Direto ao ponto

Atentado a Jair Bolsonaro é repudiável, mas candidato fomentou deliberadamente o clima de instabilidade no Brasil

J.E. Bittencourt
Sep 8, 2018 · 4 min read
Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados (Wilson Dias/Agência Brasil)

O atentado de Juiz de Fora na última quinta-feira, 6, zerou o cronômetro da corrida presidencial pela quinta vez desde o início deste ano. A facada em Jair Bolsonaro (PSL) durante um evento de campanha na cidade mineira desencadeou uma série de consequências políticas e sociais imprevisíveis que só serão medidas ao longo da campanha presidencial. O líder nas pesquisas está preso em uma cela. O vice, internado em um hospital depois de um ataque que por muito pouco não custou sua vida.

É procedimental que em um primeiro momento o direcionamento das campanhas e da mídia seja o de prestar condolências e cobrar investigações, especialmente quando não se sabia ao certo se Bolsonaro sairia da mesa de cirurgia com vida. Passadas quase 48 horas desde o ocorrido, chegou a hora de avaliar, direto ao ponto, o que nos trouxe até aqui. O deputado federal e presidenciável é, em boa parte, responsável pelo clima de ebulição vivido no território nacional.

Os preâmbulos de suas ambições presidenciais, que remontam a 2013, sedimentaram gradativamente o discurso do ódio e do medo. Entre declarações tresloucadas sobre LGBTs, mulheres, negros e indígenas, Bolsonaro soube como ninguém incorporar o sentimento antiestablishment que surgiu a partir das Jornadas de Junho por meio das redes. Apostou na disseminação de notícias falsas que, no geral, apontam para um “Plano Cohen” contemporâneo: doutrinação “gayzista e feminazi” e política nas escolas, sexualização de crianças, legalização da pedofilia, defesa de 1964 como salvação nacional do comunismo e dentre outras falácias replicadas por seus seguidores.

Muito se pode discutir sobre a narrativa do Partido dos Trabalhadores no período pós-impeachment de Dilma Rousseff, mas nenhuma outra entidade política catalisou de forma tão dura e bem sucedida o discurso do nós contra eles do que Jair Bolsonaro. A divisão aberta pelo impedimento da petista se acirrou na medida em que o deputado intensificou o discurso de ódio e fake news, inclusive por meio das redes de apoio que construiu na internet.

Adélio Bispo de Oliveira é conduzido pela PF (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Pouco se sabe sobre o agressor de Jair Bolsonaro, Adélio Bispo de Oliveira, além do conteúdo de seu perfil no Facebook, que aponta para uma personalidade lunática e confusa. Ele afirma que agiu conforme a “vontade de Deus”. As investigações da Polícia Federal deverão esclarecer a questão em um futuro próximo mas, uma vez confirmada a ação isolada e efêmera de Adélio, faz-se urgente um ajuste no discurso dos presidenciáveis e da grande mídia.

Jair Bolsonaro não merecia ser esfaqueado. Contudo, sua retórica nociva é uma das principais causas para o lamaçal no qual a campanha presidencial de 2018 está imersa. É cedo para definir as motivações de Adélio, mas a cultura do ódio já mudou as dinâmicas do país. Quando a caravana de Lula no Paraná foi atingida por tiros, Bolsonaro acusou o próprio PT de forjar o ataque para favorecer sua narrativa de perseguição. Ontem, na cama de um hospital, telefonou para seu vice, General Hamilton Mourão (PRTB) e sugeriu a atenuação do discurso.

O atentado contra o presidenciável é uma mancha na história republicana, ainda que obra de um lunático. Cumprido o rito de solidariedade, um gesto humano de opositores tão achincalhados pelos discursos do deputado, é hora de seguir com a denúncia ao programa militarizado e ao discurso misógino, racista e homofóbico do postulante à cadeira da Presidência da República, e não de recuar. Bolsonaro criou sua própria armadilha.

A imprensa não soube lidar com o fenômeno representado pelo candidato, assim como ocorreu nos Estados Unidos em 2015 e 2016 no tratamento midiático do hoje presidente Donald J. Trump. Na última sexta-feira, os veículos foram novamente reprovados no teste. A despeito da gravidade das circunstâncias, a narrativa construída abriu margem para a martirização de Bolsonaro.

O entorno do candidato, oportunamente, politizou o episódio desde o princípio e deve manter essa postura até o primeiro turno, especialmente se o presidenciável permanecer internado por mais de dez dias. Mourão chegou a atribuir o ataque a um “militante do PT”. Bolsonaro está vivo e comunicável, embora ainda internado, e segue líder nas pesquisas sem Lula. O atentado deve repercutir nas próximas projeções em proporções difíceis de serem estimadas. Não há espaço para recuo, nem deve existir receio em denunciar as consequências de sua campanha virulenta.

Parte da mídia repercutiu que a barbaridade “nunca havia sido vista na história do país”. Em março, Marielle Franco (PSOL) foi assassinada junto de seu motorista, Anderson Gomes. Uma mandatária eleita pelo povo foi morta, segundo apontam as vagorosas investigações, em uma conspiração envolvendo milícias cariocas (que seguem crescendo) e grandes figuras do poder fluminense. Os dois crimes são muito diferentes, mas, seis meses antes de Bolsonaro ser esfaqueado em Juiz de Fora, o Brasil teve a evidência traumática de que a barbárie havia sido instalada. Ignoramos. Quase seis meses depois, seguimos ladeira abaixo em marcha alta.

Johanns Eller é estudante de Jornalismo da ECO-UFRJ. Escreve no Jornal do Brasil.

J.E. Bittencourt

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Jornalismo político e outras coisas.

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