De roses et de colombes

As coisas na casa mudaram após a morte de minha irmã. De luto, minha mãe passou a viver na cozinha, certa de que se tivesse que se preocupar com o ponto das coisas, não teria tempo hábil para se concentrar no falecimento da filha. As consequências imediatas disto foram o aumento sensível nas contas de gás de cozinha e água para a lavação das louças; e o desperdício de comida que era equiparável em proporção a de um restaurante de médio porte. Eu, que havia me mudado temporariamente, passava ao menos duas horas do dia lavando e secando as louças, mas quase sempre em silêncio. Tentava, quando os dedos já estavam enrugados e o pano de prato encharcado, convencer minha mãe a parar com um “acho que já está bom por hoje”, mas nunca funcionava. Depois disso, me dava por vencido, jogava o pano no balcão de mármore e ia para outro cômodo. O jantar da noite anterior sempre sobrava para a marmita no dia seguinte e para a de ao menos outros dois companheiros do trabalho.

Meu pai, antes companhia bem humorada, com quem passava longas horas fumando na varanda, tornou-se um espectro que passeava pela casa em lamúrias e suspiros, sossegando somente aos sábados quando assistia a um programa de jardinagem — antes um hobby ao qual era apaixonado — na televisão. Apesar da farta quantidade e disponibilidade de alimentos na casa, emagrecera rápido de forma a deixar sobrando pele no corpo, envelhecendo o rosto em quase uma década. A bem da verdade, minha mãe não estava muito diferente. Havia cinco meses que minha irmã morrera, mas o luto ainda parecia o de primeiro dia, e o tempo que já havia passado ali parecia o de cinco séculos.

A relação com minha irmã mais nova tornara-se morna após a adolescência, e esfriou até congelar depois que casei-me e me mudei para viver junto da esposa. Quando eramos jovens, fui confidente de incontáveis segredinhos que jamais teriam causado qualquer tipo de situação desagradável pois, até aquele momento, fora uma filha exemplar. Foi só quando ficou doente, já quando não nos falávamos, que tinha arroubos de sinceridade enquanto fervia de febre. Certo dia, quando encontrava-mos todos no quarto assistindo a enferma definhar, ouvimos a confissão que mais nos perturbou.

“Eu sempre odiei aquela roseira idiota.”

Referia-se a roseira que havia no quintal, junto a varanda, que havia sido plantada pelo pai no nascimento da filha. Brincando comigo quando crianças, tropeçou e caiu em meio as flores e foi retalhada pelos espinhos. Foi como assistir a versão natural de alguém preso às ferragens de um acidente de carro. No entanto, a família tratou o ocorrido com bom humor. Daí então, tudo que era relacionado a irmã tinha de ter algo relacionado a rosas: de vestidos de estampas florais à decoração do quarto. Desta forma, quando confessou seu desgosto pela planta, causou desconforto geral entre os outros membros. Nosso pai, no dia seguinte, prontificou-se a cortar as flores, ignorando meus protestos.

Odiei, pois sempre amei aquela roseira.

Ser ignorado era comum desde que minha irmã se fora, e só então soube que nunca fui o filho preferido. Pensando bem, a última vez que ouvi as palavras de minha mãe sendo direcionadas a mim foi em ríspida recriminação ao tentar entrar no quarto da falecida. Fazia comentários na mesa de jantar, mas nunca recebia respostas. Um dia, irritado durante uma conversa nostálgica de meus pais acerca das qualidades da filha, tentei ser percebido atiçando-os.

“Minha irmã” — Comecei, mas me arrependi da atitude cruel nas palavras que tecia — “Também não era flor que se cheire.”

Quando nem aquilo me rendeu comentários, desisti e parei de falar qualquer coisa na presença dos pais. Logo tornei-me também pouco mais que um fantasma que rondava a casa e passava longos tempos na varanda, continuando ali pois parecia o certo a se fazer. Toda noite, após o banho, ligava para minha esposa e mentia sobre a situação.

“Devo ficar aqui mais um tempo, meus pais precisam de mim.”

“Eu entendo, só estou com saudades.”

“Eu também.”

E estava, mas a necessidade de ser reconhecido como filho falava mais alto.

Nos últimos dias de vida da irmã, numa tentativa de reatar laços há muito afrouxados, passei a frequentar mais o quarto, pois era o único a quem ela tolerava por longos períodos de tempo. Logo, me tornei novamente confidente de seus segredos, dessa vez um pouco mais secretos. Ouvi da primeira vez que tinha bebido demais, e de quantos garotos já tinha beijado. Não eram muitos, mas até aí pensava-se que não havia sido nenhum. Na penúltima noite, enquanto checava a temperatura, ouvi uma confissão que fui incapaz de atribuir a um devaneio febril, pois o corpo não passava dos trinta e seis.

“Por que você me abandonou quando ficamos mais velhos?’ — E continuou a despeito de minha expressão de confusão — “Eu gostava mais quando éramos mais novos e íamos ao parque jogar pipoca aos pombos.”

Aturdido, pedi licença à irmã e fiz com que minha mãe me substituísse nos cuidados. Fui para a varanda fumar, pensando nas palavras ditas, e concluí que os passeios no parque não ocorreram mais do que três vezes. No último dia, minha irmã não era capaz de falar, e faleceu sem jamais explicar o que fazia daqueles episódios especiais pois, para mim, a memória favorita sempre fora o episódio da roseira.

Em noite parecida, me encontrei novamente fumando na varanda, e dei por falta de meu pai. Ali fora não podia ouvir os longos suspiros e nem ver a luz da cozinha acesa. Naquela noite em especial, sem motivo, esperei que ele saísse para fumar também, mas não aconteceu. Enquanto esperava, olhei para a roseira cortada, e esperei que minha irmã falecida aparecesse, mas também fui decepcionado. Atirei a bituca no arbusto.

“Desgraçada.” — Falei baixinho.

E então chorei pela palavra que disse, pelas que não disse.