Ladrões de memórias

A eleição do Rio como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 foi por anos símbolo da ascensão do país no cenário internacional. Hoje ela foi desmascarada

Foto: Olivier Morin — Agence France-Presse

Acompanhei assiduamente todo o processo de candidatura da Rio 2016 no fim da década passada. Live your passion. Vivíamos uma euforia econômica impulsionada por um crescimento de 5,1% do PIB e o boom das commodities. O Brasil vivia uma fase de ouro no contexto internacional. Se a Copa já estava garantida para 2014, tínhamos a chance de sermos o país oficial da década seguinte, coroando o processo iniciado pelo PAN 2007 e que contaria com os Jogos Mundiais Militares em 2011 e a Jornada Mundial da Juventude em 2013.

Meu passatempo favorito naquele período era devorar os artigos, documentos e projetos oficiais sobre as obras previstas; sonhava com a possibilidade de viver em uma cidade transformada após a Copa e os Jogos. Mais: de vivenciar essa transformação in loco. Me derretia ao vislumbrar o meu Rio de Janeiro como a capital do mundo por algumas semanas — uma cidade completamente renovada e aprimorada, imersa em uma experiência cosmopolita, mantendo, ao mesmo tempo, a essência do carioca.

No dia 5 de outubro de 2009 eu estava grudado diante da televisão, que exibia uma edição especial do RJTV, da TV Globo, atipicamente voltada para a cidade de Copenhague, na Dinamarca. A comitiva brasileira era composta pela classe política a nível municipal, estadual e federal e também por nomes célebres como Paulo Coelho e Pelé. Lembro de Eduardo Paes, prefeito recém-empossado, discursar em castelhano. Sergio Cabral decidiu arriscar o inglês. Lula falou em português, defendendo com altivez e personalidade a candidatura Rio 2016 diante do homem mais poderoso do mundo, Barack Obama, que estava ali para defender sua Chicago.

Cada segundo. Cada frame daquela cobertura está na minha memória. O curta do Fernando Meirelles com cenas do Rio ao som de uma linda música, entregue para a defesa da cidade, é um marco da representação da nossa personalidade. Havia uma explícita tensão dentre os favoráveis à escolha do Rio porque disputávamos com cidades de peso. Estávamos falando de Madrid, Tóquio e Chicago. A Olimpíada precisava vir para a América do Sul. O Rio de Janeiro precisava dela.

Eu não cheguei a sair de casa naquele dia — faltei à aula para assistir a cobertura jornalística-, mas calculo que a cidade tenha parado nos minutos finais daquela expectativa absurda. O presidente do COI, Jacques Rogge, subiu ao púlpito em um silêncio profundo. Acredito que era possível mastigar o oxigênio daquela sala naquele momento. Rogge abriu o envelope e, enquanto virava o papel com o resultado lentamente em direção às câmeras, entoou com forte sotaque: “Rio de Janeiro!”

Gritei e vibrei. Tanto quanto a comitiva brasileira, que rapidamente se tornou alvo dos cinegrafistas presentes no local. O Presidente Lula pulava euforicamente com uma bandeira do Brasil e pôs-se logo a abraçar efusivamente o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, e o prefeito Eduardo Paes. Pedro Paulo, futuro candidato à sucessão de Paes, também estava lá, junto com outros políticos fluminenses. Paulo Coelho e Pelé também saltitavam com olhos marejados.

É deste momento que gostaria de tratar. Essas cenas sintetizaram, por muito tempo, a esperança de um país que encontrava o seu rumo após a redemocratização. Com um PIB crescente e uma aparente normalidade nas instituições, o mundo inteiro depositava suas expectativas no Brasil. E nós acreditávamos que tudo estava mudando para melhor. Depositamos nossa fé no que viria. Acreditamos naquele momento e em todo o seu simbolismo.

Eu acreditei no choro de Sergio Cabral, na euforia de Nuzman, Paes, Lula e de todos ali presentes. Não reduziria isso à ingenuidade de um adolescente — foi assim com muitos de nós, adultos ou não. Mas eles já sabiam do conteúdo do envelope. As provas da Polícia Federal, do Ministério Público francês e do fisco estadunidense são incontestáveis. Vivemos o mais canalha dos teatros, irrigados com milhões de reais em propinas. Uma estratégia sórdida, costurada para enriquecer empreiteiras e demais empresários que lucrariam com a realização de uma Olimpíada.

Um ano após os Jogos Olímpicos, que de fato entraram para a história, vivemos em um estado com as contas públicas devastadas pela corrupção. Sergio Cabral, uma das estrelas daquele dia, está preso. Não há perspectivas de recuperação total do Rio de Janeiro nos próximos 20 anos sem que haja uma solução milagrosa para a economia do estado.

Em 2009, passamos por cima de Tóquio, Madrid e Chicago e ganhamos o mundo. Hoje, contudo, quase oito anos depois, descobrimos que aquele momento inesquecível da escolha do Rio não ocorreu por mérito.

É a conclusão mais triste de todo esse processo. Eles roubaram, inclusive, as nossas memórias.