Enquanto ela dobra na Jerônimo de Ornelas

E eu vi ela caminhando com o pescoço completamente teso, a cabeça em um ângulo de 25 graus, colocando os fones de ouvido e não dando a mínima pro calçamento fajuto.
Seja crente, eu não poderia fazer nada com relação ao que tinha acabado de acontecer, e nem à quem ela tinha acabado de conhecer.
São sempre eles, os momentos em que a vitrine da paixão quebra e o fora acontece.
São sempre eles, os momentos em que o moreno de jaqueta tem uma jaqueta melhor que a minha.
Seja empático e entenda que, credo, eu me sinto diminuído. Cabelo negro longo e um bom emprego. E eu sou aquele cabra que acaba ouvindo que “tu é acomodado demais, vai ficar vendo a obra da tua vida cair aos pedaços e não vai fazer nada” com algumas alterações de discurso, claro, dependo da via cômica.
Enquanto eu vejo ela dobrar na Jerônimo de Ornelas. Essa mesma que eu não consegui pronunciar pro taxista em uma noite tremendamente abalado, com os químicos faiscando na cabeça feito fogos de artificio mal arranjados para o lançamento na estratosfera, tentando me manter caminhante na calçada com dois pés esquerdos.
Enquanto eu vejo ela dobrar na Jerônimo de Ornelas, personifico no cigarro toda a rejeição da raça humana. Malditas dinâmicas de grupo em entrevistas de emprego. Eu quero é que se abram os portões do inferno, contanto que tenham cigarros lá dentro. Grandes pacotões de Camel lights, de 20, 30, 100 carteiras de cigarro. Ou grandes carteiras de 200 cigarros, que sonho, que sonho.
Enquanto eu vejo ela sair de vista eu penso que, sabe, moleque, não há motivo pra tanto barulho. Eu vou beber uns quantos vinhos, eu vou dar uns tantos beijos vazios de sentido, e eu vou ir em lugares duvidosos e vou dormir em locações de filme de terror e tudo isso vai passar. Mas maldito sentimento de rejeição que parece que a minha mãe me esqueceu na seção de camping do supermercado porque tudo aqui parece feito pra ser transitório.
E essa outra menina vinda da Jacinto e seguindo em direção ao Hospital de Pronto Socorro? Será que ela acabou de dar um fora em outro maluco que também tem uma jaqueta meio falhada feito a minha?
Eu tenho esse naco servido em belo prato, um lindo e vistoso pedaço de merda com calda de rejeição bem molhada e pegajosa por cima. E eu vou comer. E esse prato vai ser difícil de lavar.
Toda semana tem texto novo. Ou quase isso.
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