Nós

Todas as coisas simples e emaranhadas

Ed Fairburn — Anna Fisher (2015)

“Pra você, o que é um dia bom?”

Pensei, enquanto tentava furar a terra úmida com um graveto. A luz quente do poste acima de nossas cabeças deixava a grama levemente amarelada.

“É um desses nos quais nos encontramos.”

“Falo sério.”

“Eu estou falando sério.”

Continuei minha perfuração, mas o graveto se partiu quando estava cerca de um terço dentro da terra. Procurei outro próximo, mas não encontrei.

“Um dia ruim é quando não nos encontramos, então?”

“Não.” — Não sabia se ela olhava em minha direção, então comecei a lentamente tirar folhas da grama, e as senti ainda úmidas ao toque. — “É um no qual chove demais. Ou um no qual eu penso que não vamos nos encontrar.”

Ficamos em silêncio, ouvindo somente os sons noturnos até eu me sentir desconfortável para continuar.

“Os dois geralmente acontecem juntos.”

“É uma droga. Mas a gente sabia que a hora ia chegar.”

“E você se arrepende?” — Perguntei temendo a resposta.

“De ir? Ou de nós?”

“Nós.”

“Não.”

Havia coletado até então algumas dezenas de folhinhas de diferentes tamanhos, mas joguei-as longe quando cansei da atividade. Não caíram muito longe de meu pé.

“Você não pensa em continuarmos juntos?”

Não quis olhar para ela, pois sabia que encontraria o mesmo sorriso condescendente que encontrei outras vezes. Esperei uma resposta que demorou, mas foi certeira.

“Não dá pra ficar juntos e separados ao mesmo tempo. As coisas no meio acabam emaranhadas.”

É, acho que sim.”

Não achava de verdade, pois sentia as coisas emaranhadas naquele exato momento. Continuamos calados, dessa vez sem minha interrupção. Ela segurou minha mão, e permanecemos assim por algum tempo até trocarmos olhares simultaneamente.

“Já é hora de irmos?”

“Vamos ficar mais um pouco.” — Falei porque queria continuar de mãos dadas. — “Você não me falou o que é um dia bom para você.”

Parou um pouco para pensar, e sorriu o mesmo sorriso que me fez cair de amores quando a conheci.

“Acho que é aquele quando como um doce e não me sinto culpada depois.”

Sorri de volta e, quando nos beijamos, sabia que não amaria mais ninguém.