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(Texto publicado antes no meu blog, escrito em 25 de fevereiro de 2014.)

“É impressão minha ou o metrô hoje está mais lotado? Ah, claro, a maldita chuva. Todos tiveram a mesma preocupação de não pegar trânsito, e saíram mais cedo de suas respectivas casas. Complicado é esse impasse, ainda não sei se vale a pena ir de carro ou de transporte público. A situação é complicada em ambos os casos, já cheguei a ficar boas horas no trânsito, ao ponto de me atrasar consideravelmente no trabalho, por outro lado, se o metrô me faz chegar em um horário plausível esse — porra, precisa pisar no meu pé?”

– Desculpa, moço!

– Han, tudo bem…

“É todo dia a mesma merda. Fica difícil acreditar que aceitar essa oportunidade de emprego tenha valido a pena, por mais que a remuneração seja muito maior que o meu trabalho anterior… Enfim, pare de ter essas ideias. Você precisa desse emprego. Afinal, tem que honrar com o compromisso de pagar a pensão. Pudera! Sandra sempre se dizia ser uma mulher independente, que conseguia se garantir… Puta merda, Roberto, pare de ter esses pensamentos escrotos! Você está fazendo isso pelo seu filho, mais do que qualquer coisa. Tudo pelo João Pedro. Faria de tudo por ele. Como será que o Pedrinho está se saindo na escola nova? Ele deve ter feito novos amiguinhos, já? Sandra nunca me dá notícias dele. Que saudades do João Pedro, meu Deus. Espero poder vê-lo o quanto antes… Comprarei um belo presente a ele, afinal, sempre foi um bom garoto, e não quero que por ventura ‘se esqueça’ de mim, ou que de alguma forma perca o carinho que tem por mim. Seria um homem perdido sem o amor do meu filho. Tudo pelo Pedrinho. Tudo… Nossa! Verdade! A fatura do cartão de crédito, hoje mesmo terei que ir à agência depois do”

– Senhor, pode se sentar aqui!

Olhou para trás, vendo se havia um idoso atrás dele, para ver se precisaria dar passagem. “Mas essa moça olhou para os meus olhos quando perguntou. Estaria ela se dirigindo a mim?”

– Senhor, senta aqui! — Repetiu a mulher, simpática e atenciosa. Levantou-se e carregou em seu ombro a grande bolsa de couro.

– N-não…precisa… é…

– Senta, pode se sentar!

Levantou seus olhos. Sua visão cruzou o olhar de um jovem, com camiseta do The Who e livro do Stephen King em mãos, que observava aquela cena. Constrangimento era pouco. Tentou se defender das palavras proferidas pela moça — uma ofensa! — , dizendo-lhe que não tinha mais que 65 anos, porém o desembaraço consequente da surpresa mais a imersão em seus pensamentos o impediram de dizer palavras entendíveis, uma frase completa. Sentou-se, consternado, ao lado de uma futura mãe. Desacreditou naquilo, pela primeira vez, em seus cinquenta e sete anos de vida, sua pessoa se deparava com tal tipo de situação. Sempre foi aquele que cedia o lugar aos idosos, gestantes e deficientes físicos, independentemente se estava sentado em um banco reservado ou não. Ele sabe do sofrimento de uma pessoa que precisa descansar as pernas. Conviveu muito, após adulto, com as reclamações da dor do reumatismo de sua mãe, e também com as reclamações do cansaço causado pela obesidade, no caso da sua ex-sogra. Agora, no entanto, ele era — aparentemente — o beneficiado pelo local reservado. Ele “precisava” se sentar. Toda a sua linha de raciocínio se concentrou nesse pequeno acontecimento.

“Eu não pareço tão velho assim, não é possível! Cinquenta e — quantos anos eu tenho mesmo? Se eu nasci em 1956, faço aniversário em setembro, estamos em fevereiro… Cinquenta e… sete, isso — Cinquenta e sete anos! Ainda que se a lei dissesse que as pessoas aos 57 anos são consideradas idosas, até vai lá! Mas não, a idade mínima é de 65 anos. Sessenta. E cinco. Oito anos de diferença. Envelheci tanto assim?”. Tirou o smartphone e usou o reflexo da tela desligada para olhar seu próprio rosto. Os cabelos grisalhos apenas na lateral da cabeça, evidenciando uma calvície avançada, o olhar cansado de quem muito viveu e vivenciou nessa vida, a coluna um pouco encurvada, o rosto enrugado e o sobrepeso denunciavam um claro envelhecimento de Roberto, que se acentuou bastante após todo o processo de separação e aquela burocracia toda. Talvez cravar que já era um idoso poderia ser exagero, mas uma avaliação apressada torna tal veredicto até que plausível, diante das circunstâncias — a moça queria ajudar e estava com pressa.

“Pete Townshend com certeza já beira os seus 70 anos. Stephen King já tem mais de 60. Ambos já são teoricamente velhos, mas são homens importantes e ativos, que continuam a influenciar gerações e gerações. Idade é relativa, Roberto. E ainda tenho 57. Não estou velho. Você ainda é lúcido e inteligente, Roberto. Mas a Marcela tem 35 recém-completados.”

Um lapso de tristeza profunda entrou no mais íntimo dos sentimentos de Roberto, enquanto viajava (sentado) em seus devaneios.

“Ah, Marcela. Consigo eu ser o homem certo para você? Eu sei que nosso relacionamento não passa de uma aventura, uma fuga nossa dos nossos casamentos mal-sucedidos, mas meu apego a ti cresce a cada dia. Tão jovem e tão madura, ao mesmo tempo. Nada é eterno, mas sinto-me agora incapaz de lhe fazer feliz neste momento, no presente. Sinto-me como um peso nas suas costas. Um peso de 57 anos, que pareceu ter vivido as duas guerras mundiais. Como pode um acontecimento tão significante causar um”

-Estação Faria Lima.

A mente de Roberto foi interrompida pela voz da mulher do metrô. Chegava então ao seu destino. Precisava se levantar. Se levantou. Precisava sair do vagão do metrô. Saiu. E precisava agora encarar mais um dia do seu rodo cotidiano.

E encarou.