No movimento

Quando penso em mim mesmo, gosto de pensar em veículos automotivos sendo destruídos.

Minha analogia preferida é de longe um descarrilamento de trem. Tenho alguma dificuldade em pensar em algum evento próximo mais terrível e ao mesmo tempo impressionante. Uma máquina de ferro de inúmeras toneladas, transportando outras várias toneladas de produtos ou pessoas, que segue incontrolável em caminho pré-definido. Tudo isso para o fim amargo de sair de seus eixos e ficar completamente imprestável. Maquinário, carga, trilhos, tudo acabado num espetáculo de ferro e violência. Depois, fica parado durante horas em meio a seus próprios cacarecos.

Outras vezes, imagino dois carros chocando-se numa rodovia, seguiam em direções opostas. Subitamente, são uma única peça que interrompe todo um caminho. Sinto um pouco de medo quando leio ou ouço jornais que relatam esses acidentes e em dado momento é noticiado que vítimas ficaram presas em meio às ferragens. Ferragens é a palavra que me assusta, é a prova máxima que o veículo já não é mais veículo, tornou-se algo além.

A terceira analogia preferida tem relação direta com a segunda. Quando penso em mim mesmo, gosto de pensar em carros, ou o que sobrou deles, sendo triturados em ferro velhos. Aqueles mesmos de filmes, onde o protagonista está preso dentro de seu veículo e por pouco consegue fugir de um fim trágico junto à maquina. Ferros velhos são lugares tristes, afinal. O ferro que já não cumpre seu papel é novamente destruído para qualquer que seja seu novo objetivo. Os carros que chocaram-se na rodovia e que prenderam seus motoristas são jogados no triturador.

Assim, quando penso em mim mesmo, gosto de pensar em objetos quase descontrolados gerando acidentes tão descontrolados quanto eles mesmos. Gosto de pensar em objetos auto destrutivos. O trem descarrilando, os carros na rodovia, o desfecho nos trituradores. É o movimento desenfreado que ironicamente encontra seu fim na cessação de todo o movimento.

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