Insegurança de macho

Desde que cheguei do colégio eu tive poucos momentos de paz. Essa paz de qual falo é mental, porque ou eu me ocupo, ou meus pensamentos vão me ocupar da pior forma possível. Já diz o ditado: Mente vazia, oficina do diabo.

De qualquer forma, minha preocupação veio do colégio e se instalou na minha cabeça, como uma coceira. Logo, pensei em escrever aqui e tirar das minhas costas o peso que é se irritar sozinha com um acontecimento sobre o qual aparentemente apenas você se importa.

Faltavam apenas 5 minutos para tocar o sinal que liberava os alunos para ir para casa. Eu estava indo para a sala depois da educação física afim de pegar minha mochila. Um grupo de amigos, todos homens, entraram na sala também. Um deles esbarrou com um outro menino da minha turma e disse “Ei, você é gay?” o menino respondeu rapidamente “Não.” e o belo protagonista da nossa história respondeu “Porque eu acho que é”.

O que você precisa entender é que:

Esse garoto, o que fez a pergunta e que iremos chamar de Macho Alfa daqui em diante, não teria feito isso se estivesse sozinho na sala com o menino. Nosso Macho Alfa é um astro, como todo líder de panelinha. Ele gosta de ouvir as pessoas rirem do que ele fala. Não dele, com ele. Ele nunca vai ser motivo de piada, ele não admite isso. Afinal, ele é o alfa. Ele é o palhacinho, o bonzão, mas ele tem um probleminha: Ele é inseguro.

Sim, o Macho Alfa tem uma insegurança! Sabe qual é ela? A de ser julgado pelas outras pessoas e de ficar no centro das atenções enquanto os outros duvidam da palavra dele. De que forma? Ele não pode ser chamado de feio. De burro, até que ele aguenta. Não pode ser chamado de zé ninguém. Nem de inútil. Ele não pode ser chamado de solitário, sozinho, abandonado, cachorro caído da mudança; Ele tem que ter seus amigos, não é mesmo? O Macho Alfa precisa de uma companhia, alguém que ria de suas piadas. Mas sabe qual é o Calcanhar de Aquiles do Macho Alfa? Aí vai o palavrão, aquele que não deveria ser mencionado, ainda mais por uma mulher como eu: Masculinidade.

O cara é tão inseguro que todo santo dia alguém precisa chegar nele e dizer “Nossa, como você tá MACHO hoje!” pra ele se sentir bem. É esse tipo de cara que tem que chegar nos garotos que não fazem mal algum pra ninguém pra chamar de viado, de gay, de baitola, de fraco, como se tudo isso fosse uma ofensa enorme. Estamos em 2016, eu não deveria ter que falar isso, mas, galera: SABIA QUE CHAMAR ALGUÉM DE GAY NÃO É OFENSA? Você apenas está dizendo que essa pessoa gosta de se relacionar com pessoas do mesmo sexo. Por que isso foi transformado em ofensa? Ou melhor, quem transformou isso em ofensa? O maromba machão preconceituoso que não suporta “viadinho” e que só anda com cabra macho de verdade. Aquele cara que vê uma mulher com um vidro de conserva na mão e corre pra arrancar o pote da mão dela pra abrir. Aquele que rebaixa o carro. Aquele que assovia pras garotas que passam na rua e que deixam elas enojadas. Aquele que manda as nudes da ex namorada pros amigos e que destroem a auto estima da menina porque queria mostrar que pegou ela e que ela estava “comendo na mão dele”. É esse o cara que transforma o “viado”, a “bicha”, o “gay” em ofensa.

Mas voltando ao acontecimento no final da aula do meu colégio, se vocês tivessem visto o rosto do garoto que foi chamado de gay quando ele se sentou num banco, esperando o sinal tocar, vocês ficariam tão revoltados quanto eu. Conheço o garoto a pouco tempo, até mesmo porque estamos no início do ano letivo. Mas ele já declarou não gostar de homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. Se ele é gay? Não sei. Não sei se ele disse “não” para não ser motivo de mais brincadeiras de mal gosto ou se ele simplesmente gosta de garotas. Não é da minha conta. Mas a única coisa que eu quis naquele momento foi levantar, ir até o Macho Alfa e meter o melhor soco que eu pudesse dar no queixo dele. Queria ver a cara de espanto logo depois; Queria ver os amigos dele segurando os braços dele dizendo “Não se bate em mulher, ela é frágil, deixa pra lá”; Queria ver ele percebendo que uma mulher pode apanhar mas também pode bater; Queria ver ele percebendo que os garotos, gays ou héteros, que sofrem nas mãos de caras como eles, não estão sozinhos; Queria ver a cara dele ao saber que eu sou bissexual e que se ele ofender um dos meus novamente eu sou capaz de ser expulsa daquela escola apenas para dar uma liçãozinha de vida pra ele. A última coisa que eu sou obrigada a fazer, é aguentar gente intolerante incomodando os outros porque não consegue resolver suas próprias questões.

Mas… e se aquele garoto for gay? E se esse garoto, nesse momento, ficou magoado e não sabe mais como enfrentar a sociedade que todo santo dia oprime as escolhas dele e diz na cara dele que ele não é gente? E se esse garoto já ouviu esse tipo de ofensa tantas vezes que não aguenta mais? Quantos Machos Alfas existem que regularmente humilham os outros? Quantos garotos-da-minha-sala existem que estão sofrendo, virando saco de pancada do macho-alfa-inseguro-que-gosta-de-descontar-seus-desgostos-nos-outros? Por quanto tempo nós vamos deixar que “gay” e “lésbica” seja uma ofensa ao invés de ser apenas uma menção à opção sexual alheia? Quando é que o machismo vai parar de afetar garotos E garotas, ditando o quão “macho” o cara tem que ser e o quão “princesa” a garota tem que ser? E se nós nunca evoluirmos?

De uma coisa eu tenho certeza: Se nós eliminássemos essa imagem de provedor do homem e essa imagem de indefesa da mulher, não apenas eu seria beneficiada; Não apenas o garoto da minha sala seria beneficiado; Não apenas o Macho Alfa seria beneficiado; Todo mundo seria. Por que nós apertamos sempre na mesma tecla e mantemos costumes e hábitos tão tóxicos pra nossa convivência em sociedade?

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