Clarisse é uma delicadeza diabólica

(e nós somos homens-porcos-esdrúxulos)

De Ravena Melecchi

— Era selva meu, selva mesmo. Tipo mata fechada. Eu ia de facão na frente, dando umas faconada assim — diz o maravilhoso leonino descamisado, nos contando mais uma história em que os outros personagens estão ou sumidos ou viajando por alguma dimensão desconhecida.
Não que eu tenha visto seu mapa astral, mas é lógico que trata-se de um leão no meio da cidade. Ele conta a história percorrendo os olhares de todos, arrumando a postura e a juba a cada pontuação. Gesticulando excitado com a atenção que converge. É um rockstar.
 — Eu falava pra eles, “ó, cês vem atrás de mim, aqui tem que se ligar aqui ó”. Tá, daí a gente chegou num paredão assim, mas um paredão cheio de teia de aranha, umas caranguejeira do tamanho duma bola de basquete — disse ilustrando com as mãos o tamanho que seria o de uma bola de basquete, mas sem dar atenção aos detalhes de alguns centímetros pra mais ou pra menos — A galera toda com uns olhão arregalado que nem umas bolita né, e eu disse que “calma, tá de boa, não mexe com elas que elas tão cagando pra gente”. Aí veio um mongolão, porque sempre tem um mongolão, e me meteu a mão no pareDÃO CARALHO, VEIO UMA NÚVEM DE ABELHA, galera se abaixou mas não deu nada, ficou todo mundo bem… — encerrou ele reticente perante a incredulidade e ao olhar desconfiado sobre a veracidade da história presentes nas faces de quem o acompanhava no círculo boêmio. 
Sabe, depois de tanta bebida e tanto cigarro e tantos alteradores variados de consciência, a história não precisa ser verdadeira, mas precisa parecer meramente verossímil e que entretenha com facilidade, tendo capacidade de angariar novos ouvintes mesmo do meio pra frente do conto, fazendo surgir pequenos sussurros que resumem o começo da história para a nova plateia. 
Estamos no apartamento que alguns de nos habita, não sei dizer quais.

Enquanto a atenção antes concentrada no Leão vai tornando a sala um cochicho só de pequenos assuntos e pedidos de isqueiro, eu percebo o olhar extremamente sexual da loira em cima de mim. Meu Buda, acendo um cigarro e dou-me conta de que ajeito o pinto nas calças. Enquanto dou uma tragada, sentado na poltrona mais pulguenta de toda cidade (ouvi dizer que o bom fim tem um problema crônico de pulgas nas frestas do parquet [ou é parquê?]), sinto um cotovelo repousar no meu ombro, pelas minhas costas. A loira atende por Clarisse, tem o meu tamanho, beirando ter dez centímetros a mais do que um metro e meio. Tremo todinho, sinto uma agitação no meu touro selvagem interno. Dou um pega do meu cigarro pra ela, ela diz que não sabe o que eu faço e pede:
 — Me conta de ti, o que tu faz pra viver? — apesar dos lindos olhos, meus olhos acompanham apenas os movimentos de sua boca.
 — Eu fumo, eu bebo… — meu forte não é o papo quando me sinto honestamente atraído para dentro de alguém.
Ela continua do meu lado, sinto as aves de rapina tentarem adentrar nosso campo energético, mas infelizmente, para eles, quem vai ter essa companhia na madrugada serei eu. Os cheiros que saem do território entre o cabelo e a nuca dela me deixam tonto enquanto nos abraçamos num elo já sexual, óbvio. Sem cara de pau apesar do estado etílico, eu decido transformar o abraço em beijo, recuando lentamente da nuca para os lábios da querida. Clarisse ou está com febre ou eu estou morto. Talvez um pouco dos dois. O beijo dela é como uma cama inteira feita igual ao travesseiro da NASA, saca? Me sinto absorvido, e devido a ausência de figura materna no momento, me sinto também bem cuidado. Fico incrédulo em relação a permanência de suas mãos ao redor do meu pescoço mesmo após o demorado carinho. No meio esse, em que estamos, parece que a maioria dos contatos físicos se dão por necessidade, fome de carinho, fome de atenção. Ela fica. Concluo que ainda tem fome e nos beijamos novamente. 
 — Tu gosta de uísque bom? — ela me pergunta tirando uma biriteira e eu aceno que sim com a cabeça. Aceno um número de vezes incontáveis.
Nos sentamos de frente pra janela e ali ficamos, dividindo uma poltrona com idade suficiente pra ser avó daquele pufe mais novo; um cara aparece pela grade do lado de fora. Achei que era um passante qualquer, um perdido do sábado de noite como nós, porém sem um apartamento pra morgar. Era um conhecido.

— Eai Lucraque, beleza? — cumprimento com tom de questionamento do tipo “colé, o que tu quer?”.
 — Abre aí? — responde ele sem dizer o que quer por debaixo do bigode.
Lá vou eu, pego a chave que funciona mal, dou meu jeitinho para abrir as barreiras, “eai meu qualé beleza?” e vem a resposta “de boa e tu, tranquilight”. Ele é mais alto que eu, mais magro, mais faminto e mais aproveitador também. Quanto ao apelido, ele não joga bem futebol.
Encerro a porta atrás de nós e volto para a minha companhia, sem deixar de ver o que o brother veio fazer por aqui. Meia dúzia de papos e uma música underground tocada no violão depois, ele se revela, eu sabia:
 — Cês não tem um fuminho aí? — sorrindo duma orelha até a outra.
 — Ih, não tem, quer um crivo? — responde o Leão estendendo a mão com o cigarro para ele em meio ao silêncio cúmplice de todos os outros.
Ele fuma, espera vinte segundos depois do final do cigarro e pede para eu abrir a porta de novo. Esses caras…

Com a ausência de novidades no entretenimento, os habitantes vão retirando-se aos poucos. Cada um para seu exílio poético reservado. Somo uma trupe hedonista, quando não temos prazer absoluto ficamos emburrados. Só dormimos quando acaba o álcool, só não fumamos quando as tabacarias estão fechadas.
Veja bem, me atiro no sofá sem a menor despretensão. Quero que ela venha mais pra cá também. Mais rápido do que posso imaginar ela está no meu colo, como acontece nos filmes e como eu imagino que seja a cena se eu estivesse ali parado no marco da porta. Esse sofá já foi palco de mais transas que muita cama de motel, acredite. Estamos despidos e minha bunda está sendo marcada com aquela textura riscada do tecido da almofada. Não passa pela cabeça a ideia de doenças quaisquer, a vida tá aí pra ser vivida, não é não? Que delícia, que regalo, que sobremesa, que pudim de leite moça, que charuto importado, que tesão. Clarisse é um amor só, uma ternura, uma delicadeza diabólica. Clarrrrisse é uma delicadeza diabólica. Diabólica essa Clarisse. Seus gemidos abastecem meu ego, minha coluna nunca esteve em melhor postura. Sua pele é lisa, macia e morna. Deve ser de classe média, classe média alta. Quem não usa protetor solar e creme importado não tem essa pele. Ah, há de ter uma boa alimentação também, bem orgânica. Sim, minha cabeça vai e volta, perdida num fluxo de pensamentos turbulento por conta da mente confusa, mas não deixo de suspirar, gemer, rir e me saciar nem por um segundo. Não importa em que posição estamos, ela dá um jeito de olhar para meu rosto e responder minha expressão facial com alguma que me deixe potencialmente mais alterado. É óbvio que tudo acaba em gozo, é óbvio que é explosivo, é óbvio que isso se tornará uma memória guardada em envelope de veludo. É óbvio também que agora eu vou fumar um cigarro, e é óbvio que vou dormir como um porco (não o animal, mas o homem-porco, esdrúxulo).

Somos podres, galera. O perdão nos cabe porque somos jovens, “eles não sabem o que fazem”. Somos uma espécie de desorganização autônoma e autogestionada. Um amontoado de seres simbióticos em que um enrola e os dois fumam. Não sei dizer o que fazemos, o que queremos ou qualquer coisa mais definitiva que: não sei. Enquanto isso seguimos, homens-porcos-esdrúxulos que somos.


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