixano a tábua aberta pra poder sair rápido.

Foi indo bem abaixado, bem devagar, furtivo que nem uma cascavel. A garruncha pronta.

“Silva.” ele falô sem volume. “Da as mão, desgraça.”

O menino abriu aqueles olhão amarelo e sorriu aqueles dente branco. Tava faltando um agora. “Oya!” ele disse baixinho, enquanto estendia as mão. Frederico trocou o berro de punho e puxou a peixera. Sem disgruda a vista da porta, foi ralando a corda até ela arrebenta.

O Silva já foi de quatro mesmo até perto de uma janela pra espiá. O menino era esperto. Quando virou, Vanderlei já tava na frente dele cos punho pronto. Na hora que começo a corta, ouviu um grito em alemão da janela. Seu primero instinto foi olha pra tabua solta. Mas ele continuo cortando.

“Corre Silva, lá fora.” disse cortando o último filete do Vanderlei, que já levantou e correu. (EitaporraEitaporraEitaporra) Os três mergulharam pela fresta e desembestaram a correr.

As lanterna dos alemão no cangote, eles se enfiaram na mata. Ninguém disse brigado. Ninguém precisava. Eles beberam pinga juntos. Pelo menos era fácil correr nesse mato.

“Que que eles queria, Vanderlei?” perguntou Silva.

“Eles queriam nos levar embora, Sargento!” gritou de volta Vanderlei, que corria mais rápido que todo mundo com aquelas perna cumprida dele.

“Os desgraçado deve querer interrogar nóis.” gritou de volta sargento Silva, a pele preta quase invisível no escuro. Mas as luz e as bala tavam chegando cada vez mais perto.

“Sim, sargento. Parece que somos os primeiros brasileiros que eles-” Toin.

E ai o Frederico não ouviu mais nada, só capotou no chão e rolou ravina abaixo. Os olho enxergava um pouco mas tudo balançava. Sabia que tava sendo arrastado pelos praça, mas não sabia muito mais. (Eita que agora eu fui.)

Quando os olho fizero imagem de novo os alemão tava em volta. Ele ainda tava surdo e maluco. Tinha três soldado em volta deles, dois gritando com Vanderlei, um com a arma na cabeça do Silva ajoelhado. Parecia tudo muito perigoso.

De repente alguém jogou uma lanterna na cara dele. Ele voltou a ouvir, mas ao invés dos grito e dos tiro tinha alguém cantando uma musica de igreja. Ai veio a moça. Era ela que tava segurando a lanterna.

(Será que era Nossa Sinhora?)

Não, muito branca. A moça tinha mais de metro de altura, e tava toda vestida com uma ropa de ferro. Tinha uns cabelo vermelho que balançava que nem fogo de vela. Ela tava andano na direção dele, que só conseguia babar.

“Ainda não, Frederico.” ela disse com voz de cabra-macho. “Faça mais.”

Com isso, ela mexeu a lantena na direção dele, só que não era uma lanterna, era uma espada brilhosa, mas bonita que as dos tenente da cavalaria. Ele tentou segurar, mas sua mão tava toda sangrenta e ela escorregou e caiu do lado dele. A luz sumiu.

Quando ele pegou de novo, firme dessa vez, já tava tudo escuro de novo. Os alemão tavam gritando ainda e um deles levantou a arma pra cabeça do Silva. (Que raiva desses puto!)

Frederico pulou e enfiou a espada no pescoço do desgraçado. “Morre diabo!”

Quando puxou, o sangue esvoaço pelo bosque inteiro, pintando os alemão de vermelho. O Silva já pegou a arma do ómi que tava pra matar ele e já atirou num outro. O terceiro virou a garruncha pro Frederico, mas já tava com a lâmina enfiada no bucho antes de atirar.

Os três ficaro quieto. Vanderlei já abaixou e pegou um rifle dum dos soldados, mas Frederico ainda tava agarrado no outro, espada nas custela do alemão. Seus ouvido voltaram a funcionar aos poucos, mas só servia pra ele escuta sua respiração no cangote do ómi que tinha matado.

A clarera inundo de luz de novo. (A moça voltou pra pegar a espada.) Frederico puxou a lâmina de dentro do alemão e o corpo caiu que nem um saco de bosta. Ele virou pra luz.

Tinha uma renca de rifle mirado pra eles. A luz era tudo lanterna. Maioria tava vestido de italiano, mas tinha uns alemão no meio. Frederico rosnou e apertou o punho da espada. Quando levantou ela de novo, na direção dos nazista, ele viu. Era só a peixera dele.

Ainda assim, tomou dois tiro no peito e caiu de costas, empilhando outro saco de bosta no primeiro. Silva ajoelhou do lado dele, rezando com uma cara de puto. (Desgramado tá babando em mim.) Tudo começou a ficar escuro, mais escuro que o sargento.

E começou um pé d’água. De repente. Trovão e raio e tudo. A última coisa que viu foi dois alemão puxando o Silva de cima dele, um relâmpago no céu. Ficou tudo escuro e quieto de vez.

Frederico sempre achou que morrer ia ser mais gelado que isso.

“Você ainda vai beber pinga com eles.”