Internet ou morte!

(Como medo e internet caminham juntos em 2017)

Eu posso seguir as manchas dos meus olhos pra ver onde levam. Me levam a pensar “que dor de cabeça” e eu vou até o quarto pegar um comprimido, tomar um comprido, sentir o comprido fazer efeito, dormir sob efeito de comprido e me comprimir dentro do medo de perder o que eu ainda não conheço: essa gente toda na minha volta, que pensa e faz coisas que eu não faço ideia e que não fazem ideia do que eu faço. Vivemos, eu e eles, apenas com a imagem memética gerada por cada um.

Nesse momento de quase adormecimento, contagia a esperança de que o desconhecido salve o saldo negativo de todo conhecimento. Essa ausência de bravura soa como medo.

Contaminados de medo, buscamos a dormência.

Quando desce o scroll não pensa, nem imagina o que se passa ao fundo do coração, não sente o pânico intermitente movendo a mão, pra baixo pra baixo e pra baixo até chegar no resultado do jogo de ontem. 
Nos sentimos comunitários de uma forma estranha, tomando como verdade a mentira digital que cada um conta. A falsa sensação de realidade. O placebo que combate a paralisia amedrontada e mortificada.

Medo é a palavra principal dos anos 10. Agora, segunda metade de década, tememos a bomba nuclear como a 60 anos atrás, tememos o loiro velho pescoço-vermelho nefasto e presidente, o presidente velho de rapina e viperino, o alimento envenenado e servido ao pesto, o carinho interessado e peçonhento, a chefia impertinente bajuladora, a música falocêntrica que ama paternalmente, o reformismo que beija a mão do Aécio Neves, o final do mês, o sinal vermelho, o não, o “sem sinal wifi disponível” e a morte.
A morte.

Morte é ausência de continuidade. 
Medo em alta intensidade paralisa, vide aquela vez que tu foi assaltado saindo da aula.

Medo em excesso é morte.

Se medo é morte, o saldo de nós é um mundo de mortos-medrosos incitadores de morte-medo, que temem o que não aparece na timeline (ALGORÍTIMO SECTÁRIO), confortáveis cada um em sua bolha e ontem mesmo, aquele colunista que eu gosto tanto, abriu a boca e disse que talvez a Justiça do Trabalho não seja tão necessária assim. E agora ele não faz mais parte da minha bolha. E ontem, aquele historiador filósofo um tantinho prolixo postou foto com o juizão e pá, e certamente isso o colocou fora da bolha de tantos, e pra dentro do feed de outros tantos, igualmente numerosos.

A vida digital binariza quem é feito de carne e não de códigos. 
Quem espera pelo futuro pra ver ciborgues não precisa mais esperar.
É uma relação promíscua, esta a que estamos sujeitos, onde realidade e virtualidade formam um bem-casado sem divisões explícitas.

E a garota com o telefone na mão resmunga, olhando para a tela preta inanimada:

— Eu só queria internet.

Vou parar de baixar o feed e tomar um comprimido. 
Vamos ver se depois de dormido tudo se renova e alguém posta uma bossa nova pra me tranquilizar.

Isso que não falamos em frequência afetiva e carência de likes.


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