A insônia que traz um turbilhão de pensamentos na madrugada

Escrito por Marcelo, um alter-ego qualquer

Eram exatamente três e quarenta e quatro da madrugada quando eu resolvi ligar o meu notebook e começar a escrever. E, cinco minutos depois, cá estou eu diante da tela, buscando uma forma de tentar sentir algum sono, por menor que seja. Ironia do destino, justamente agora começo a bocejar e, se eu pudesse apostar com alguém que deixaria de sentir sono no exato momento em que deitaria na cama, com certeza ganharia a aposta. Penso na garrafa de uísque que está dentro do armário, o qual dediquei um espaço justamente com o objetivo de guardar a bebida. “Conserve em ambiente com pouca luz, em um local seco e arejado”. Foi o que eu li em algum lugar sobre armazenamento de uísques. Ou talvez deva ter visto isso em alguma outra embalagem qualquer.

De todo modo, a ideia de beber para sentir sono parece ser boa, mas preciso resistir. É um pequeno passo para se ter uma tendência ao alcoolismo, e acredito que a linha que separa a sobriedade da dependência é bastante tênue e depende de ações que, isoladas, parecem inofensivas mas que, unidas, podem trazer um resultado catastrófico. Além disso, não há dentro de mim nenhum sofrimento que torne necessária a ação d’eu me embebedar a essa hora da noite. É só a falta de sono mesmo. Talvez até por isso mesmo não seja perigoso beber, mas deixarei esse pensamento ir embora livremente.

Sofrimento. Claramente não é essa a razão da minha incapacidade de dormir neste exato momento, nem raiva, ou qualquer sentimento negativo tão grave. Contudo, devo admitir que algo me incomoda, desde o início do sábado. Sim, passei o fim de semana inteiro ao lado de diversos pensamentos que martelaram a minha mente. Foda é que eu sei que o que me leva a esses incômodos são fatos pequenos, quase minúsculos diante do universo de problemas que existem por aí no mundão lá fora. Mas esse sou eu, deveras preocupado em assuntos banais, ao passo que também demonstro o mesmo nível de tranquilidade em tópicos complexos da minha vida pessoal. Sinto que consigo levar situações difíceis com muito mais facilidade que as fáceis, ou, como cantada em uma música:

Hice fácil adversidades,
y me compliqué en las nimiedades

O que tem tirado meu sono são palavras que A. me disse. Fico a pensar com meus botões, “por que raios disse aquilo”, tentando encontrar algum contexto, alguma razão para que aquilo fosse externado por ela. Como um bom ser humano paranoico, tento encontrar razão em toda e qualquer ação, seja minha ou de alguém, mas tal missão se torna muito difícil quando ambas se perdem no espaço-tempo, ainda mais quando as lembranças estão dentro de situações regadas a álcool, drogas, loucuras e um universo infinito de fatos que ocorreram simultaneamente, numa velocidade e intensidade que há tempos não sentia outrora. Sinto que tudo se perdeu em algum limbo quase que irrecuperável, o que acaba, em certos momentos, afligindo-me de uma maneira a qual dificilmente poderia explicar com palavras exatas.

Ou talvez possa explicar.

Apesar do contexto em que elas foram ditas ser tão insano, tudo o que foi falado parece fazer um sentido, dentro de mim. É como se, mesmo que estivéssemos no auge do ébrio, A. dissesse coisas que atingissem alguns sentimentos ainda confusos dentro de mim e que tento, eventualmente, negá-los veementemente. Mas mesmo assim ela conseguiu ler as entrelinhas através dos mínimos detalhes das minhas ações, de uma forma que eu mesmo não poderia auto-identificar.

“R. ainda mexe com você, não é?” — foi uma das perguntas dela.

Como uma forma de me defender, eu nego, mas ao mesmo tempo sinto que a negação é da boca para fora. E aí é que meu cérebro começa a trabalhar em várias frentes. Primeiro, ao tentar encontrar a resposta sincera para tal pergunta. Segundo, ao já buscar um plano de ação diante do meu iminente veredicto. Depois, como num momento de punição, passo a me perguntar por que R. consegue me atrair, mesmo tendo a perfeita noção de onde isso pode parar (no caso, em lugar nenhum). E, por último, mas não o menos importante, passo a me perguntar o por quê de A. olhar nos meus olhos e lançar tal questionamento, mais uma vez. Parece que A. se incomoda um pouco com essa pergunta, e isso me faz também pensar cada vez mais e mais, num ciclo quase que vicioso de infinitas linhas de raciocínio que preenchem a minha mente de uma maneira muito forte, dentro de mim. E cada vez mais sinto que o fato de A. se importar demais com isso também acaba me deixando preocupado, pois sinto-me cada vez mais dividido entre duas garotas que, de uma forma improvável, trazem uma sensação de completude à minha vida.

Sim, eu sei que é algo besta com o qual estou ocupando minha mente de uma forma improdutiva. Afinal de contas, são diversas especulações que, no final, não levaram a lugar nenhum se mantidas no universo das possibilidades. E as respostas são uma questão de tempo. Eu preciso aproveitar mais o momento e pensar menos nos por quês de tudo.

E foi justamente através da minha dispersão dentro do tempo presente que A. identificou algo que tento esconder, mas que num leve descuido pode ser facilmente descoberto por olhos mais afiados. E olha, parece que quase ninguém supera a capacidade de observar de A., assim como a sua intensidade em levar a vida que me faz ter cada vez mais vontade de mantê-la próxima de mim.

Eu penso demais, isso é verdade, e se Descartes pensa, logo existe, o excesso do pensar só por pensar pode levar a uma existência bastante dolorosa.

Ou levar a boas noites de insônia.