Parte I

Eu imploro por uma chance em meio ao gritedo úmido, desesperado. E eu vou desperdiçar essa chance. 
Ontem foi só mais uma queda, nada especial, eu nem ao menos lembro. Me contam, eu imagino e guardo como se fosse uma lembrança legítima. Do lodo de sensações, pântano moral, sou sobrevivente com sequelas. Permanentes.
Já faz algum tempo que eu quero largar daqui, e aqui é esse ciclo de vibrações e egos e Polar litrão 11 reais, mas já foi 6. De calçada, de chorume emocional despejado em local impróprio sem tratamento adequado, tornando todo o ambiente impróprio para banho de sensações.
E de ódio gritado aos ventos, e tóxico. Muito tóxico. E ainda custa caro. 
Perdi a conta.
Do que?
Das vezes que senti vontade de largar, de não voltar.
E eu já larguei, e eu já voltei um sem número de vezes.
Na série da vida de várias pessoas sou personagem transitório, vou e volto, apareço em episódios especiais, comemorativos de alguma forma, torno a desaparecer e as vezes é até involuntário: não percebo que sumi, porque chego a sumir de mim mesmo e não notar.
Vou prum canto, me envolvo com outros lençóis, toco por outras bandas. Estabilizo. Regenero. Passo a me sentir melhor, produzo amor próprio. De repente, algo desencadeia uma série de porres, de besteiras, de burradas, de sarjetas, de sarjetas e sarjetas. Pronto, fundo do poço, estaca zero. Me afasto, vou proutro canto.
Dança que eu não sei dançar. Mas eu tento.
Pra plateia fica claro que eu não sou um bailarino russo quando se trata desse passo. Alguns chegam a perguntar se eu tô bem. Eu não sei responder, eu só digo que sim. Confesso que não tenho certeza do que esse sim significa, mas sim, eu tô bem.
E eu também consigo enxergar os que sabem dançar essa dança, ou pelo menos os que sabem fingir melhor isso tudo. Chegam as 6 da manhã com poucas marcas de guerra, até alguns êxitos, umas frases de Twitter e tal. São os que me colocam no Uber, que pedem e até as vezes pagam o meu transporte, sensibilizados pela derrocada do guerreiro amigo. Desconfio que eles, ao chegar em casa, arrumem a cama calmamente, comam alguma coisa antes de dormir. 
Eu? Eu não sei como eu cheguei em casa, nem como consegui colocar o colchão no chão da sala. 
E ela, ela também tava lá. De dentro da garrafa, não consegui decidir se me aproximava ou não. Bateu o nervoso. Bateu.
Fiquei olhando, pensando, tremendo. E bebendo. Bebendo. 
Que mulher. E é difícil sim descrever. Também, no calor do sentimento, eu sempre tive dificuldades de falar sobre uma mulher. Depois de curado, aí sim, laudas e laudas de sentimento já seco. Por enquanto, prefiro sorrir e apenas.
E que noite estranha.
Mas tudo bem, é só mais uma noite, só mais uma queda. Nada especial.


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