Intolerância religiosa e paganismo

Após o advento das religiões abraâmicas, o preconceito religioso tal como as guerras iniciadas em nome da religião, aumentaram significativamente em todo mundo. Judeus nunca aceitaram de braços abertos o cristianismo, e sem pena, provocaram as autoridades romanas contra os cristãos. Os cristãos, por sua vez, na tentativa de se afastar cada vez mais do judaísmo, também provocaram as autoridades romanas, e de maneira muito mais ativa do que judeus. Estes (cristãos e judeus) por sua vez, estiveram unidos várias vezes com o objetivo de destruir a tradição pagã, tendo um inimigo em comum o Império Romano. Anos após o surgimento do cristianismo, outra religião subiria ao palco para participar das perseguições, o islamismo, que também entraria em guerra contra suas religiões antecessoras e contra o paganismo no oriente. Judaísmo, cristianismo e islamismo, três religiões irmãs mas que nutrem um ódio umas com as outras, inimigas de si mesmas e inimigas do paganismo. Tal ódio nunca existira porém, na religião natural de toda humanidade.

Afirmo que a Antiguidade foi o período de mais harmônia religiosa de toda História, um período de grande tolerância e admiração mútua entre as religiões de diversos povos. Claro, a religião da humanidade era o paganismo, e apesar de todos os conflitos que existiam entre os povos, a religião os unia, de modo que todas guerras presentes no período nunca foram por motivos de intolerância religiosa. Negue quem quiser negar, permaneça cego aquele que não quer enxergar a luz, mas a verdade é imutável e independe daqueles que a aceitam ou não: o paganismo é a religião universal de toda a humanidade, a única cuja a tradição e os ritos fazem parte da essência natural do homem. Dessa forma, não havia motivos para intolerância já que todos os ritos, mitos e doutrinas presentes na religião de cada povo, fazia (faz)parte de um todo, de um único princípio, verdadeiro e eterno.

Não há erro nenhum em tratar o paganismo como uma coisa só, algo universal e de origem única, pois mesmo dentro de toda uma pluralidade de tradições de diversos povos — temos as tradições egípcias, persas, gregas, indianas, africanas,etc — é possível perceber que todas elas compartilham muitas similaridades, sendo as diferenças quase que irrelevantes, para falar a verdade. As diferenças existem por fatores materiais, pelo fato de cada povo ter se desenvolvido de uma maneira e ter um passado histórico diferente, ainda assim conseguiam chegar as mesmas conclusões a respeito da cosmologia. Isso é um fato reconhecido pelos próprios pagãos, que conseguiam identificar os próprios deuses na cultura de outros povos, tanto que o sincretismo na antiguidade era algo comum, muito recorrente e acolhido. Por essa maneira, um grego podia jurar sem problema nenhum à um deus egípcio e vice-verso. No comércio entre os povos antigos, que assim como tudo na vida detinha um contexto ritualístico, juramentos sobre deuses de culturas diferentes eram mais que comuns:

[1] O mundo antigo era realmente católico, id est, universal. De fato, o universalismo, isto é, o catolicismo é o efeito comum das trocas culturais entre os povos pagãos antigos. Essa universalidade foi abstraída da própria análise teológica feita por filósofos como Proclo e Porfírio, bem como defendida pelo Imperador Juliano, e também possui lastro nas Interpretatio, isto é, no fato historicamente comprovado de que os vários povos diferentes que entravam em contato juravam sob o mesmo deus, e um Egípcio não veria como ofensa algum jurar sob Hermes no lugar de Thoth. Preliminarmente, cumpre-se demonstrar que o entendimento universal da antiguidade, período clássico e helenístico, até o fim do Império Romano, partilhava desta visão — de que “os deuses” são os mesmos. Esta não é apenas a base legal para contratos interculturais — jurados perante os “mesmos” deuses de diferentes panteões, mas é também a base para a ausência de guerra religiosa antes do advento do judaísmo e do cristianismo. Sim, ninguém pode apontar para uma guerra religiosa pagã, e nunca um povo pagão tentou converter outro, a proeminência de certos cultos se espalhavam livremente, como no caso do culto a Isis que se espalhou pelo Império Romano, bem como o de Mitra. O egiptólogo Jan Assman caracteriza essa fase pré-abraâmica da religião como “tradução mútua” (ou seja, aonde antes tentava-se compreender uma semântica universal compartilhada por diferentes religiões a fim de se apontar para os mesmos entes) e a fase pós-abraâmica como a “distinção mosaica” (a procura de qual religião estava certa, o que colocaria todas as outras em cheque).

A partir dessa interpretação teológica que as guerras entre povos pagãos por motivos religiosos nunca aconteceram. Jamais um pagão considerou as concepções de um outro pagão como sujas, heréticas, ou pervertidas, pois caso o fizesse, estaria condenando a si próprio. Caso um pagão fizesse como os cristãos, apontar por exemplo Odin como sendo um deus falso, maligno, ou qualquer outra ofensa, se este no caso seguisse Zeus, estaria diferindo um ofensa contra o próprio Zeus. Uma sacerdotisa de Freya ofender Afrodite, seria ofender a própria Afrodite, e é por isso que os pagãos da antiguidade jamais profanaram o sagrado de nenhum outro povo pagão, diferente das religiões abraâmicas que vivem se acusando de heresia e de não servirem ao deus verdadeiro, que teoricamente é o mesmo.

Tolerância religiosa no Império Romano

Tenho extrema admiração pelo Império Romano, não só por sua grandeza e conquista mas pelo modo como tratava a religião. Apesar disso, para não fugir do tema do texto, vou abordar apenas o que constituía a base dos ritos da religião romana. A religião romana era constituída de mitos e ritos de vários povos, onde na medida em que iam conquistando povos e expandindo o Império, incorporavam parte da cultura destes:

(…)na medida em que os romanos tinham uma religião própria, não se baseava em nenhuma crença central, mas em uma mistura de rituais fragmentados, tabus, superstições e tradições que eles colecionaram ao longo dos anos a partir de várias fontes. [2]

Exemplo este é da tolerância que os romanos tinham com as outras religiões e o reconhecimento que elas possuíam participação no divino. Um dos fatores pelos quais muitos povos aceitavam fazer parte do Império, era por este conceder liberdade de culto às próprias religiões desses povos e até mesmo incorporar os rituais para a esfera pública da vida cotidiana do Império.

A religiosidade pagã é pura, verdadeira, e todos os povos antigos participavam em um grau ou outro do divino, e sempre reconheceram isso uns nos outros. Isso também está ligado ao fato de que todos esses povos viviam a religião constantemente em suas vidas, onde nada, nem uma simples atividade era desprovida de um contexto ritualístico, como bem dizia Celso:

[3] Celso estava convencido de que toda a vida cósmica está comandada pelas forças demoníacas, que fazem parte de uma única realidade divina naturística e que são dimensões pertencentes à única divindade. O homem deve confiar-se nesses gênios do cosmo, deve oferecer-lhes sacrifícios, segundo os costumes históricos da humanidade, e deve dirigir-lhes suas preces para torná-los benévolos. Os gênios demoníacos produzem com sua ação vital o trigo, a uva, os frutos, o ar bom e a água; assim, o comer, o beber, o respirar são, na realidade, momentos de comunhão vital com essas forças demoníacas divinas [C.C., 8,28]. Não só a natureza, mas também cada momento fundamental da vida humana são protegidos pelos gênios-demônios particulares. Assim, na religião há numes que presidem o crescimento do adolescente para fazê-lo homem; o matrimônio, para ter filhos, além dos que cuidam dos frutos da terra.Essa comunidade sacrílega, que ofende as forças divinas do cosmo, deve ser reprimida energicamente, com todos os meios, por dever religioso, para que se evitem as catástrofes naturais e sociais.

O paganismo por fim é a única religião capaz de unir os povos sob os mesmos deuses, sob os mesmos ritos, e sob uma verdade única, evitando de todas as maneiras a segregação e intolerância religiosa promovida tão fortemente pelas religiões abraâmicas.

[1] Interpretatio: Politeísmo contra politeísmo; Arthur Calloni.

[2] Religião Romana e o Judaico-Cristianismo I; Rodrigo F.

[3] Cristãos, judeus e pagãos; Roque Frangiotti.