Cartas para Ariadne — N°1

Edward Hopper — Compartment C, Car 193 (1938)

Estou ouvindo o som do vagão nos trilhos. É praticamente tudo que consigo ouvir junto ao chacoalhar das bagagens. É menos barulhento do que faço parecer, acredite, mas após tantas horas de viagem os seus ouvidos ficam ocupados com sons repetitivos. Ouço também a sua voz, distante, e pergunto-me se a reproduzo em mente fiel à forma sonora.

Para onde é que você foi?

Quando sumiu aquele dia, com algumas coisas em mente, eu não entendi — ainda não entendo. Soube, porém, que tinha de ir atrás de você. É o que qualquer um faria pela pessoa que ama, não? Ainda que a despedida tenha sido inexistente, e violenta. Ainda que sua carta não faça sentido algum. Todo mundo quer ser encontrado, certo? Peguei o primeiro trem em direção ao lugar no qual pensei que você estará. Nunca havia pisado em um trem, e para conservar o charme que lhe envolve, procurei ficar no carro C, como numa das nossas preferidas do Hopper. Confesso que em breve momento pensei que a encontraria aqui, e sua aventura chegaria ao fim precoce — ou talvez ainda se tornasse nossa aventura, não separada como é agora. Tolice, sei que não está aqui, e que não quer minha companhia, mas eu quero as respostas.

Pensei bem sobre para onde mandar estas cartas. Eu duvido que consiguirei fazer com que elas te alcancem no futuro, então te pegarei no passado. Mandarei-as para casa, e servirão não só como relato da viagem, mas um fio invisível, o mesmo que me leva até você, e que me ligará ao lugar de onde parti. É necessário, pois sinto que essa viagem vai ser longa, e quando se trata de lar, família e amores, não damos a atenção necessária — nunca sabemos se vamos voltar para algum deles.

O trem adentrou uma floresta fria, e da mesma forma adentro sentimentos confusos. O frio pede para que esqueçamos os momentos quentes. Escrevo pra mostrar que parti em viagem atrás de quem amo, mas não tenho nada além desse fio.

Não que eu ache que vá acontecer, mas seria bom te encontrar na próxima estação, querida. Os trilhos agora seguem tortuosos.