Lugar comum pt. 3

Apollo and Daphne (1625) — Gian Lorenzo Bernini

Dessa vez vou fazer tudo perfeitamente certo.

Quando você perguntou se podia me ligar eu deveria ter dito não, teria sido muito melhor para mim. No entanto, tomado pela húbris, achei que estava acima dessas coisas, acima de você. Dada a oportunidade, eu estava determinado a dizer tudo aquilo que não pude da última vez que a vi. Se arrependimento matasse, eu estaria vários palmos debaixo da terra. Quando a ouvi pelo telefone de novo foi como se você nunca tivesse ido embora. Diabo, era como se você estivesse do meu lado novamente, me dando calafrios. Quando percebi estar me justificando para você pensei que talvez aquele fosse meu purgatório, e que eu tivesse morrido sem perceber, para sempre condenado a reviver e justificar situações das quais não me arrependo, tampouco acredito que deveria pedir desculpas. Eu perguntei se deveríamos voltar, talvez dessa vez seria diferente.

Senti vergonha de mim mesmo quando foi você a dizer não. Terminei a ligação pois era incapaz de pensar em como continuar a conversa, que de qualquer maneira já estava chegando ao seu fim, depois daquilo. Talvez o telefonema tenha sido esclarecedor para você, e talvez tenha conseguido dizer tudo que não conseguiu quando terminamos. Eu, por outro lado, só saí com mais palavras entaladas na garganta, como em vários outros momentos do nosso breve período juntos. Uma via de mão única a qual eu já estava acostumado a trafegar. Estranhamente, quando desliguei o telefone, pensei ainda estar naquele limbo, pois o buraco no peito e o amargo na boca eram familiares. Eu me perguntei por vários dias se daquela vez teria sido diferente de fato.

Não é dessa vez hipotética, porém, que me referi no topo deste texto — é de uma próxima vez. E dessa próxima vez eu vou acertar na mosca, sem ligação, purgatório ou vazio. Uma próxima vez sem você.

Dessa próxima vez vou fazer tudo perfeitamente certo, e você (não) vai ver.

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