O outono da alma
— Saúde em crise: nos últimos sete dias de greve, mais de 8 mil pessoas foram afetadas pela falta de serviço.— declara o âncora.
—Tragédia ambiental: veja os estragos das manchas de óleo nas praias gaúchas. — retrucou o outro âncora.
— Delações em velocidade máxima: acompanhe as últimas novidades sobre os depoimentos de Delcídio do Amaral e Eduardo Cunha.
E o volume da televisão é drasticamente amputado pelo controle remoto para que ele consiga ouvir o que diz o vídeo na timeline do Twitter. Olha para a televisão muda e suspira. Ele tweeta uma frase de saudade como se ela estivesse morta, mas quem está morrendo é ele.
O sentimento na boca é de derrota com sola de sapato. O cheiro é de primavera em Porto Alegre. Ou de gaveta da sala, cheia de porcaria, cheia como a cabeça.
Guarda-chuva mofado, edredom úmido, lençol suado, tênis embarrado e boca mal lavada. A umidade apodrece a carne, as mãos não tem firmeza, o corpo transpira o que a alma sente. Fel amargo, bala azeda bem mais sour que o sour cream que acompanha aquele burrito vegetariano que eles pediam pelo iFood.
A questão não é o Sol, o céu abrir, as roupas secarem, as plantas brotarem, os ipês florescerem, as amoreiras ficarem carregadas, o almoço ser servido, as estações do ano passarem como passam as estações do trem passam como um borrão pelas janelas do vagão, mas a questão é o outono da alma.
A questão nunca foi a notícia dada no jornal, a economia arruinada frente aos analistas do Banco Central, o desemprego que assola a população em geral ou os debates tardios suscitados pelo estalo conservador que cerceia tudo que difere de sua moral, a questão é o outono da alma.
A questão nunca foi a carta que cai durante o embaralho, o ônibus que arranca deixando alguns com cara de otário, o gol sofrido num cruzamento de primeiro pau, a taxa que o banco cobra quando já não sobra dinheiro pro mingau, a questão é e sempre foi o outono da alma.
O adormecer da felicidade do verão, que lentamente pegou no sono numa brisa de final de tarde deitada em uma rede na praia do Imbé, deu lugar ao outono úmido, despertador de alergias, gripante, enclausurante, incapacitante e desanimador.
O amor deixou a carne junto com o calor. A perspectiva do tempo foi-se junto de mãos dadas. O café adoçou na tentativa de tornar leve o tic tac do relógio.
Ele pensa que talvez não tenha ficado claro até aqui que o outono está vigoroso apenas em seu próprio hemisfério pessoal, dentro de seu iglu anti-carnaval, dentro do seu particular relógio biológico. Lá fora é na verdade primavera, as tardes já começam com temperaturas elevadas e o fim de tarde costuma ser gostoso e convidativo.
Na timeline do twitter ele lê que o Bloco da Laje lançou clipe novo, pessoas comentam felizes que se viram muito ali, consagram a alegria do bloquinho e festejam a chegada do verão que com ele trás de volta as manhãs de cerveja, suor e beijo na boca.
A fome ronca, o burrito volta para o centro do pensamento. Ele lembra do lar que possuía, mas que morreu. “O apartamento morreu”, sussurra em luto quase católico, reza missa de sétimo dia e pede a benção do padre.
“Esse outono está bem rigoroso, acho que o aquecimento global de fato desregulou todas as estações, pareço estar no inverno.”
O outono até vai embora, mas antes o homem aumenta o volume da televisão e descobre os maravilhosos benefícios do physalis, fruta que ajuda o sistema imunológico e combate o colesterol e diabetes.
