Chegada ao Sierra Madre

Andrew Wyeth — Teel’s Island, 1954

Numa viagem à terra natal, durante um café com uma amiga, chegamos à conversas sobre a vida até ali, e o que vem pela frente. Entre algumas palavras que foram ditas no momento, e que foram ponderadas, mas que se aninharam em minha cabeça mais tarde apenas, esteve “desapaixonado”.

Enquanto falava do que me tinha acontecido no ano passado, e hora ou outra indo ainda mais para trás, e citando os planos feitos nos réveillons anteriores — aquelas promessas de “tenho que me dar bem” — acabei em narrativas despregadas de sentimentos ou perspectivas, no que tangia passado, futuro. Durante a conversa, como costuma acontecer somente quando vou para a cama, me senti perdido.

Revisitar o passado tornou-se uma experiência desagradável, mas inescapável. Busco tempos melhores com nostalgia, de lugares que gosto, ou pessoas que amei, mas raramente os encontro. Ao invés disso, me vêm memórias desagradáveis de um punhado de arrependimentos e decisões mal feitas que, ainda que parecessem o certo naquele momento, não me causam alívio. No tom dado, sinto repetir tudo mais uma vez dia após dia.

Entre um passado de promessas que não se concluíram, e um futuro que parece opaco, penso ser natural sentir-me perdido, e talvez devesse ficar feliz em de tudo que poderia acontecer, só aconteceu-me de perder a paixão no discurso. Já escrevi um tanto sobre minhas desilusões, e já li um tanto de e sobre indivíduos mais brilhantes que eu que também se sentiam à deriva. Eu gostaria de me sentir à deriva de vez em quando, e não só um barco amarrado às docas ou um pedregulho perdido na estepe. Às vezes, ao olhar para o passado, esses sentimentos parecem imutáveis. Uma frota de barcos ancorados, uma vasta paisagem rochosa. Outras vezes, o barco naufraga e o pedregulho racha ao sol — só para as profundezas cuspirem os destroços à tona e a poeira formar uma pedra novamente.

Resta a dúvida se no futuro olharei para o agora e me verei içando velas, ou se estas também se revelarão furadas.