Não há camomila suficiente

Captura de tela de “Terra em Transe”. Todos os direitos reservados ao autor.

O cheiro do parquê úmido de urina de gato é o aroma de todas as manhãs. Não há tutorial na internet para desinfetar o meu sofá.
Saudades de quando o bom dia era feito de café e pãozinho.

Abro a janela para alguns pingos de chuva entrarem e penso que “o que poderia ter sido e não foi sempre vai me atormentar”. Cenários e mais cenários onde a ação vai de X pra Y plantam em mim a semente da ideia de que… Argh, de novo, poderia ter sido diferente.

Vou trabalhar com a calma e a certeza de quem já não é estreante.

A psicologa disse que isso é ansiedade. Se for, 13 de 12 pessoas que eu conheço são ansiosas. É celularzinho inteligente numa mão, cigarro na outra, olhos baratinados e toda gama de sinais conhecidos por todos. É preocupação com o passado, é questionamento sobre o futuro e o presente esquecido e expelido no fumacê.

Ansiedade é a arte de viver no paralelo, dentro da mente, fora do momento.

O charme de uma quarta-feira cinza é uma delícia, e de muitos jeitos me desperta simpatia. É dela que não se espera nada mais e nem nada menos do que o nada, a repetição sóbria da rotina encarceradora. Até que lá pelas tantas aparece uma cerveja, um beijo ou um gol e tudo muda de figura. De onde menos se espera, opa, saiu alguma coisa. Mas aí, pensando nisso, começo a me dar conta de que a qualquer momento, seja num sábado de manhã ou numa quinta pela tarde, algum raio pode cair bem no meu lugar. De novo.

Voltamos pra ansiedade, ciclicamente dando nós nos miolos.

Por mais possível que seja enquadrar o descontentamento… diagnóstico às pressas, não consigo. Já é orgânico me contentar descontente. Quando dou por mim, aqui está a cara distorcida e boca torta. Minha cara é meu próprio emoticon de insatisfação.

Carrocel de pés batendo no chão. Não há camomila suficiente no mundo.

Recosto-me na cadeira do escritório, um gole do café e “eu não deveria estar tomando tanta cafeína”, penso. 
Há de aceitar-se como contradição com pernas.
Não há espaço para calma desde que transforam nosso mundinho em um imediato-midiático momento. 
A sua insegurança ansiosa será postada abaixo de seu avatar.

Levanto da cadeira. Fecho a janela. Vou-me embora. 
Vou tentar tirar o cheiro de gatos do sofá.


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